O miúdo que queria ser como David Beckham
Santiago Munez nunca ouviu Gabriel Alves explicar o que é um “carregador de piano” ou falar constantemente na “força da técnica contra a técnica da força”. E muito menos teve o prazer de sentir a emoção transmitida por Jorge Perestrelo ao disparar bem alto: “ripa na rapaqueca” e “é disso que o meu povo gosta.”
Ou ver Figo, Rui Costa e Paulo Sousa conquistarem a Europa com dribles impossíveis, cheios de técnica e classe. No México, onde nasceu, as referências são outras. Em Los Angeles, para onde foi era ainda criança, o desporto vive à volta do basquetebol e o basebol. Ele, que como muitos outros conterrâneos saltou a fronteira rumo à terra das oportunidades, só pensa no futebol. Os pais arriscaram a vida em busca de fortuna, preferiam vê-lo deixar de perder tempo e seguir o negócio da família, mas a ideia de um dia ser Rei nas quatro linhas, herói da finta curta, artista do rodriguinho, não lhe sai da cabeça por um único segundo.
O sonho começa a ganhar contornos de realidade quando Santiago Munez mostra as suas qualidades numa peladinha onde está presente Glen, ex-jogador do Newcastle, a gozar umas merecidas férias nos Estados Unidos. Este convence o miúdo a viajar até Inglaterra, prometendo-lhe entrada directa num treino de captação para a formação que noutros tempos acolheu o português Hugo Viana.
ASSIM COMEÇA 'GOLO!', espécie de ‘Senhor dos Anéis’ do futebol, primeiro capítulo da trilogia que acompanha a trajectória de Santiago Munez dentro e fora de campo. Fora, aliás, o filme assume um carácter totalmente ficcional, cheio de episódios tirados de um qualquer conto de fadas.
Primeiro há o drama, a dificuldade do jovem em provar a um treinador mais duro do que José Mourinho que tem direito a um lugar no ‘onze’ titular. Depois, há tentativa de ganhar o respeito junto do pai, a luta interior entre continuar simples e humilde ou tornar-se convencido e arrogante como o companheiro de equipa (e ‘playboy’) Gavin Harris, e ainda a história de amor quase impossível com uma bela enfermeira da equipa.
PARA AJUDAR À FESTA e tornar a acção mais real, o realizador inglês Danny Cannon, nos últimos tempos muito entretido com a série televisiva ‘CSI’, contou com a preciosa colaboração de alguns dos maiores futebolistas do planeta.
Como não poderia deixar de ser, ou não estivesse o Newcastle no centro de todas as atenções, ‘Golo!’ dá ênfase a alguns dos actuais ícones de St. James Park, casos de Alan Shearer – ponta-de-lança com um passado brilhante na história do clube – e Kieron Dyer. Mas há mais estrelas dos relvados. Os ‘galácticos’ David Beckham, Raul Gonzalez e Zinédine Zidane também picam o ponto, assim como o agora valenciano Patrick Kluivert.
Certo e sabido, os filmes sobre futebol têm sempre um enorme problema para resolver: os dotes de representação dos jogadores costumam ficar-se pelo célebre ‘mergulho na piscina’ dentro da grande-área, enquanto os actores geralmente chutam para onde estão virados. Quanto a isso, não há volta a dar. Resta ver ‘Golo!’ e esperar pelos próximos capítulos da aventura do menino a querer ser tão ou mais famoso que Beckham. Será possível?
GÉNERO - Acção/Drama/Desporto
REALIZAÇÃO - Danny Cannon
ACTORES - Kuno Becker, Alessandro Nivola, Marcel Iures, Stephen Dillane, Anna Friel
CHUTOS E FINTAS NO CINEMA
'ANGÚSTIA DO GUARDA-REDES ANTES DO PENALTY' (1972) - Wim Wenders num clássico do género onde prevalece o factor humano.
'FUGA PARA A VITÓRIA' (1981) - Prisioneiros aliados e guardas nazis defrontam-se dentro de campo. Com ‘Sly’ Stallone e Pelé.
'A MÁQUINA' (2001) - Vinnie Jones na pele de um jogador talentoso que está preso. Entre o drama e a comédia.
'SHAOLIN SOCCER' (2001) - Mistura atípica entre futebol e kung-fu, ou não fosse este um filme realizado no País do Sol Nascente.
VAI GOSTAR SE... é fanático pelo ‘desporto-Rei’, não perde um único jogo da sempre espectacular Liga Inglesa e deseja ver os seus ídolos no grande ecrã.
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