“O nosso objectivo era ‘salvar a pele’”

Em Mueda, Moçambique, a guerra era extremamente complicada. E sei que devo a vida à coragem e ousadia dos nossos ‘homens dos aviões’

16 de setembro de 2012 às 15:00
Guerra do Ultramar, Guerra Colonial, Moçambique Foto: Direitos reservados
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Fui admitido como voluntário na Força Aérea, com destino a uma das especialidades, em Janeiro de 1971. Feita a recruta e a frequência do curso de Comunicações (OPC), fui colocado como cabo especialista no Estado-Maior da Força Aérea e mais tarde mobilizado para Moçambique. Aterrei na base aérea da Beira, onde permaneci cerca de quinze dias a aguardar colocação. As hipóteses eram várias: ficar no Centro de Comunicações desta base, ir para Lourenço Marques, para as tripulações de Nords (aviões de carga), etc. Acabei por seguir para norte, para o aeródromo base nº 5, em Nacala.

Durante alguns meses, ali permaneci a fazer o serviço inerente a um Centro de Comunicações naquele local. Alguns colegas tiveram a vida mais complicada, porque com regularidade acompanhavam os batalhões de pára-quedistas em missões no mato.

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APOIO NO TERRENO

Em Setembro de 1973, recebi guia de marcha para o destacamento de Mueda. Aqui, a vida militar passou a ser diferente. Além do restante serviço, dava também algum apoio rádio aos aviões após estes saírem do controlo de aproximação da torre, recebia os pedidos de evacuação dos militares atingidos em teatro de operações, informação da carga dos aviões, transmissão da meteorologia aos pilotos e pedidos de apoio aéreo.

Nesta zona de guerra, os ataques ao aeródromo militar (e ao aquartelamento do Exército) eram frequentes por parte do inimigo. Éramos bombardeados regularmente com morteiros e tentativas de ‘golpes de mão’. Dois colegas de recruta, um de comunicações e outro de material aéreo, juntamente com os pilotos de um Nordatlas, perderam a vida quando o avião carregado com combustível embateu na encosta junto ao aldeamento de Mueda e se incendiou.

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Foi triste, pois havia grande coesão no grupo. Especialistas e não especialista da Força Aérea, todos trabalhavam e lutavam com o mesmo objectivo: ‘salvar a pele’ naquele local de guerra extremamente complicado.

Contudo, quero aqui expressar a minha homenagem aos ‘homens dos aviões’, particularmente aos pilotos dos helicópteros, dos T-6 e dos Fiat G-91. Os primeiros pelo perigo que diariamente corriam ao sobrevoarem o epicentro das operações, evacuando os feridos, tendo salvo centenas de vidas; aos pilotos dos T-6 e dos Fiat porque, com elevado risco, às vezes no limite da autonomia dos aviões, bombardeavam o inimigo e as suas rampas de lançamento, permitindo ao aquartelamento e às tropas que estavam no terreno reorganizar-se com melhor segurança. Talvez possa afirmar que também lhes devo a possibilidade de hoje estar aqui a dar este testemunho.

Regressei à metrópole a 30 de Abril de 1974. Assisti, como espectador, ao 11 de Março e vivi em plenitude os acontecimentos do 25 de Novembro. Estava nessa data colocado no Comando Operacional da Força Aérea (COFA), em Monsanto, e era ‘residente’ no então GDACI. Estive também detido na messe do GDACI a partir das 20h00, tal como todos os militares que se encontravam dentro do quartel. Passados estes anos, e olhando para o passado, não sei o que marcou mais a minha vida; se foram os meses de tropa, em Moçambique, ou as horas em que estive no GDACI/COFA, no dia e na noite de 25 de Novembro e no dia seguinte.

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PERFIL

Nome: Alberto Brito

Comissão: Moçambique (1972-1974)

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Força: CIC: Especialista da Força Aérea

Actualidade: Aos 60 anos, é casado e pai de dois filhos. Vive em Olhão

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