O olhar de Maria
Foi criada de servir, íntima da alta burguesia lusa, francesa e espanhola, passou pelas cadeias de Portugal e Espanha. Os portugueses conheceram-na em 1986 como figura central do ‘Sãobentogate’, e em 2002 como modelo inspirador da telenovela ‘O Olhar da Serpente’.
Em Espanha é Maria, simplesmente. A sua loja de miudezas – das roupas aos atoalhados, dos cães de louça aos galos de Barcelos – é a mais popular de Villamayor de Santiago, a pouco mais de uma centena de quilómetros de Madrid, terra do seu companheiro Luiz Galo Fernandez Fernandez. Aldeia simpática e tranquila. As gentes vivem da terra, onde o queijo e o azeite são afamados em toda a Espanha. O povo adoptou a portuguesa, sobretudo as mulheres, de quem Maria é mãe e irmã, conselheira e confidente. Interpelam-na na rua, motoristas acenam das carrinhas ao passarem diante da loja. Sabem que Maria teve uma vida “salerosa”, que esteve detida e que o seu nome tem impacto em Portugal e já ouviram falar da telenovela ‘La Mirada de la Serpiente’. O que os diverte.
MADRID A SEUS PÉS
Maria da Graça chegou a Espanha nos finais de 80. Em Lisboa, com o nome esgotado pelas vicissitudes do ‘Sãobentogate’ – escândalo de corrupção que abalou a PJ do Porto –, pousa o olhar num anúncio do jornal ABC. Em Madrid, uma família burguesa procura uma empregada. Maria filou a oportunidade. As referências da ex-presidente da Cruz Vermelha Portuguesa Isabel Lopes da Costa escancaram-lhe a porta e ruma a Madrid.
O seu porte aristocrático, o trato fino, a familiaridade com a etiqueta da alta sociedade, e a capacidade de trabalho de sempre, depressa a elevam a governanta de confiança. Maria sabe receber, organizar, e do que as altas individualidades do negócio e da banca madrilenas que frequentam a mansão gostam ou não gostam. Para a família Francisco Gonzalez – actual presidente do Banco Bilbao Vizcaya – foi um anjo que lhe caiu do céu. “Gostaram logo de mim, tornei-me mais um membro da família. Insistiam para que abandonasse o avental”, diz Maria da Graça. O grande teste surgiu quando foi convidada a organizar uma grandiosa recepção, num 31 de Dezembro. Maria nem hesitou em aceitar a incumbência, para a qual, de resto, subtilmente se havia disponibilizado algumas semanas antes. O que nem todos sabiam é que também era o dia do seu aniversário. Não descurou os mais ínfimos pormenores.
Da manga, retirou todos os trunfos, que a parada era alta. Como o do vinho Palácio da Brejoeira, que um dia “por acaso” ouvira uma das visitas gabar. Discretamente, mandou vir de Portugal algumas caixas do precioso alvarinho. A recepção foi um sucesso de que não há memória por aquelas paragens. A magia de Maria a todos encantou. No final, quando na cozinha reorganizava os despojos da batalha gastronómica, foi chamada ao salão. O coração sobressaltou-se. Alguma coisa teria corrido mal? Estranhou as luzes apagadas mas a momentânea confusão depressa se dissipou quando a sala se iluminou e os convivas a homenagearam com os primeiros acordes dos parabéns a você. No final, brindada com uma estrondosa salva de palmas, Maria deixou rolar uma lágrima de comoção. Não só porque era sentida como bem sabia como fazer durar uma ovação. Madrid estava a seus pés.
A partir deste dia, passou a ser requisitada pela fina-flor madrilena. Quem não prescindia dos seus serviços era Isabel Preysler, a ‘ex’ de Júlio Iglésias, na altura já casada com Miguel Boyer, ministro das finanças de Filipe Gonzalez. “Agora, só pontualmente aceito prestar esses serviços, sempre muito bem pagos”, diz, com orgulho.
ÁGUAS TRANQUILAS
Foi por essa altura que conheceu Luiz Galo. “Vários homens me catrapiscavam mas eu refreava-lhes os avanços. Disse-lhes que se me enamorasse de alguém, seria do Luiz”, conta. A seu lado, Luiz houve, impassível, as histórias que a companheira desbobina. De vez em quando é solicitado a confirmar um ou outro pormenor, mas mais não lhe é permitido, Maria interrompe-o quando aduz qualquer comentário não autorizado. “Cála-te, tu não sabes contar”, atalha.
“O Luiz era o mais feio e o mais parolo do grupo”, continua. Luiz concorda, divertido: “E ainda sou feio”. Já no que respeita ao “parolo”, atreve-se a discordar, mas não tem escapatória: “Eras parolo, sim senhor, nem sabias vestir-te, sempre com umas camisas horríveis, uns casacos saloios”, sentencia a companheira.
O que teria visto Maria naquele discretíssimo engenheiro mecânico, cuja vida se resumia a uma infância tranquila em Villamayor, os estudos em Madrid e o ingresso na Renault, onde se mantém há mais de 30 anos?, perguntavam-se os marialvas do grupo?
Maria não lhes respondeu a eles mas responde-nos a nós: “Era um homem calado, de bom coração, não discutia, não fazia ondas, limitava-se a andar por ali, sempre pronto a ajudar”. Ora, de “movida” estava Maria da Graça farta. Passara pelos homens mais ricos e influentes da Europa, não seria agora que um qualquer condutor de um carrito descapotável a levaria. De amores de perdição estava ela cansada, precisava de segurança, de alguém que lhe trouxesse paz e a amasse com a inabalável serenidade e fidelidade que só Luiz poderia garantir-lhe.
Na periferia de Madrid, em Rivas Vaciamadrid, o casal possui um apartamento num condomínio de qualidade, aonde se acede por código electrónico, equipado com piscina e terrenos de ténis. Em Villamayor, Maria é proprietária da loja ‘M.G’, e desfruta da casa onde ainda reside a mãe de Luiz. Não sendo homem de fortuna, o companheiro tem bom ordenado, alguns terrenos e bens. E, sobretudo, uma auréola de honestidade e estima que herdou dos antepassados.
DETENÇÃO
A sua detenção, em 30 de Outubro de 2003, quase deitava tudo a perder. Nesse dia, no apartamento encontrava-se um casal amigo, Diogo e Concha, e a pequena Mafalda, de quatro anos, filha de um empresário duvidoso do Porto, que se encontrava em Madrid à guarda de Maria em tratamento a sérios transtornos generalizados de desenvolvimento. Deixemos que Diogo recorde esse momento: “Foi ‘de película’. Nessa dia, eu fazia 76 anos e tínhamos combinado ali jantar com Maria e Luiz. Eu já tinha visto os homens a rondar a casa desde manhã, mas não sabia quem eram. Quando bateram à porta era já noite, passava das nove. Maria disse-me que eram uns seguranças contratados para virem buscar a pequena Mafalda. Não sabia bem as razões para tal mas convenci-me de que era disso de que se tratava. Começaram aos empurrões à porta, a minha mulher fazia força do interior, e, de repente, ‘puta madre’, entram de rompante pela janela depois de terem subido pela varanda e esventrarem a persiana. Eram doze, incluindo quatro mulheres. Um deles, dos primeiros, empunhava uma pistola com a mão direita e exibia um crachá com a esquerda”.
Diogo petrificou. A mulher, Concha, em desespero de causa, conseguiu telefonar a pedir socorro. E de facto pouco depois chegava a Guardia Civil, armada até aos dentes. No exterior, criou-se uma confusão que quase descambava em tiroteio generalizado. Depois perceberam que eram todos polícias.
O homem do crachá era o inspector Jaime Cláudio, que comandava a operação da Brigada de Delinquência Especializada. Perguntou pelas jóias e Maria, sentada no sofá, apontou-lhe o quarto onde dormia o empresário português quando ficava lá por casa. “Quando vi que eram polícias, acalmei-me. O inspector disse-me que Maria era uma ‘estafadora’, e que em Portugal tinha metido na cadeia uns colegas da Polícia”, conta Diogo.
Maria da Graça acabou na cadeia de Alcalá. Até 22 de Julho de 2004, depois de nove meses de cativeiro.
Duro? Claro, mas Maria adapta-se a qualquer terreno, e Alcalá rendeu-se--lhe. “Não dormi uma única noite na cela. Quando cheguei fui para a enfermaria, pois estava abalada. E por ali fiquei, porque passei a ajudar, a tratar das pessoas, a limpar, a melhorar as coisas. Cosia a roupa da cadeia. Nada me faltava, as reclusas e as guardas apreciavam-me, o director já não me dispensava”.
500 MIL EUROS DE JÓIAS
A história das jóias começara três meses e meio antes da movimentada noite da detenção, em Julho de 2003. Em Julho de 2003, José Carlos Abreu, empresário de Vila das Aves, estava mais uma vez apertado com problemas de dinheiro. Filho de um poderoso industrial, a sua capacidade em derreter dinheiro era bem conhecida no meio da boémia nocturna e dos casinos nortenhos. As complicações, tal como os usurários, não o largavam mas sempre teve a preocupação em pagar as dívidas que assumia. O patriarca da família, que acumula a gestão das empresas com uma significativa posição num banco privado, cônsul de um país africano, há muito que deixara de ter qualquer tipo de complacência para com o filho rebelde, educado em ambiente burguês, enviado para estudar em Londres, onde se concentrou em não estourar numa semana a generosa mesada ou em provar as capacidades aerodinâmicas do Porsche que conduzia.
Em Portugal meteu na garagem quatro Lamborghinis, cinco Mercedes e um ou outro Audi, passava com frequência os dias nas fábricas onde passou a ter quota e as noites na jogatana em Espinho, Póvoa de Varzim, ou La Toja, na Galiza. Gastador, generoso, nunca regateou auxiliar um amigo em momentos difíceis e quando passou por dificuldades outros lhe deram a mão, sabedores que José Carlos Abreu regularizava religiosamente as suas contas. Conheceu Paulo Oliveira, auto-intitulado empresário, na verdade negociante de automóveis, com muito gel mas com IRS pouco católico. Quando o empresário de Vila das Aves lhe contou que adquirira uma significativa quantidade de jóias com cheques pré-datados para realizar dinheiro de imediato, prontificou-se a ajudar. Em troca, José Carlos dava-lhe uma pequena comissão e liquidar-lhe-ia uma dívida de 65 mil euros que para com ele mantinha. Paulo disse-lhe que conhecia a pessoa certa em Madrid para rapidamente escoar as jóias: Maria da Graça.
“Jantámos no Hotel Intercontinental a 14 de Julho. Eu, o Luiz, o Paulo, a mulher dele e as duas filhas, e o José Carlos. O José Carlos é que pagou a conta. Aceitei tentar vender as jóias mas logo ali senti que o José Carlos estava nas mãos do Paulo”, conta Maria da Graça.
GOLPADA
Quando José Carlos regressou a Portugal estava convencido de que as coisas iam correr bem. Ao todo, foram ‘investidos’ quase 500 mil euros. Chegou a regressar a Madrid com mais uma mala de jóias, pois recebera informações de que as outras estavam a vender-se bem. Não foi bem assim, passado um mês estava desesperado a tentar obter de volta as jóias que nunca lhe foram devolvidas.
Em Agosto, já José Carlos accionava os tribunais portugueses para agirem contra Paulo Oliveira, que deixara de lhe atender o telefone. Em Espanha queixou-se de Maria.
“Foi tudo uma golpaça do Paulo. Penhorou várias jóias e ficou com outras,”, diz Maria. “Pobre José Carlos, foi um patinho nas mãos do amigo, e eu é que acabei na cadeia”. Porquê “pobre José Carlos”? Porque o empresário, num fim de tarde da uma sexta-feira de Outubro do ano passado, após uma acesa discussão com o pai, e depois de pública reprimenda diante de colaboradores, entrou em casa, foi para o quarto e deu um tiro na cabeça. Tinha 46 anos.
O pai, só com o terror de ver o seu nome nos jornais, já no passado tentou convencer o filho a abandonar de vez o caso. Depois da trágica morte do filho quer abafar a história a qualquer preço, seja a das jóias seja a do grande ‘incómodo’ causado pela mulher que viveu os últimos sete anos na companhia do filho: uma rapariga da noite que o patriarca Abreu entende poder manchar o nome da família. Por isso, está a ultimar um acordo para se ver definitivamente livre dela. E já mandou parar as queixas em Espanha.
'SÃOBENTOGATE'
Foi o ‘Sãobentogate’ que em 1986 trouxe Maria da Graça para a praça pública. Nos anos que antecederam o escândalo, meteu-se em alhadas sucessivas. A fortuna do empresário portuense com quem vivia, o septuagenário José Guimarães, delapidava-se mercê do ruinoso modo de vida de Maria. Prestimosos agentes da Judiciária avisavam-na dos mandados de captura por emissão de cheques sem cobertura. Outros cheques que terceiros aceitaram emprestar-lhe foram postos a circular por Maria mas quando as queixas chegavam à PJ, os queixosos eram eles mesmo ameaçados de prisão.
“Os agentes telefonavam-me para lhes dar dinheiro, iam lá a casa, eram autênticos chulos. O Meireles, o António Santos, o Noel, o Morais, eu sei lá”, diz Maria. O “sei lá” é o que Maria não quer contar. Do célebre e medalhado Júlio Regadas limita-se a dizer que foi um “bom amigo”. A verdadeira dimensão da corrupção nunca foi apurada, mas Maria da Graça não está disposta a revelar outros pormenores.
“Não vê que o próprio inspector espanhol que me entrou em casa, o tal Jaime Cláudio, a primeira coisa que fez foi acusar-me de ter metido na cadeia colegas polícias de Lisboa? Isso quer dizer que em Portugal lhes deram informações onde eu apareço como uma denunciante de polícias. Ora eu nunca denunciei ninguém. Na altura, não tive alternativa. Fui sempre digna, calei muito e isso é que eles devem considerar. Aliás, tenho uma mensagem para a PJ: de uma vez por todas, deixem-me em paz”, atira Maria da Graça.
RAINHA DE CUSTÓIAS
O ‘Sãobentogate’ tocou também o mundo da política. Entre os 14 arguidos do processo encontrava-se o presidente do congresso do PPD, o advogado Montalvão Machado, que ajudou Maria da Graça, tratando dos problemas constantes do seu irmão Adriano – cuja vida aventureira em assaltos o levou a vários períodos pelas cadeias francesas e portuguesas.
“Quando o meu irmão estava em Custóias eu mandava-lhe diariamente o almoço e o jantar, os fatos e tudo o que precisava. Dei-lhe dinheiro, carro, nada lhe faltava”, conta Maria, amargurada. A amargura advém do facto de há muitos anos o irmão ter cortado os contactos. Só vai sabendo alguma coisa dele pela mãe. “Não entendo, só lhe fiz bem. Mas sei que está em França, no bom caminho, há muitos anos que não se mete em problemas, até dá catequese”, diz.
Maria acabou absolvida de 13 crimes de burla, mas a sua passagem pela prisão de Custóias foi muito comentada pelos privilégios que lhe foram concedidos. “Não era nada do que se dizia. E era tudo autorizado pelo juiz de instrução, não pelo director da cadeia. O que acontece é que eu não podia andar a aparecer em público mal arranjada, disse ao juiz que precisava que alguém me arranjasse o cabelo e outras coisitas ou não colaboraria, e ele aceitou”, explica, como se fosse óbvio.
O CONSULADO GUIMARÃES
José Guimarães, cônsul da Áustria no Porto e detentor de uma fortuna que os têxteis e a imobiliária lhe proporcionaram, foi um dos últimos a marcar a vida de Maria de Graça. Conheceu-a aos 74 anos, já a doença de Parkinson ameaçava progressão. Homem agarrado ao dinheiro, nunca casara e sempre viu as mulheres como caçadoras de fortunas. Por isso, para Maria, o desafio foi aliciante.
“Era o cabo dos trabalhos para ele abrir os cordões à bolsa. Chegavam as contas e ele torcia o nariz, protestava. Íamos para a Riviera francesa e ele achava os hotéis caros. Aparecia com as camisas de seda junto da burguesia financeira portuguesa que por ali andava a banhos, mas não queria gastar dinheiro. Eu dizia-lhe que se era para ser assim o melhor era regressar”, recorda Maria.
O cônsul foi-se resignando, tinha orgulho em mostrar-se com a bela Maria, que continuava a espalhar classe e a arregalar os olhos cobiçosos de grandes carteiras.
Nos 80 anos de José Guimarães, Maria proporcionou-lhe o dia mais feliz da vida. De Paris vieram Paolo Toscano e vinte violinistas. O Sheraton de Lisboa foi literalmente reservado para a ocasião, da cozinha aos pisos nobres.
“Foi uma festa louca. Eu conhecia o Toscano, que depois de actuar na Ópera de Paris vinha com assiduidade tocar ao Rasputine, o clube de elite parisiense. E organizei uma festa de arromba, no Sheraton e no Gambrinus. O senhor Guimarães até se babava de felicidade”, recorda, sonhadora. José Guimarães faleceria quatro anos depois, com a fortuna exaurida.
A CONQUISTA DE PARIS
Foi em França que a ‘Gracinha’ se fez Maria. Intuitiva, a arte da sedução levava-a já aos 13 anos, mas o verdadeiro conhecimento da arma nuclear da condição de mulher conheceu-a primeiro no Instituto Pasteur, onde esteve a servir, e depois nos hotéis e clubes frequentados pela boémia de ‘la crème de la crème’ parisiense.
“Após o falecimento do meu pai houve algumas complicações com a primeira mulher dele e acabei por ir para França com uma freira, a irmã Inês. Fui para Arcachon e depois arranjarar-me trabalho a servir no Instituto Pasteur, onde residiam a sobrinha de Pasteur e o marido, professor da academia de medicina, René Martin. Eu era trabalhadeira e aprendia rapidamente, chamavam-me o “fénomène”. Por ali desfilavam as grandes personalidades francesas, em sumptuosas recepções. Conheci o general De Gaulle e a Mme. De Gaulle, monsieur Gorse, todos os príncipes de Polignac, os Rotchilds (monsieur Guy), a actriz Ingrid Bergman, ou François Mauriac. Ah!, esse é que gostava de mim, vinha todas as terças-feiras e dava-me sempre cem franquitos”, conta Maria.
Paralelamente, frequentava a missão portuguesa, donde trazia roupa de emigrantes para lavar e a quem ajudava com os papéis de legalização. Às mulheres dava cursos completos de trabalhos domésticos e orientava-as nos empregos.
Entretanto, a família rumou a França. Primeiro os irmãos, Carlos e Adriano, depois a mãe. Conheceu o espanhol Francisco Cantero, de quem engravidou. Veio casar a Portugal e regressou a Paris e ao Instituto. O divórcio não tardou – a rapariga era arisca – e o espanhol ficou com a guarda da filha.
Uma das personalidades que Maria referiu ‘en passant’ foi a de “monsieur Gorse”. Ora Georges Gorse era ministro da informação de Pompidou e foi determinante na vida de Maria. O influente político apaixonou-se pela criada e montou-lhe casa. A beleza e juventude de Maria, o porte altivo, o modo de vestir, luxuoso e sem exuberância, e o domínio de todos os segredos da manipulação feminina, fizeram o resto.
MUNDO DE FANTASIA
Improvisando uma rápida refeição na casa de Villamayor, na loja onde cada cliente é uma confidente, no apartamento de Rivas Vaciamadrid, ou em passeio descontraído pelas ruas da velha Madrid, animadas com procissões de semana santa, Maria, aos 59 anos, desfila os episódios da vida que aceita partilhar. Raramente baixa as defesas, tem uma mensagem para passar e torneia qualquer caminho onde antevê rumo incerto.
Aceita falar da filha. Sabe-se que foi mãe, mas a bebé desaparece dos relatos logo após o divórcio. Afinal, vive em Madrid. “Chama-se Ana Valéria, tem 33 anos, é economista, fala seis línguas e é economista na IBM. O pai educou-a em colégios suíços e enviou-a a estudar para os Estados Unidos. Damo-nos muito bem. O pai também é meu amigo, ainda há pouco tempo me ajudou para pagar a advogados”, admite Maria.
Desafiada a fazer um balanço da sua vida, interrompe o passo, passeia o olhar silenciosamente pela Plaza Mayor que se prepara para a animação nocturna até o pousar no inquiridor que lhe sonda a alma. “Para ser sincera, talvez me arrependa dos anos que dediquei a José Guimarães. Foi o tempo da minha vida em que fui menos autêntica. Fui actriz num mundo de fantasia, um mundo artificial. Hoje não trocava o meu Luiz por nenhuma riqueza do mundo, por nenhum príncipe ou rei”.
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