O pior gueto está na cabeça
Cantor, advogado estagiário, produtor e empresário, o ex-Black Company arrisca uma carreira a solo. Entre os palcos e os tribunais.
Nasceu em Angola, há 32 anos. Chegou a Portugal ainda menino, quando o sonho de ser juiz já lhe dominava o pensamento. Mas a música afastou-o do Direito durante uma década, com o curso a arrastar-se para lá do desejável. Entre as aulas e os palcos, viu surgir o hip-hop em Portugal, pertenceu aos Black Company, cantou o orgulho negro e as injustiças sociais. Hoje, com o ‘canudo’ na mão, considera-se “um produtor um bocado caro”, trabalha muito para a sua terra natal e acredita que o R & B está prestes a rebentar em Portugal.
‘Chokolate’ é o seu segundo disco a solo. Como é que tem corrido esta aventura por sua conta?
Até agora muito bem. Aconteceu de forma natural, nada pensada, porque os Black Company chegaram a uma encruzilhada, a uma altura em que cada um queria experimentar a sua forma de viver a música. Eu comecei a aplicar-me mais como produtor, a viajar com o (Boss) AC, com vontade de fazer outras coisas. Criámos a No Stress, empresa onde produzimos outros grupos.
Este álbum é muito mais meloso do que todos os outros. Representa um corte com o passado?
Já com os Black Company tinha esse toque, gostava de seguir pelo R & B, até porque não sou uma pessoa fechada num género, e não tenho ídolos. Sou fã, acima de tudo, das músicas, e este género transmite um tipo de emoções que eu admiro, para além de ser ‘irmão’ do hip-hop. Mas se existe uma separação entre estilos, entre passado e presente, prefiro vê-la como uma evolução, e não como um corte abrupto com o que eu era antes e sou agora.
Não tem medo que os seus fãs de longa data julguem que está a amolecer?
Medo não tenho, porque vou sempre conquistando novos públicos, mas existe muita gente triste por eu não continuar no hip-hop. E também ainda não acabei a carreira. Com o primeiro álbum tive a agradável surpresa de ver que quem me acompanhava antes aceitou bem a minha transição a solo. Espero, acima de tudo, continuar a ser o mais verdadeiro possível.
Os putos que gostam de hip-hop e rap não devem fazer parte desse lote…
De vez em quando recebo uma mensagem ou duas de tipos que conhecem o meu percurso, a dizerem: “É pá, volta ao rap”, mas as pessoas têm de fazer apenas aquilo com que se sentem felizes em determinado momento.
É um sinal de que está a envelhecer?
Nem pensar. Uma coisa boa nisto é que a música não tem barreiras de idade. O Santana, por exemplo, depois de muitos anos na obscuridade surgiu outra vez, melhor do que estava e a conquistar mais público do que alguma vez tinha tido. Quando sentir que estou com idade a mais afasto-me e fico virado apenas para a produção, passando apenas a lançar jovens artistas.
O hip-hop está na moda?
Creio que sim, mas o que acontecer agora em Portugal já aconteceu lá fora há muitos anos. Faço o paralelo com o rock’n’roll dos anos 50. No início começa por ser agressivo, os pais não gostam porque os jovens reagem àquilo, mas acaba por vencer porque tem a tal carga de emotividade, real, urbana, actual. A única coisa que me preocupa é a indústria musical, a maneira como tenta dar a volta à pureza inicial, como pega nela e a molda para poder ter lucros, acabando por descaracterizar o conceito.
Falou dos pais não gostarem de ver os filhos armarem-se em rebeldes. Consigo também foi assim?
Como todas as famílias, a minha não fugiu à regra e reagiu com algum receio, principalmente porque éramos um grupo de jovens negros, de um meio urbano, que transmitiam mensagens contra a polícia, contra políticos, contra o que nos apetecesse. Mas tínhamos noção de que vivíamos numa democracia e que não haveria efeitos negativos daquilo.
Mas havia uma imagem negativa do hip-hop.
Sem dúvida, em especial ligada à delinquência, ao crime, que também já se esbateu. O facto de haver pessoas que gostam desse género e se vestem de determinada maneira não quer dizer que ele esteja ligado directamente a uma forma de estar mais violenta. E até agora só me arrependo do que não fiz.
Chegou a colar-se àquela imagem mais dura do ‘gangsta rap’?
No princípio, mesmo no princípio, quando ainda cantávamos em inglês, estávamos muito pegados a essa imagem. Mas quando fizemos a passagem para o português, eu pessoalmente achei que devia mudar, porque os Estados Unidos não têm nada a ver com a nossa realidade. Se cantava na nossa língua, se falava de uma realidade diferente, não fazia sentido continuar com uma imagem igual, senão estaria em palco a interpretar um papel falso.
Nunca lhe deu, por exemplo, para andar cheio de anéis, pulseiras e outros acessórios?
Essa foi a altura do ‘blinc-blinc’, pessoal com brincos de diamantes, pulseiras de platina, limusinas, grande opulência nos videoclips, dólares a voar, isso tudo nos Estados Unidos. Cá houve quem começasse a tentar imitá-los, mas com pechisbeque. Reconheço sem problemas que andávamos todos com colares com o símbolo da Mercedes, da Volkswagen, ou com o mapa de África. Hoje vemos essas imagens e desatamos à gargalhada, mas a verdade é que procurávamos apenas algo com que nos identificássemos. E eu nem era dos piores, usava uma imagem moderada até porque os Black Company eram formados por pessoas modestas e não faria sentido aparecermos no videoclip cheios de ‘blinc blinc’, a apanhar o autocarro, o barco ou o metro. Ainda se viravam para nós e diziam: “Vende um desses colares e compra um carro.” Nunca quis entrar nesse tipo de ridículo, jamais segui uma realidade que não seja a nossa. O hip-hop é isso, a realidade nua e crua, não uma fantasia.
Viveu essa realidade?
Não posso dizer que tenha passado uma adolescência violenta. Vivi grande parte dos meus ‘verdes anos’ em Miratejo, que não é um gueto mas um bairro suburbano com todo o género de pessoas. A vivência da minha família é a de quem saiu da sua terra e encontrou as dificuldades normais ao nível do emprego, da inserção numa cultura diferente. Houve alturas em que tivemos pouco para comer, é verdade, mas não creio que tenha vivido muito daquilo que vive quem está em zonas degradadas. Sempre tive oportunidade de estudar, com apoio social na escola, mas isso não fez com que tenha passado por situações perigosas.
Como conseguia transpor-se para tal violência?
Em Miratejo tive oportunidade de conviver com pessoas que viviam muito pior do que eu, com jovens pobres que naquela altura estavam a descobrir o orgulho de serem negros, com a Zulu Nation, os Afrika Bambaataa. Assisti ao nascimento do movimento, vi muitas coisas boas e más, em especial naquela fase dos confrontos com os skinheads, em Almada.
Alguma vez sentiu o perigo a rondar?
Nunca, mas também evitei sempre os problemas. A par de estar nesse movimento continuava na escola, em que fui muito aplicado até à altura em que tive de dividir o tempo entre os estudos e a música. Agora, finalmente, acabei o curso de Direito.
No seu caso não foi preciso a música para sair do gueto.
Para mim, o pior gueto, aquele mesmo mau, não é o físico mas o que está na cabeça das pessoas. Porque há muitos jovens que podem ter sucesso, conseguir desafogo económico para ter uma vida melhor, mas na cabeça deles nunca saíram do gueto, e mesmo com o dinheiro continuam a ter o mesmo modo de vida. Mais do que a questão financeira, é uma questão de mentalidade.
Os Estados Unidos estão cheios desses exemplos…
Há artistas famosos, multimilionários, que continuam a viver na mesma confusão que dantes, porque saíram fisicamente do gueto, mas mentalmente ainda estão lá. Têm as mesmas amizades, o mesmo tipo de vida, a única diferença é que passam por lá de limusina, a fazer pose, todos bem vestidos.
Sente-se, nesse aspecto, um exemplo?
Mais do que tudo, espero que seja um exemplo de que os jovens podem alcançar o seu sonho, fazer aquilo que gostam, sem ter que sacrificar tudo o resto. Na minha vida sempre primei por acabar aquilo que começo. Comecei a estudar e acabei, entrei na música e não vou desistir sem conseguir os meus objectivos. E nestes mais de dez anos de música já tive muitas ocasiões em que me apeteceu abandoná--la, porque não é fácil viver disto em Portugal.
Qual foi o segredo para continuar ligado a ela?
Diversifiquei-me. Juntamente com o Boss AC produzi, actuei, cantei, e ambos conseguimos, por milagre, viver da música.
É teimoso por natureza?
Sou. E é esse sentimento que me mantém na música e na advocacia.
Como é que conjuga mundos tão diversos como o Direito, o lado empresarial, a música e a produção?
O lado empresarial e a música estão unidos, por aí não há problemas, mas o lado da advocacia ainda está a nascer, a ser conciliado aos poucos, porque me absorve muito tempo. Neste momento sou advogado estagiário na segunda fase, e isso não dá dinheiro. Mas é uma paixão que tenho e da qual não quero prescindir, mesmo sabendo que as coisas não estão fáceis. Acontece que gosto de tudo o que envolve o foro da Justiça, gosto de discutir, e onde houver uma boa discussão estou sempre lá no meio.
De onde veio essa vontade de seguir Direito?
Desde miúdo que disse que queria ser juiz, ponto final. Nunca houve qualquer outra hipótese.
Nem mesmo quando se descobriu músico?
Nunca pensei ser músico, aconteceu por acaso. Depois veio o sucesso do ‘Rapública’ e as coisas tomaram uma proporção que eu não esperava. Também por isso, a carreira foi evoluindo naturalmente.
Os seus pais não devem ter ficado muito contentes…
Ficaram desconfiados, pensaram que eu nunca mais acabava o curso, até porque a partir de determinada altura os concertos passaram a ocupar-me muito tempo. Mas o que é que adianta termos um canudo se não tivermos aquele incentivo de fazermos o que gostamos? Além do mais, o curso hoje não é garante de nada, há por aí muitos licenciados que andam à deriva, porque tiraram um curso de que não gostavam, porque não tinham aptidão para aquela área ou porque o mercado de trabalho está complicado. Não sou da opinião de que se deve tirar um curso apenas pelo currículo. As pessoas só serão boas profissionais se gostarem daquilo que estão a fazer.
Hoje olha para trás e arrepende-se de ter deixado os estudos na prateleira durante tanto tempo?
Não, porque só descansei quando cheguei ao fim dos estudos. E não me arrependo nada de ter demorado tanto tempo, até porque pelo meio experimentei outros rumos. Acho que a vida deve ser vivida no momento, com aquilo que nos dá gosto. Entretanto casei, comprei a minha casa…
O pessoal que me conhece não liga muito a isso. Desde miúdo que fui sempre mais velho do que devia. Não sei se as pessoas percebem no R & B mas sou mesmo romântico, e a partir do momento em que encontrei a pessoa certa não vacilei, porque tinha a certeza de que era aquela com quem queria casar. Troquei alianças vai para sete anos, estou totalmente satisfeito com a decisão que tomei.
Só falta os filhos.
Gosto muito de crianças mas estou nas calmas, a gozar o casamento, a juventude. Apesar de ter casado aos 25 anos não comungo daquela teoria de ter os filhos todos no princípio, porque a verdade é que depois nunca nos livramos deles, são para o resto da vida. Hão-de ter 30 anos e continuamos a levar com os putos, por isso mais vale desfrutar primeiro.
Voltando à advocacia, os clientes conhecem o seu lado de músico?
Os colegas já descobriram, os clientes ainda não, pelo menos que eu tenha notado. Se dependesse de mim, fazia uma divisão radical entre as duas áreas, mas não consigo fugir à minha imagem num CD, num videoclip ou num jornal, e começam a reconhecer a minha cara. Vou ter que saber gerir essas situações, mas desde que as pessoas sintam confiança em mim, que vou tratar dos processos com competência, com responsabilidade, o resto não é importante. O que faço nos meus tempos livres não deve ser misturado com essa vertente, até porque sou músico como podia ser jogador de futebol ou outra coisa qualquer.
Como é que os colegas lidam com isso?
Acham engraçado, comentam que os filhos são fãs, que ouviram a música na rádio.
Pedem-lhe para cantar?
Não, até porque jamais aceitaria esse desafio. Tenho mais à-vontade a cantar para mil pessoas do que para duas. É muito mais difícil.
Sente-se mais nervoso no palco ou na barra do tribunal?
Apesar de uma década de experiência no campo musical, ainda me sinto nervoso quando subo a um palco, mas depois de lá estar não há nada a fazer, ou vai ou racha, e há que seguir em frente. No tribunal também vai ser assim, mas é claro que sinto mais o peso da responsabilidade, principalmente por estar a tratar da vida dos outros. Se falhar, alguém vai sofrer. Mas não tenho medo.
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