O romance do homem sem moral nenhuma

Lázaro de Tormes, o Lazarillo, é inteligente, pobre e cheio de artimanhas.

04 de janeiro de 2026 às 00:30
O romance do homem sem moral nenhuma
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Contrariamente às lendas da Bretanha sobre o Rei Artur, ou às perigosas e fantásticas aventuras de ‘Amadis de Gaula’, ‘A Vida de Lazarillo de Tormes e das Suas Fortunas e Adversidades’ não tem reis, imperadores, cavaleiros em busca de glória ou amor, donzelas cativas ou feiticeiras. É tudo gente comum, pobre ou remediada, falsa e vingativa, cheia de pecados e de maus instintos; não fogem de monstros mas da fome, da míngua, do passado e dos maus-tratos. Não é teatro para representar num palco, nem composição poética digna de cortesãos, mas de uma carta em prosa corrente, confessional, descuidada, em espanhol vulgar e com defeitos de gramática. A sua popularidade era tanta que daí a pouco surgiriam várias “segundas partes” do ‘Lazarillo’, quase todas elas delirantes – incluindo o personagem principal transformar-se num atum. Na verdade, é uma paródia dos romances de cavalaria, que maltrata com humor e desfaçatez.

Mas o essencial é isto: publicado em 1554, sessenta anos antes do ‘Dom Quixote’ (1605), ‘A Vida de Lazarillo de Tormes’ é um dos livros mais famosos da língua espanhola – e isso não se deve ao seu autor nem às controvérsias sobre as edições originais, mas à história pungente e malvada de um rapaz nascido em Tejares, à beira do rio Tormes (um afluente do Douro), perto de Salamanca: os pais são moleiros; o pai é preso e enviado para uma guerra onde morrerá; a mãe há de ter um filho de um ‘homem moreno’ que a visitava – e depois há de servir numa estalagem, onde Lázaro é entregue a um cego, para que o guie, sirva e lhe dê uma vida. O cego é um rufia que vai de terra em terra, esmolando e recitando orações enquanto mata Lázaro à fome e o maltrata como castigo pelas artimanhas de que o aprendiz se vale para sobreviver. Ele paga-lhe na mesma moeda até à última linha do capítulo, para de seguida oferecer os seus serviços a novos senhores: seguem-se um padre igualmente avarento, um escudeiro de Toledo que não tinha onde cair morto, um frade pecador, um pregador e vendedor de bulas, um capelão que lhe melhorou a vida e, finalmente, um funcionário de tribunal. Ao fim desta vida, Lazarillo optou por ser pregoeiro (atividade bem paga, ontem como hoje, a de publicitário) em Toledo, e casar-se com uma criada do arcipreste de San Salvador. Dizia-se que a mulher de Lázaro já tinha sido do arcipreste, que aliás visitava frequentemente – coisa que não o incomoda, porque “nessa época eu vivia uma vida próspera e estava no auge de toda a boa fortuna”. É uma vingança saborosa, cheia de cinismo, sobre a moral, a religião e o império de Carlos V.

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“E tudo vai desta maneira: que, confessando eu não ser mais santo que os meus vizinhos, desta ninharia, que neste grosseiro estilo escrevo, não me pesará que nela participem e com ela folguem todos os que nela algum gosto acharem, e vejam como vive um homem com tantos infortúnios, perigos e adversidades."

TÍTULO: La vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades. AUTOR: Anónimo. DATA: Burgos, 1554.

1554 Lazarillo de Tormes

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