Oito séculos de feira
A Feira de São Mateus é ainda hoje motor de desenvolvimento para Viseu. É a mais antiga do país e tem histórias para contar
Vem desde o tempo dos reis e faz jus ao ditado de que agosto é mês de ‘festas e romarias’. A Feira de São Mateus, em Viseu, é a mais antiga do País e a partir de hoje, quando iluminar os seus típicos pórticos, vai voltar a fazer cumprir a tradição.
A Feira de São Mateus surgiu em 1392, ano em que D. João I concedeu a Viseu a isenção de certas taxas para uma feira que ali se realizaria anualmente durante o mês de maio. "Começou por ser um grande mercado de características agrorrurais e assim permaneceu durante vários séculos. Nasceu na Cava de Viriato, por si só um lugar singular, e por carta de D. João I em 1392. Foi confirmada posteriormente pelo seu filho, D. Duarte (nascido em Viseu), e confiada à governação do seu irmão D. Henrique, Duque de Viseu. Esse selo político beneficiou-a. Conquistou progressivamente fama e influência e é natural que tenha adquirido grande atração económica e social e fosse destino de muitos mercadores, produtores, comerciantes diversos negociantes e curiosos", ilustra Jorge Sobrado, gestor da Viseu Marca, entidade organizadora do evento.
Sendo Viseu cidade de poder e de corte, a feira beneficiou também dessa influência. No século XIX era já comprovadamente uma das mais importantes do País. "Há testemunhos e documentos que o confirmam. Em certa medida, a feira franca era já uma feira de todos os grupos sociais. Hoje, apesar da grande viragem no início do século XX para uma feira recreativa e cultural, essa sua marca popular persiste", acrescenta.
Em data desconhecida, mas ainda no reinado de D. João I, a feira passou a realizar-se no dia de S. Jorge (23 de abril).
Mais tarde, em 1444, D. Pedro decidiu que deveria começar oito dias antes de Santa Iria e terminar oito dias depois (12 a 28 de Outubro). Já no século XVI, coube a D. Manuel estabelecer a realização da feira por altura da festividade de S. Mateus (21 de Setembro) no Rossio da Ribeira, ganhando assim a localização e o nome pela qual hoje é conhecida por todos.
Jorge Sobrado justifica esta mobilidade de datas e da fé: "A feira é um filho do seu tempo. Esse parece ser também um segredo da sua persistência vital. Atravessando oito séculos foi-se adaptando a necessidades, modas e apelos diversos. Teve edições anuais e outras de regularidade periódica. Foi realizada em praticamente todos os períodos do ano".
Um escudo por Viriato
Como seria de esperar, também histórias pitorescas abundam nas memórias. O primeiro dia pago na feira nasceu para arranjar fundos para construir uma estátua que fosse um tributo a Viriato, o ‘Chefe dos Lusitanos’. Corria o ano de 1929 e a entrada custava um escudo. "Há também registos de enorme euforia em torno do cinema: em 1913, o Salão de Cinema Olímpia acolhia mais 750 pessoas. O salão foi construído por Luciano Dias de Sousa, que era também sócio-gerente do Teatro Viriato e de uma elegante barraca de iscas e farturas que se tornaram lendas gastronómicas da feira. Mas há também histórias encantadoras como a de casais de vida mais modesta que faziam de uma visita à feira a sua boda de casamento", diz Jorge Sobrado.
Durante o período republicano não eram também incomuns os desacatos ou os roubos. "Em 1911, a imprensa dava conta de uma batalha campal entre um grupo de desordeiros e a polícia. A feira era também alvo das investidas de quadrilhas de ladrões profissionais, como aquela que em 1913 se deslocou da cidade espanhola de Tui para Viseu. E era, igualmente, um pretexto para namoricos, sempre muito vigiados, como notava a imprensa da época. Na rua principal era habitual o desfile das meninas casadoiras, com as melhores toilettes, de braço dado com o seu pretendente", acrescenta, por seu turno, o historiador Luís Fernandes Silva.
Mas nem São Mateus a livrou das crises e particularmente afetada por "períodos de guerra ou peste", segundo Luís Fernandes Silva.
O início do século passado foi particularmente difícil, mas a história mostra-nos que as crises resultaram em impulsos de revitalização. "O projeto de renovação da feira em 1927 pela influência da estética modernista proposta pela Exposição das Artes Decorativas e Industriais realizada em Paris, em 1925, fazia-se sentir entre nós. A organização da exposição parisiense num recinto amplo, organizado como uma cidade e delimitado por pórticos monumentais e iluminados, bem como os seus pavilhões arquitetonicamente relevantes, teve eco na nova imagem da Feira de S. Mateus", recorda o historiador.
Com os tais pórticos, que se tornaram imagem de marca, veio a programação cultural: concertos, circo, concursos, provas desportivas, fogo de artifício e novas tradições como a marcha das aldeias, os bailes do Salão de Chá dos Bombeiros Voluntários, o caldo verde e as enguias. Motor de desenvolvimento da região, "motivo de afirmação política e social" da urbe de Viseu, foi assim que a feira assumiu em definitivo o papel de festas da cidade e o feriado municipal passou a ser o dia de S. Mateus.
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