Onde não há padres são eles que celebram
Nos sítios onde a terra ficou sem gente a até sem padre, homens e mulheres de fé assumem o ofício de Deus aos domingos. De Mogadouro a Santarém, as histórias de quem tem por missão manter abertas as portas da igreja.
É domingo e o relógio da igreja de Vila de Ala, em Mogadouro, marca as dez horas da manhã. O tempo chuvoso não convida a sair de casa. No céu as nuvens cinzentas anunciam mais água e o frio faz com que as ruas da pequena aldeia fiquem ainda mais desertas. Não se vê vivalma. De súbito o sino repica e rasga o pesado silêncio da localidade, onde as casas de pedra e o fumo das chaminés dominam. Alguns minutos mais tarde começam a surgir pessoas – acercam-se da igreja. São poucas e já todas idosas, vestidas de escuro, os rostos protegidos por xailes ou pelas golas surradas das samarras. No interior da igreja não é o padre que as espera mas sim o presidente da Junta, Manuel Maria Sousa, também ministro de Deus, que irá celebrar a liturgia da Palavra.
Manuel tem 66 anos, é reformado da Guarda Fiscal, onde cumpriu 27 anos de serviço, dois no Ultramar. Voltou a Vila de Ala, onde se meteu no serviço da Junta, 12 anos de trabalho, os últimos quatro como presidente.
Na aldeia todos o conhecem e respeitam. Todos sabem que, quando o pároco não pode ir à freguesia, é ele que abre as portas da igreja e celebra o dia do Senhor. Não são mais do que quinze almas, as que assistem ao acto religioso. Não há jovens nem crianças. A celebração não dura mais do que vinte minutos e, no final, os anciãos voltam a reunir-se no adro da igreja, onde, protegidos pelos guarda-chuvas, falam da falta de padres e da importância dos ministros da Palavra junto da comunidade cristã. “Se não fossem eles muitas igrejas já tinham fechado de vez”, comenta, serena, Zulmira Telo, de 63 anos, a mesma mulher que minutos antes tinha feito as leituras. “Em Paçó, uma freguesia perto, a igreja esteve fechada durante dois anos sem missa mas agora todos os domingos tem a porta aberta. Mas são tempos que já lá vão”, balbucia. Os restantes anuem com a cabeça – concordam com Zulmira.
Inicialmente, na aldeia, a novidade da missa celebrada por alguém não ordenado causou alguma resistência, depressa ultrapassada. “Conheço pessoas que antes não vinham às celebrações efectuadas pelos ministros. Mas quem tem fé, como eu, tem de ir todos os domingos à igreja, seja ela aberta por um padre ou por um ministro”, acrescenta Zulmira. Como ela, também Casimiro Xavier, de 78 anos, é assíduo na igreja: “Dou cumprimento ao meu dever, não nego que prefiro que seja o padre a dizer a missa, mas não havendo padre…”
Em abono da verdade, a maior amargura de Casimiro nem é a falta de sacerdotes. É antes a falta de gente mais jovem sentada nos bancos a assistir às missas: “Gostava que os meus filhos fossem como eu, mas não são, não vêm à missa nem querem saber disto”, diz com amargura. Manuel Maria Sousa, o ministro da Palavra, reconhece que nos domingos em que há eucaristia há sempre mais pessoas na igreja, mas aceita o facto com naturalidade. “A diferença é enorme, claro que as pessoas preferem a homilia e sabem que nunca poderemos substituir os párocos”, diz, enquanto fecha a porta da igreja.
O relógio já bate as 11 horas da manhã e o frio obriga as pessoas a dispersar rapidamente. Num ápice o silêncio volta a instalar-se no largo da igreja. Manuel Maria Sousa volta também para casa. Lá dentro, reforça com mais lenha a lareira da cozinha – “o tempo está frio”. Este domingo só celebra na sua aldeia, Vila de Ala, mas outros há em que ainda tem de se deslocar a Paçó e Santiago, duas localidades vizinhas. O desafio de presidir à celebração da Palavra e da Comunhão apareceu, já depois de reformado, quando decidiu tirar o curso de Cristandade em Bragança. Uma espécie de recolha espiritual que durou três dias. “Depois dessa experiência tudo mudou e senti--me ainda mais próximo de Deus”.
Meses mais tarde surgiu o convite do próprio bispo para ser ministro da Palavra. Não hesitou e aceitou de imediato, “cheio de orgulho”. Em Vila de Ala, onde mora há mais de dez anos, a sua nova condição foi aceite mas, mesmo assim, tanto tempo depois, continua a sentir uma certa resistência de alguns dos paroquianos. Nada que o faça demover da sua vocação. Há três anos que celebra a Palavra e sempre com o apoio da família, especialmente da mulher.
“Noto que ele fica triste quando vai pouca gente à celebração mas, também, somos cada vez menos na aldeia. Não são mais de 80 famílias que cá moram”, refere a mulher de Manuel Sousa, enquanto mexe nos tachos, cirandando pela cozinha – inicia a preparação do almoço. Educada numa família extremamente católica, Olema Lopes confessa que um domingo sem ir à igreja não seria domingo :“Agora está sempre aberta, mesmo nos dias santos”.
No outro lado do distrito de Bragança, no concelho de Vila Flor, também na pequena localidade do Vieiro é dia da celebração da Palavra. Maria Olímpia Coelho, de 78 anos, abre a porta da igreja dez minutos antes das 15h00, a hora marcada para a celebração da Palavra. Já várias pessoas a esperam no recinto do templo. Embora esteja frio, a chuva deu tréguas e possibilita algum convívio entre os habitantes. Maria Olímpia já entrou. Faz os preparativos da liturgia que está para começar. Há mais de 15 anos que se dedica de corpo e alma a Deus, à Igreja e ao próximo. Apesar da idade, a agilidade, simpatia e sentido apurado de humor exibem espírito jovem.
Professora reformada, pertence às primeiras ‘fornadas’ de ministros da Palavra e da Comunhão do distrito. Sentiu bem na pele as resistências da comunidade cristã, especialmente por parte dos homens, para quem ver uma mulher no lugar do padre era uma blasfémia.
Nunca se deixou agastar e a certeza de estar a fazer o bem acabou por conquistar frutos – hoje conta que aqueles que no início a criticaram são agora os primeiros a apoiá-la e a aparecer nas suas celebrações.
Ao contrário de Vila de Ala, no Vieiro a igreja enche-se de fiéis. Aqui como lá, nenhum é jovem. Os que têm menos idade só costumam aparecer – “e às vezes” – nos dias em que há missa. “Eles estão sempre a suspirar que venha o padre e acho isso bom, aceito perfeitamente porque a diferença é abismal”, admite Maria Olímpia.
A ‘menina Olímpia’, como é conhecida esta professora reformada do 1º ciclo, que é coordenada neste seu mister da fé pelo padre José Rodrigues, chegou a percorrer cinco aldeias por domingo. Nada que alguma vez a tenha cansado. O que a motiva é simplesmente a fé em Deus e a alegria de ver a igreja cheia: “É uma emoção muito grande porque é sinal de que há fé e que o povo se reúne para ouvir a palavra de Deus”, diz, não tentando esconder a emoção que a trai.
Moradoras no Vieiro, Cremilde Morais, de 83 anos, e Rosalina Marques, de 53, são mãe e filha. Não escondem que apreciam o trabalho da ministra Olímpia. Elogiam o seu empenho e dedicação. Tal não as impede de lamentar a falta de vocação dos jovens de hoje para o sacerdócio, o que tira às paróquias os seus párocos.
Sem hesitar e sem qualquer pudor, as mulheres apontam ousada solução face à ordem das coisas na Igreja Católica: “Eles deviam era poder casar e mais nada, deixá-los viver a vida como as outras pessoas!”
PARA SER UM BOM MINISTRO
Manuel Sousa, de Vila de Ala, é orientado pelo cónego Dino. “A minha paróquia [Mogadouro] tem nove aldeias e nos domingos só posso ir a quatro, no máximo”, diz o cónego, que faz questão de explicar qual a diferença entre um padre e um ministro: “Na paróquia só os padres é que podem confessar, presidir os Sete Sacramentos e consagrar as hóstias que ficam no sacrário”. O cónego Dino aclara ainda as diferenças entre liturgia da Palavra e a eucaristia: “A missa está dividida em duas partes, a liturgia da Palavra, que são as leituras e orações e que é o que fazem os ministros, e a liturgia eucarística, que é a consagração, reservada apenas aos sacerdotes”. Uma eucaristia tem, em média, a duração de trinta minutos, enquanto que a celebração da Palavra não demora mais do que vinte minutos. O cónego tem 65 anos. É padre há mais de quarenta. Tem a seu cargo oito ministros, quatro homens e quatro mulheres.
O bispo da diocese, António Montes Moreira, enaltece o trabalho dos seus ministros, que ele próprio selecciona: “Têm de ser católicos praticantes, ajudar o próximo e, acima de tudo, conhecer bem as Sagradas Escrituras”.
Para o bispo, a falta de vocações é uma realidade preocupante. A falta de sacerdotes na diocese de Bragança é uma constante dor de cabeça: “Para a diocese ficar devidamente servida seriam precisos, pelo menos, mais 20 padres porque, na verdade, se um pároco tem 15 aldeias sobra muito pouco tempo para acompanhar os fiéis”. Dois é o número previsto de novos padres que sairão este ano do Seminário de Bragança.
São cada vez mais as paróquias deste distrito onde a missa de domingo é substituída pela liturgia da Palavra, presidida por leigos. Na diocese existem 76 párocos. São 326 as paróquias. A maioria dos padres já ultrapassou a fasquia dos 65 anos e há dois na casa dos 90.
As estatísticas denunciam uma realidade complicada. A falta de padres alimenta a necessidade de haver ministros da Palavra e da Comunhão para levarem Deus às comunidades. Estes homens e mulheres celebram aos domingos e dias santos. Fazem a visita pascal. Actualmente já são mais de duas centenas.
São voluntários que dedicam parte do seu tempo a espalhar a Palavra de Cristo e a ajudar o próximo. Cidadãos, católicos praticantes, delegados pelo bispo da diocese e submetidos a uma intensa formação antes de iniciarem o seu trabalho junto da comunidade cristã. São o braço-direito dos padres e vão onde a sua palavra não consegue chegar. Segundo o Direito Canónico, cada pároco não pode celebrar mais de três missas dominicais mas a maioria celebra quatro e há quem celebre mais.
O EXEMPLO DO DIÁCONO
“Todos os dias, sem excepção, dou graças a Deus por me ter concedido o dom da fé”, diz Licínio Dinis, homem de 70 anos, antigo professor de físico-química no Liceu Sá da Bandeira, em Santarém, e depois profissional de seguros até à reforma, em 1999. É casado, tem quatro filhos e nove netos.
Licínio descreve a sua relação espiritual com o divino e com a Igreja como algo que o acompanha quase desde sempre – “desde criança, quando a missa era dada em latim e o celebrante estava de costas para os fiéis”. “Eu não percebia nada do que ouvia, mas sentia um verdadeiro apelo dentro de mim”, recorda, lembrando que só anos mais tarde, em 1965, o Concílio Vaticano II alterou este ritual.
Há cerca de dez anos a Diocese de Santarém chamou nove homens casados para o serviço à Igreja. Depois de um “período de discernimento e formação” que durou mais de três anos, Licínio Dinis foi ordenado diácono permanente a 7 de Maio de 2006, estando ligado à pastoral da cidade, particularmente à paróquia do Divino Salvador.
Hoje, quase quatro anos volvidos, Licínio Dinis tem um papel activo em todo o cerimonial católico ligado à eucaristia e baptismo, estando também habilitado a presidir a casamentos e exéquias. Mas explica que “a missão central da vida do diácono é a caridade, o amor, a dedicação aos mais pobres e a todos os que necessitam de uma mão amiga”. É desta forma que este antigo professor e profissional de seguros encara as tarefas que abraçou com o diaconato: “Como um serviço que se desenvolve a partir da nossa interioridade”.
Nascido em Abrantes, “numa família simples mas com fortes valores cristãos”, e formado em Coimbra, a vida deste antigo profissional de seguros com viagens diárias para Lisboa, durante cerca de 30 anos, nunca lhe roubou o tempo necessário para a família e para a Igreja. “Ainda antes da criação da Diocese de Santarém, em 1975, eu e a minha mulher tivemos um chamamento para as equipas de Nossa Senhora, um movimento católico de casais”, conta Licínio Dinis, que colaborou sempre nas tarefas administrativas da igreja.
A disponibilidade para servir aumentou a partir de 1999, quando entrou na pré-reforma, e alguns meses depois surgiu o convite de D. Manuel Pelino, actual bispo de Santarém. “Ninguém se candidata ao diaconato permanente, é a Igreja que chama através da sua hierarquia, quando acha que as pessoas são dignas”, refere o diácono, que encontrou na sua esposa e nos quatro filhos o apoio certo e necessário para aceitar tamanho desafio. “Para esta missão, a família tem que ser solidária na fé, porque se isso não acontecer nada funciona”, explica Licínio Dinis, que garante nunca ter tomado qualquer decisão sem antes consultar aqueles que lhe estão mais próximo e que ama. As histórias destes homens, e também destas mulheres, é prova de que a fé não precisa de ser ordenada. Basta que se acenda o apelo interior, como fez Licínio Dinis.
PÁSCOA REDOBRA TRABALHO
O trabalho dos ministros da Comunhão e da Palavra é mais visível em épocas especiais como a Páscoa e também nos meses de Verão, em que as solicitações dos sacerdotes triplicam. No dia de Páscoa, as visitas pascais ocupam todos os ministros da Palavra, que levam a imagem de Cristo na cruz a todos os lares católicos. No Verão têm trabalho redobrado já que os párocos estão ocupados com casamentos, baptizados e romarias frequentes nesta altura do ano. Em época de férias, as aldeias do distrito triplicam de habitantes em virtude dos filhos da terra – emigrantes e migrantes – retornarem, respeitando a tradição e cumprindo o apelo das raízes familiares.
ESTADO DA FÉ EM PORTUGAL: ANUÁRIO CATÓLICO
Um padre ordenado por cada dois que morrem. A situação de 2006 mostrava que neste ano morreram 80 e foram ordenados 37 novos sacerdotes.
Seminaristas de Filosofia e Teologia também são menos, segundo os últimos dados disponíveis: de 547, entre diocesanos e religiosos, em 2000, passou-se para 475, em 2006.
Baptismos são menos – quase 10 mil pessoas não receberam o primeiro sacramento. Contudo, este dado deve ser lido à luz da variação do número de nascimentos em cada ano.
Números. Mais concretamente, em 2000 foram baptizadas mais de 92 mil crianças com menos de sete anos. Já em 2006, esse número ficou-se pelos 77 272.
Crianças com mais de sete anos que receberam o sacramento do baptismo representam, actualmente, cerca de 6,7% do total e chegou, em 2006, aos 5165 (5938 em 2000).
População portuguesa na sua maioria – 88,10 % – professa a fé católica. Todos estes dados são de 2006, da Secretaria de Estado do Vaticano, e são do último anuário de 2009.
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