ONDE PARAM AS BRUXAS?

Druidas, bruxas e feiticeiros deixaram as vassouras voadoras em casa e reuniram-se para o VI Encontro Anual de Paganismo. Sem magias de arrepiar, o evento ganha um nível académico. Porque o Harry Potter só existe nos filmes.

31 de outubro de 2004 às 00:00
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Na área de estacionamento do Parque Tecnológico da Mutela, paredes-meias com os desactivados estaleiros da Lisnave, não se avistam vassouras voadoras, tão habituais no imaginário colectivo de quem ainda vê bruxas e feiticeiros como concorrentes da TAP ou da British Airways. O céu também não está negro, antes pelo contrário, a tarde solarenga de um sábado a convidar ao passeio até contraria a máxima de que em Outubro chove a potes.

À entrada, uma senhora vestida de negro apronta-se a dar as indicações. O VI Encontro Anual de Paganismo terá lugar numa sala do primeiro andar, havendo ainda uma pequena exposição de fotografia, o café da praxe e uma banca de venda de alguns produtos alusivos ao tema. ‘T--shirts’, crachás e um ou outro livro compõem o improvisado posto comercial.

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Lá dentro, meia centena de convivas escutam atentamente as palestras. Exceptuando os temas em foco, nada mais alimenta o espírito de quem, meio desprevenido, esperava encontrar uma reunião de indivíduos saídos das trevas, com vestes bizarras, prontos a rogarem pragas a torto e a direito.

A normalidade é tanta que um leigo habituado às histórias da Magda Patalógica – aquela bruxa meio destrambelhada da banda desenhada – fica desiludido. Faltam os pêlos de nariz de elefante, os dentes de crocodilo e toda a panóplia de bichos mortos usados numa poção mágica cozinhada em caldeirão. Putos armados em Harry Potter também não param por ali.

Isobel Andrade, coordenadora da secção lusitana da Pagan Federation International (Federação Internacional Pagã), também conhecida por Lilith, está habituada a que a imaginação ultrapasse a realidade e até brinca com o assunto: “É verdade que nós, bruxas, temos vassouras, mas neste momento só me servem para varrer o quintal. Nunca vi uma voar, mas se conseguisse fazê-lo, ficava rica”.

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Mantendo o tom bem disposto, Isobel confessa ter chegado a tentar tamanha proeza. Tinha 17 anos quando decidiu “fazer um feitiço fortíssimo para ver se o raio da vassoura voava”. Apregoou as rezas, fez as mezinhas, convocou os Deuses, mas nada, embora o feitiço tenha resultado noutro sentido: “Devido aos ingredientes usados fiquei com as mãos cheias de ‘bela-donna’ e quem voou astralmente naquela noite fui eu”.

Bruxa na adolescência Isobel Andrade começou a interessar-se pelo paganismo depois de ficar vidrada com as aulas de História em que ouvia falar das religiões politeístas. Daí até às leituras e conversas com as estrelas foi um pequeno salto.

Mais tarde conheceu a Wicca, a feitiçaria moderna, e tornou-se em definitivo adepta do neo-paganismo. “Chamo-lhe neo porque não vamos pensar que os rituais antigos continuam iguais, e mesmo as formas de pensar são diferentes, adaptadas ao nosso tempo. Por exemplo, até ao século II depois de Roma havia sacrifícios de animais aos deuses, algo que para nós hoje é impensável”.

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Na conferência, a mais pequena até agora realizada pela PFI – não deviam estar na sala mais de 50 pessoas – encontra-se muita gente nova, entre seguidores do paganismo e leigos na matéria, como estudantes e até investigadores nas áreas de Psicologia e Antropologia.

Isobel faz um ponto da situação: “O paganismo em Portugal está pequeno mas de boa saúde. Na minha associação tenho um registo de 110 pessoas, embora em termos de comparência em festivais não sejam mais de 30. Os outros estão lá por observância ou curiosidade”.

Como as tecnologias da informação espalham-se por toda a parte, muita da informação é veiculada por ciber-pagãos, surfistas da Internet que têm interesse pelas mais diversas áreas desta religião, “mas não são obrigatoriamente pagãos”.

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Religião escondida Apesar da caça às bruxas ter cessado há muito tempo, por preguiça de terem de explicar o que fazem ou receio de serem mal vistos, muitos pagãos continuam a esconder a adoração às mais diversas crenças, muitas vezes confundidas com cultos satânicos e outras manifestações do demónio.

Nada mais errado. “Usamos uma série de objectos e símbolos iguais, como o pentagrama ou as velas, mas não temos nada a ver com isso. Nós, pagãos, além de não ocultarmos que utilizamos a bruxaria – outras religiões escondem-no – sublinhamos que ela só deve ser utilizada para o bem, e em casos de extrema necessidade”.

E quanto à falta de beleza e idade avançada das bruxas? Isobel larga uma gargalhada: “Esse é outro mito que faz parte de um folclore, de um imaginário. Nem todas as bruxas são gordas e velhas, mas a igreja deu essa imagem aos seus fiéis com medo que eles fossem conquistados: Traram-nas assim para ninguém as querer”.

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Mundo de crenças e lendas, o paganismo é muito mais diverso do que à primeira vista se possa pensar. Todos os pagãos são politeístas, venerando deuses e deusas, enquanto outros se concentram numa força vital, como o Sol. Existem várias ramificações diferentes, havendo quem siga a Wicca (feitiçaria moderna), o druidismo, a tradição do Norte ou a tradição Ibérica. Cada uma tem os seus feitiços, ritos, festivais e celebrações, pelo que se torna quase impossível estudar todas as áreas.

Normalmente, o pagão concentra-se apenas numa, de acordo com as suas convicções, fazendo um estudo exaustivo de todo um universo de encantamento.

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