Os grandes pressentimentos

Este romance de Agustina, publicado nos anos da revolução, é um fresco notável sobre os anos que estavam a chegar.

02 de junho de 2019 às 09:00
Agustina Bessa Luís
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Começa assim: "Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos onze anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram." Podia acrescentar a frase seguinte: "Quem conservar este sentimento pela vida fora está predestinado a um triunfo, talvez um tanto sedentário, mas que tem o seu reino no coração das pessoas."

De entre todas as coisas que comprovam o extraordinário talento de Agustina Bessa-Luís, aprecio particularmente as primeiras frases dos seus romances – inesperadas, surpreendentes, retratos poéticos que vibram com uma paisagem, um pormenor, um olhar, uma recordação. Vejam o de ‘Os Meninos de Ouro’, vejam o de ‘As Pessoas Felizes’ – que acabei de citar, e que nos reenvia à década de 70, aos anos da dissolução do regime e do anúncio da revolução.

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O álbum fotográfico de Agustina (são assim as suas galerias de personagens) é precioso: mulheres desenhadas a filigrana, deixando atrás de si um rasto de névoa e mistério, homens desiludidos e perdidos no meio dos tumultos que eles próprios criam, matriarcas silenciosas e sábias, relações tensas onde o ódio e o amor (e a inteligência feminina, a intuição, as regras do poder e do seu exercício) são duas faces de uma moeda instável.

Em ‘As Pessoas Felizes’ a cidade do Porto (e o Douro, e o Ave) aparece-nos como o cenário das transformações que a revolução iria depois reclamar – mas que Agustina pressentia já desde os anos 60 (quando publica a trilogia ‘As Relações Humanas’) e que iria confirmar num romance belíssimo dos anos 80, ‘Prazer e Glória’ (ou em ‘Os Meninos de Ouro’, de 1983).

É um romance sobre a decadência das burguesias portuenses ("Nesse tempo o Porto era um mercado."), sim – mas sobretudo sobre o anúncio das convulsões, e da cólera, e da agressividade, e da penúria de paixão que se hão de seguir, e sobre a ascensão de uma nova consciência das mulheres acerca do seu papel e da sua felicidade.

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O final é soberbo e simbólico, com Nel envolvida pela paisagem do Douro que emerge com uma dimensão operática e melancólica.

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