Os pedófilos que ‘purificavam’ rapazes

Um treinador de futebol dizia ser psicólogo, mas abusava de menores com outros elementos da seita 'Verdade Celestial'

10 de julho de 2016 às 16:00
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As sequelas nos corpos e nas mentes de nove menores ainda estarão longe de sarar, mas a 25 de junho de 2015 terminaram os abusos de que eram alvos recorrentes, pois nessa data a Polícia Judiciária de Setúbal deteve um grupo de pedófilos que, a coberto daquilo que diziam ser ‘rituais de purificação’ da falsa seita Verdade Celestial, violavam crianças e adolescentes, chegando a fazê-lo aos próprios filhos.

À frente do grupo de cinco homens e três mulheres que cometeram os abusos numa quinta em Palmela estava R., um homem de 35 anos que foi treinador de futebol em escalões de formação, o que facilitava o contacto com menores, e que depois se dedicou a fazer consultas, na qualidade de psicólogo clínico, mesmo sem ter qualquer habilitação, além de ser, enquanto "representante divino na Terra", o ‘mestre’ da Verdade Celestial, ao qual todos os demais deviam obediência, tendo a possibilidade de definir em que consistiam os ‘rituais de purificação’ e quem nestes podia participar.

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A investigação às atividades do grupo de pedófilos apurou que os abusos a menores começaram quando R. ainda residia em Setúbal, com a mulher e os dois filhos, que têm agora nove e quatro anos, e também com o amigo D. e o filho deste, que tem agora sete anos e foi a principal vítima. Mas o facto de o casal estar desempregado, tendo apenas o salário do amigo, empregado de um supermercado, levou a que todos aceitassem o convite da namorada de um primo do ‘mestre’ para viverem num anexo da quinta dos pais dela.

O que sucedeu nesse local entre janeiro de 2014 e julho de 2015 leva a que quatro homens estejam em prisão preventiva e a que eles, outro homem e três mulheres vão responder por mais de 400 crimes, desde abuso de crianças e ato sexual com adolescentes a pornografia de menores e lenocínio agravado. Igualmente requerida na acusação elaborada pelo Ministério Público de Setúbal está a inibição do exercício das responsabilidades parentais aos dois homens que não só abusaram sexualmente dos filhos como permitiram que outras pessoas o fizessem.

Sem acusação ficou o primo do ‘mestre’, apesar de ter chegado a ser constituído arguido, tal como a namorada que deu acesso à quinta. Embora as explicações escolares que ambos davam naquela zona da Margem Sul do Tejo possam ter facilitado o contacto de R. com menores, não foram encontrados indícios de envolvimento nos crimes.

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ABUSOS SEXUAIS

À imagem das seitas norte-americanas e europeias em que o líder mantém relações sexuais com mulheres e menores da sua comunidade de fiéis, também o dia a dia da Verdade Celestial conciliava orações e partilhas de experiências com um elevado grau de promiscuidade sexual, quase sempre dirigida às crianças e aos adolescentes de quem o ‘mestre’ ganhava confiança e que atemorizava com ameaças que iam da necessidade de serem protegidos de espíritos malignos à premonição de acidentes em que estariam envolvidos.

Os menores eram convencidos de que tinham de ser ‘purificados’, num ritual que envolvia três tipos de abuso. Na maioria dos casos era-lhes feito sexo anal, tendo a cópula sido realizada mesmo aos mais novos. Também eram coagidos a fazer sexo oral a adultos – alguns dos quais masturbaram e fizeram sexo oral às crianças e adolescentes -, e noutras ocasiões estes ejacularam no corpo dos menores. Ponto assente no grupo de pedófilos era que o ‘elemento purificador’ era o pénis e que as vítimas deviam ter menos de 14 anos, "por serem inocentes e puras".

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Mesmo assim, o ‘mestre’ da Verdade Celestial sodomizou um adolescente, irmão mais velho de um rapaz de quem fora treinador de futebol. Aproveitando as consultas de psicologia, pelas quais cobrava cinco euros, em que o jovem expôs dúvidas quanto à sexualidade, convenceu-o de que ter relações consigo permitiria partilhar "energias positivas" e seria a única forma de "satisfazer os pedidos dos anjos" para que não lhe sucedesse um grave acidente de viação. Depois, juntou outros três homens do grupo, que lhe fizeram sexo anal e outros atos, tal como na semana seguinte chamou N., uma jovem maior de idade que se juntara à comunidade - tal como outra, cinco anos mais velha - e observou enquanto os dois fizeram sexo.

Noutra ocasião, a mesma jovem manteve relações sexuais com o irmão mais novo do adolescente, tendo o rapaz estado também presente quando N. fez sexo oral de forma alternada ao ‘mestre’ e a A., de 28 anos, que fora o primeiro adulto recrutado e chegou a masturbar o seu irmão mais velho. O líder da ‘Verdade Celestial’ também ordenaria que o rapaz e a jovem se despissem, tendo esta tentado penetrá-lo com um vibrador, sem o conseguir.

Outro rapaz, então com 11 anos, que ia à quinta para receber explicações e consultas, foi convencido por R. de que seria o futuro mestre da seita e de que o seu pai era assolado por demónios. Numa sessão, o falso psicólogo vendou os olhos do menor, que entretanto se despira, e espalhou-lhe algo no corpo, garantindo que as mãos de um anjo estariam a tocar-lhe. Nas seis noites em que o rapaz dormiu na quinta sucederam-se abusos e exposição a imagens pornográficas com menores, sem que nunca o tenha conseguido penetrar. O silêncio da criança foi garantido com a ameaça de que todos seriam sacrificados se revelasse o que acontecera.

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Também o seu irmão mais novo, então com nove anos, assustado com supostos sons demoníacos que R. tinha no seu telemóvel, foi acariciado nas nádegas e genitais pelo ‘mestre’ e por A. numa noite em que o rapaz pernoitou na quinta de Palmela.

RECRUTADOS ONLINE

A criação de dezenas de perfis no Facebook foi a forma que R. encontrou para fomentar encontros entre pedófilos e menores de idade, recrutando novos elementos para a ‘Verdade Celestial’. Presença permanente tornou-se A., que o ‘mestre’ foi buscar de automóvel a Lisboa, possibilitando-lhe logo na primeira noite abusar de um primo dos donos da quinta, então com 11 anos, que acariciaram e masturbaram. Mas o menor conseguiu que saíssem do quarto e nunca mais dormiu naquele lugar.

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A internet também permitiu o ‘recrutamento’ de C., de 40 anos, que visitou a quinta pela primeira vez em setembro de 2014 e nessa mesma noite fez sexo anal ao filho de D., enquanto o ‘mestre’ evitava que este fizesse barulho. Ao novo membro da Verdade Celestial foi dito que aquela era uma rede internacional que incluía elementos da Polícia Judiciária e da PSP.

C. seria detido a 19 de fevereiro de 2015 por crimes de pornografia de menores, estando desde então em prisão preventiva, mas não sem antes ter levado à quinta B., de 31 anos, que conhecera graças a um site de encontros para homossexuais. Numa das conversas entre o novo elemento e o ‘mestre’, em que o primeiro se queixa de que Portugal era um país "fechado" e "quadrado" e o segundo critica atitudes "muito apaneleiradas" de C., discutiram a possibilidade de cada um engravidar a companheira do outro e viverem juntos, sem saberem "quem era o pai de quem", mas rapidamente redirecionaram a troca de mensagens para os abusos a que o primeiro planeava submeter o filho de D.

Numa conversa posterior a B. ter consumado os atos pedófilos com esse menor, fantasiou com o que iria fazer ao primogénito do ‘mestre’, tendo este admitido que talvez um dia o "emprestasse", embora esse fosse também o objetivo de A., que fora viver para a quinta. B. argumentou que a arranjar ‘macho’ para a criança, então com sete anos, seria melhor "um como deve ser do que um gay". Nessa altura o menino fora já abusado pelo próprio pai, na presença do irmão mais novo e da mãe, que está por isso acusada de abuso sexual agravado.

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"Homens como nós há um num bilhão (sic)", garantiu um dos elementos do grupo pedófilo numa das trocas de mensagens. Talvez seja verdade, mas ainda assim seriam um num bilião a mais.

 

PERÍCIAS EVIDENCIAM "PERSONALIDADES MALFORMADAS"

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As perícias da Unidade de Telecomunicações e Informática da Polícia Judiciárias às conversas entre os arguidos R., D., B. e A. evidenciam, segundo a acusação do Ministério Público, "as suas personalidades malformadas e totalmente desconformes com a ordem social, a moral e o direito". Também há referência às mazelas que os abusos provocaram nos menores, dois dos quais, filhos do ‘mestre’ da Verdade Celestial, à guarda da sua mulher, também ela acusada de um crime de abuso sexual.

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