“Ouvia ‘assobiar’ e momentos depois a explosão"
Gritava ele para o alferes Alípio Cunha, dizendo-lhe, satisfeito, que ao levantar a quinta mina já tinha dinheiro para ir à metrópole de férias.
No dia 22 de setembro de 1973 embarquei no Niassa com tristeza, porque tinha casado em março e já era pai. Iam três batalhões. O meu era ‘Os Cavaleiros do Gabú’ (a região onde estive). Quando acabámos a instrução na ilha de Bolama, regressámos a Bissau e depois seguimos para Pirada, junto ao Senegal, onde os guerrilheiros do PAIGC tinham bases. Em Pirada ficaram a Companhia de Comando e Serviços (CCS) e ainda a 3ª Companhia (a minha). A nossa missão era proteger o quartel--general e as populações e patrulhar a zona. Os guerrilheiros disparavam a partir da fronteira mísseis e nós respondíamos com os velhos obuses de 14 mm, de menor alcance. A 1ª Companhia foi para Paunca e a 2ª para Bajocunda, e tínhamos de ir abastecê-las. Foi numa dessas operações que apanhei o primeiro susto. Quando íamos para Bajocunda, a 13 de dezembro, foram detetadas minas anticarro. Toda a gente se protegeu, ficando só o sapador da CCS – o soldado Fernando Almeida – que as levantou. Repetiu a operação quatro vezes.Gritava ele para o alferes Alípio Cunha, dizendo-lhe, satisfeito, que ao levantar a quinta já tinha dinheiro para ir à metrópole de férias (os sapadores recebiam por cada mina anticarro que levantassem), mas esta estava armadilhada com outra mina antipessoal e rebentou-lhe nas mãos. O corpo ficou aos bocados, pelo mato. Um pé caiu à minha frente.
Ataques
No dia 18 de dezembro houve um ataque inimigo a Amedalai e a 7 de janeiro, em Bajocunda, uma emboscada com armas ligeiras a uma coluna que ia abastecer um pelotão em Copá. Morreram Sebastião Dias e José Correia, da 2ª Companhia. O meu pelotão foi escalado para ir buscar os corpos.
Durante fevereiro houve várias investidas em Copá e Bajocunda. Na 1ª Companhia, que também foi atacada, morreram o 1º cabo António Ribeiro e os soldados Rui Patrício, Silvano Alves e José Oliveira. Fomos fazer proteção a Sissaucunda, onde cada pelotão permanecia durante um mês.
O PAIGC atacou-nos no dia 13 de abril com mísseis lançados desde o Senegal. O destino era Pirada. Os mísseis
cruzaram o céu de Sissaucunda e começámos a correr para as valas. Ouvia ‘assobiar’ por cima de nós e poucos segundos depois explodiam em Pirada. Queriam atingir o quartel, mas só matavam civis.
A 25 de Abril de 1974, os guerrilheiros voltaram a atacar mas a partir dessa data, em virtude das modificações políticas em Portugal, não tivemos mais problemas. A 21 de agosto procedeu-se à entrega de Paunca. No dia seguinte, Bajocunda e a 25 de agosto, Pirada, com a recolha da CCS e da 3ª Companhia a Bissau. Ainda prestei serviço no quartel-general, a guardar o palácio do brigadeiro Carlos Fabião, comandante-chefe das Forças Armadas na Guiné. A 4 de setembro, na parada do Batalhão de Caçadores Paraquedistas 12, em Bissalanca, estiveram 500 homens do Batalhão de Cavalaria 8323 em formatura geral. O comandante era o coronel Jorge Mathias, da Ericeira. Eu estava no 4º pelotão da 3ª Companhia, comandada pelo capitão Ernesto Brito, de Lisboa. O alferes Alípio Cunha, de Famalicão, comandava o meu pelotão e havia três furriéis – o Sousa, o Simão e o Esteves. Os outros comandantes de pelotão eram os alferes Manuel Gonçalves, Rodrigo Coelho e António Pereira, vindos do Fundão, Pinhel e Amarante. O comandante da CCS era o tenente Francisco Costa, de Coimbra. O capitão Ângelo Cruz, da Amadora, chefiava a 1ª Companhia e o capitão Aníbal Tapadinhas, de Lisboa, a 2ª. A Companhia de Caçadores 11 tinha o capitão Nuno Sousa, de Lisboa. A 12 de setembro estávamos todos de regresso.
Frutuoso João Ferreira
Batalhão de Cavalaria 8323
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