PLANETA BENFICA

Os sócios das casas do Benfica sofrem com o clube… à distância. E queixam-se de não poder votar para as eleições. Ouvimos os presidentes de dez dos quase 200 núcleos de benfiquistas espalhados pelo mundo

29 de fevereiro de 2004 às 00:00
PLANETA BENFICA
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O Sport Lisboa e Benfica tem 200 Casas e filiais espalhadas pela Europa, África, Ásia, América e Austrália. Mesmo sem vencer qualquer título relevante nos últimos anos, os imigrantes portugueses no estrangeiro continuam a criar pontos de encontro para os adeptos do clube. Toronto, no Canadá, Sidney, na Austrália e New Bedford, nos Estados Unidos, são algumas das cidades que vivem o dia-a-dia do Benfica. “É muito fácil manter as casas quando o clube ganha, mas quando isso não acontece é extremamente difícil. O Benfica pode abrir 25 casas por ano e nenhum outro clube que esteja dez anos sem ganhar é capaz de fazer isto”, diz Carlos Colaço, director das Casas do Benfica desde Maio de 2002.

Um dos países que deixou de ter uma casa foi a França. As elevadas rendas no centro de Paris impediram que os adeptos benfiquistas continuassem a ter um espaço próprio para promover o clube. A solução encontrada passa por abrir várias delegações na capital francesa.

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Também há quem opte por se alojar em estabelecimentos comerciais. É o caso dos membros do Sport Macau e Benfica, uma das filiais asiáticas. Eles costumam alugar um restaurante para discutir as actividades do clube e assistir aos jogos do Benfica.

Muitas vezes, os responsáveis das Casas do Benfica espalhadas pelo Mundo criticam o clube. Uma das queixas mais ouvidas é a impossibilidade de votar à distância para as eleições do clube.

Os sócios que quiserem votar têm de comprar um bilhete de avião para se deslocarem ao Estádio da Luz. “Existe hipótese de fraude no sistema de votação à distância. Pode haver outras hipóteses, mas temos de ir com calma e total segurança”, diz Carlos Colaço.

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A maioria das Casas do Benfica tem uma página na Internet. E uma das grandes novidades é o facto de se poderem comprar bilhetes ‘on-line’ para assistir aos jogos em Portugal. Apesar das inovações, muitas delas queixam-se dos maus resultados e da má gestão do clube nos últimos anos.

“As pessoas das Casas e filiais estrangeiras têm uma permanente necessidade de mudança e a saudade leva a que exprimam de uma forma mais sincera, franca e aguerrida as suas opiniões sobre o clube”, conta Carlos Colaço.

Em ano de centenário, o clube ressuscita uma velha tradição, interrompida com a construção do novo Estádio. A nova Luz prepara-se para voltar a receber no Dia do Benfiquista, em Agosto, todos os membros das Casas e filiais do Benfica oriundos dos cinco continentes.

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Casa do Benfica de Paris (França)

Ano de fundação: 1988

Último Presidente: Jaime Russo

Nesta altura costuma desejar-se vitórias, mas em França esperamos apenas que apague cada vez mais velas, que cumpra esse ritual por muitos e bons anos"

Em Paris, vive-se um clima de angústia em torno do Benfica. A Casa do clube na capital francesa está desactivada e Jaime Russo, seu último presidente, não esconde o desencanto. “A partir da direcção de Vale e Azevedo a situação degradou-

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-se. Queríamos realizar uma série de actividades, não estávamos dispostos a ser apenas um bar com ‘snooker’, matraquilhos ou cartas, mas a conjuntura nunca se alterou.”

Os benfiquistas de Paris perderam o ânimo. Entre as reivindicações estava o direito ao voto à distância – para poderem eleger um presidente os sócios precisavam de fretar um avião e ir a Portugal –, a informatização de todas as filiais e o apoio às escolas de formação.

Na capital francesa chegaram a existir 200 sócios, com quatro equipas de futebol. E havia outras boas intenções, como a criação de secções de hóquei em patins e de basquetebol. “Hoje a Casa do Benfica em Paris resume-se a um endereço postal.”

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Sport Luxemburgo e Benfica

Ano de fundação: 1988

Presidente: Carlos Lemos

Cem anos de sucesso a nível nacional e internacional, que fazem do Sport Lisboa e Benfica o melhor cartão de visita da vasta comunidade portuguesa residente no estrangeiro" Carlos Lemos anda feliz da vida. Presidente da filial número 26, tem promovido o Benfica através de uma equipa sénior de futebol (30 jogadores), por uma formação de ‘quilles’ – uma modalidade idêntica ao ‘bowling’ – e três equipas de andebol, entre as quais uma feminina.

As acções de marketing não ficam por aqui. A Festa de São João, realizada no início do Verão, atrai durante dois dias a atenção de dez mil pessoas. “É um espectáculo, vêm pessoas de todo o lado." Numa sede alugada, segundo Carlos Lemos “a melhor do país”, juntam-se com regularidade 200 pessoas.

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Casa do Benfica de Neuchatel (Suíça)

Ano de fundação: 1996

Presidente: comissão administrativa de 14 pessoas liderada por António Castanho

Estamos em sintonia com a direcção do Benfica e temos esperança no trabalho que

está a ser feito. Esperamos dias melhores" Futebol, ténis de mesa, ginástica feminina e danças de salão. Estas são as actividades mais praticadas pelos 450 sócios da Casa do Benfica de Neuchatel, na Suíça. A par do desporto, os adeptos costumam reunir-se diariamente na sede da Casa e, em dia de jogo, há festa. Mas os maus resultados do clube nos últimos anos pioraram a imagem dos ‘encarnados’ aos olhos dos suíços. “Só os mais velhos se recordam do Benfica campeão”, diz Luís Santos, membro da comissão administrativa. Para dar uma nova alma aos sócios, a Casa do Benfica convida com frequência antigos futebolistas para visitarem a sede: Shéu, Vítor Paneira, Diamantino e Bento foram alguns dos que alegraram a alma dos imigrantes benfiquistas que vivem em Neuchatel.

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Clube Desportivo Travadores (Cabo Verde)

Ano de fundação: 1930

Presidente: Álvaro Leitão da Graça, Filho

Esperamos muitos sucessos no futuro e que sejamos sempre o maior clube de Portugal"

Em 1930, Cabo Verde via nascer o Clube Desportivo Travadores, delegação benfiquista daquele país que era então colónia portuguesa. A ideia partira de um grupo de jovens com idades entre os 15 e os 19 anos. Mais de 70 anos depois, o Travadores continua a ostentar o símbolo do clube que o inspirou, numa sede própria de quatro pisos .

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Actualmente com quase 2500 sócios, dedica-se a actividades como o futebol, o boxe, o voleibol e o basquetebol, promovendo o Benfica através do seu 'site' oficial e do jornal. Álvaro Filho não tem dúvidas quanto à eterna ligação aos encarnados: “Sendo o nome do Benfica conhecido e reconhecido pelos seus méritos em todo o mundo, é natural que a bandeira e a camisola que o Clube Travadores enverga atrai qualquer a cidadão.”

Casa do Benfica de Sidney (Austrália)

Ano de fundação: 1988

Presidente: José Carlos Rosa

Que os jogadores do Benfica se portem bem e que lutem para vencer o campeonato, se não este ano pelo menos para o próximo. Ou então que conquistem já a Taça de Portugal, porque aqui sofremos muito para que ganhem"

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José Carlos Rosa, presidente da Casa do Benfica de Sidney, está habituado a enganar os ponteiros do relógio. Quando o clube do seu coração entra em campo, a diferença horária entre Portugal e Austrália obriga-o a levantar-se às duas ou três da manhã para acompanhar as transmissões em directo.

“Aqui qualquer modalidade é uma loucura excepto o futebol, visto apenas como passatempo”, adianta José, a viver do outro lado do mundo há 17 anos.

A colectividade que dirige tem uma equipa júnior de futebol, participante em alguns torneios locais. E desenvolve ainda actividades como a pesca, o bilhar e a tão portuguesa ‘sueca’. Enquanto as cartas são lançadas com ciência em cima da mesa, José Rosa fala dos anos que perde ao ver o Benfica jogar, pois “a distância também aumenta o sofrimento”.

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Casa do Benfica de New Bedford, Massachussets (EUA)

Ano de fundação: 1991

Presidente: Francisco Vala

Desejamos que o Benfica comemore o seu centenário com a vitória no campeonato,

que traga de novo as alegrias do passado"

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O primeiro andar de um prédio de New Bedford, no Estado do Massachussets, começa a ser pequeno para a Casa do Benfica. Os 120 sócios que ali se reúnem para ver os jogos em directo anseiam por um espaço próprio, que esperam estar pronto em menos de três anos.

Francisco Vala, presidente da Casa, congratula-se pelo facto da colectividade viver bem de finanças e adianta que a mudança de instalações será um momento importante, a acompanhar os feitos desportivos de uma equipa que joga num país onde Eusébio continua a ser uma referência. “Daqui a dez ou 20 anos o futebol vai ser aqui tão importante como qualquer outra modalidade.”

Casa do Benfica de Toronto (Canadá)

Ano de fundação: 1969

Presidente: Mário Narciso

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A família benfiquista deve apoiar sempre o clube em todas as modalidades. Desejamos que o clube volte rapidamente às vitórias gloriosas"

É num restaurante com capacidade para 450 pessoas que os sócios da Casa do Benfica em Toronto, no Canadá, se juntam em dias de jogo. Aqui, o nome do clube é levado bem alto e galga fronteiras: este ano, a equipa de futebol da casa vai participar em torneios nos Estados Unidos e em Cuba. Alem de promoverem o nome do Benfica, os jogadores luso-canadianos são vencedores natos: campeões há quatro anos consecutivos do campeonato da II Divisão daquele País, já conquistaram uma Taça do Canadá. “Os canadianos não ligam muito ao futebol, mas respeitam o nome do Benfica”, diz o presidente Mário Narciso.

Casa do Benfica de São José, Califórnia (EUA)

Ano de fundação: 1991

Presidente: Gorete Leal

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Parabéns pelo centenário, que o clube volte às grandes vitórias e a ser respeitado em todo o mundo"

O Benfica é uma referência para a comunidade portuguesa residente na Califórnia. O clube já visitou a Casa do Benfica por duas vezes: em 1991 e em 2000. Os jogadores foram recebidos com pompa e circunstância. No dia-a-dia os 320 sócios dividem-

-se em várias actividades: os jovens disputam um campeonato distrital de futebol e os mais velhos mostram as suas habilidades na equipa de veteranos. Quem estiver em má forma física pode jogar bilhar, cartas e pingue-pongue. Fora do desporto, também comemoram o Carnaval e os Santos populares. Nos Estados Unidos, o Benfica passa muito despercebido: “Os americanos não demonstram interesse pelo clube”, diz Luciano Pinheiro, um dos fundadores da casa.

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Filial do Benfica de Bissau (Guiné)

Ano de fundação: 1944

Presidente: Manuel N´hamajo

Temos confiança na direcção para voltarmos aos velhos tempos do Eusébio e Coluna. Esperamos ganhar o Campeonato, a Taça de Portugal e conseguirmos o apuramento para a Liga dos Campeões"

Em Bissau, o Benfica é o clube português mais popular e a sua filial guineense comemora 60 anos de actividade dedicados ao desporto. Têm uma equipa de futebol que disputa o campeonato da primeira divisão e participam nos campeonatos de basquetebol, voleibol e atletismo. Em dia de jogo, há festa neste país africano. Grande parte do povo da cidade junta-se na sede para assistir aos encontros. “O Benfica é um clube com grandiosidade e tem mais adeptos que o FC Porto ou Sporting”, diz Paulino Malaca, director técnico do Benfica de Bissau.

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Sport Macau e Benfica (Macau)

Ano de fundação: 1950

Presidente: Pedro Leal

Gostaríamos que o nosso Benfica regressasse aos tempos gloriosos"

O Sport Macau e Benfica tem uma escola de futebol dos seis aos 19 anos, que participa em campeonatos e se costuma classificar nos primeiros lugares. As raparigas do clube praticam ginástica. Com cerca de 100 sócios e 54 anos de vida, a filial ainda não dispõe de instalações próprias. Os membros costumam reunir-se num restaurante de Macau para discutir as actividades do grupo e ver os jogos. “Para os chineses, o Benfica é um clube muito grande, mas sabem que a melhor equipa portuguesa do momento é o FC Porto. Eles respeitam muito o nome do treinador Toni e do Eusébio”, diz o presidente Pedro Leal.

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