Preciso do risco, de sentir um bocado de medo
Nasceu e cresceu na cidade de Lisboa, de onde saiu há quinze anos para estudar teatro em Paris. Está pela primeira vez a representar em Portugal e em português, na série juvenil ‘Morangos com Açúcar’. Segue-se o cinema com o filme ‘Corrupção’, de João Botelho. Só não revela a idade porque enquanto actriz sente que pode ser e fazer qualquer personagem.
Tem construído a sua carreira em França. Voltar para Portugal foi uma vontade, uma necessidade... o que foi?
Estou há mais de 15 anos em Paris, ou seja, neste momento acho que não tenho uma nacionalidade específica. Tenho a nacionalidade do país onde estou a trabalhar e a verdade é que adoro Portugal e gosto da língua portuguesa...
Mas é a primeira vez que representa em português...
Sim, sempre trabalhei em Paris. Fui para lá fazer estudos de teatro, pensei em fazer só um curso e depois voltar, mas tive lá um trabalho e depois outro, e os anos passam. Nunca antes tive vontade de representar em português. Este ano sim – senti falta. Por isso vim.
Foi fácil perceber essa vontade?
Sim. Guiei-me pelo instinto e este ano precisava mesmo... Talvez por sentir que já tinha a maturidade suficiente para poder passar de uma língua para a outra, porque a língua portuguesa é riquíssima, é mais difícil...
É mais difícil representar em português?
Nunca deixei o português. Tenho despesas telefónicas bem grandes para Portugal quando estou em Paris. Mas, quando nos habituamos a representar numa língua, há assim umas emoções, uma adequação a essa língua que torna difícil a adaptação a outra.
Fez mais teatro. O palco dá mais a um actor do que as câmaras de televisão e o cinema?
Não posso passar sem teatro, é a minha paixão. Necessito organicamente de teatro e tenho tido a sorte de representar autores de que gosto. As personagens femininas que tenho feito são extraordinárias, tenho aprendido imenso com elas. O trabalho de actor é estar sempre a aprender de qualquer maneira.
Qual é a sua opinião sobre a vida cultural de Lisboa?
Estou a tentar ficar a par das coisas que se passam cá. Sinto que há cada vez mais um sentido, uma vontade de fazer mais; sou muito optimista. A nível cultural não creio que as pessoas dêem ao teatro a atenção que merece. Isso é essencial para que continue a haver teatro.
Está preparada para ser conhecida na rua, agora que está nos ‘Morangos com Açúcar’?
Não penso muito nisso. Quero fazer o melhor possível. Estou a aprender muito e estou a gostar imenso. Tenho uma relação óptima com eles [actores da série], sinto que alguns têm tudo para ser actores.
Nunca fez nenhuma telenovela. Como está a ser a experiência?
A verdade é que o que eu estou a fazer nos Morangos, ou seja, a minha postura, seria a mesma em qualquer tipo de trabalho, a mesma concentração... e é um trabalho muito difícil, tem de se fazer da maneira mais rápida e o melhor que se pode fazer.
A vontade é de continuar cá?
Estou disposta a isso. Dá vontade de ficar e ao mesmo tempo tenho saudades do trabalho lá. Comecei um trabalho em França, sobre Tchékhov, que vai durar três anos – é um grande desafio. Sempre quis trabalhar este autor. Há muitos actores que têm medo de representá-lo: ele levanta os problemas e obriga os actores a pensar, a questionarem-se em relação a si próprios...
Acontece-lhe muitas vezes? Um trabalho obrigá-la a fazer perguntas sobre si?
Sim... depende dos autores, mas não quer dizer que a nossa vida pessoal interesse quando estamos a representar. O desafio é exactamente esse – criar um mundo que na vida do dia-a-dia não se cria.
É fácil despir-se das personagens?
Tento. Nem sempre consigo, não controlo muito. Aliás, quando estou com o meu filho [de 5 anos] tenho mesmo de parar e de ser mãe dele. Quando estou a representar desligo-me de tudo o que tem a ver com a vida quotidiana. Qualquer actor tem de se implicar na representação.
Está com um projecto paralelo em Paris. Como é conciliar os dois tempos?
Está a começar muito lentamente, o que me permite estar cá e lá. Adorava continuar cá porque não vim só dar um saltinho. Agora estou nos dois, não me posso separar de Paris. Faz-me uma falta enorme. Quando estou lá tenho saudades de cá, e quando estou cá tenho saudades de lá... E habituei-me, o que me ajuda no meu trabalho, a estar completamente em desequilíbrio.
Quando era criança já pensava ser actriz?
Talvez fizesse umas representações em casa mas até fiz estudos em Psicologia cá. O sonho era dançar, no princípio até pensei prosseguir, mas havia muita exigência na dança e eu queria sempre mais do que achava que conseguia dar.
Na vida é isso que temos que fazer em relação a tudo: ao amor, ao trabalho, na vida do dia-a-dia. Temos que, pelo menos, tentar dar o máximo. Tenho imensos defeitos mas tento sempre fazer o melhor possível.
Como foi a sua infância?
Nasci e cresci em Lisboa, com muita liberdade. Tenho uns pais de sonho. O meu pai é António Manuel Baptista, a figura que eu admiro mais no Mundo. Tenho sempre esse termo de comparação: o que será que ele fazia neste caso? Ele é cientista de medicina nuclear e é professor de Física. É o homem com mais cultura que conheço.
Os seus pais aceitaram bem a ida para Paris?
Acharam sempre que não era para ficar. Custou-lhes muito. A minha mãe ainda hoje me pergunta: ‘Por que foste?’ Mas senti a necessidade de ir. Eu preciso do risco, qualquer coisa que eu sinta um bocado de medo acho: ‘Isto vai ser bom’, e geralmente é.
Acontece-lhe isso a nível profissional?
Sim, quando me propõem um papel e eu penso: ‘Será que consigo fazer isto?’, geralmente é bom sinal, aliás por isso é que agora precisava de fazer qualquer coisa cá – estar lá já era habitual.
Licenciou-se em Psicologia. É importante para o seu trabalho?
Não, tenho um problema com a Psicologia [risos]. Há definições básicas que gosto de contrariar. Penso que há uma psicologia humana que aplicamos, cada um de nós, quotidianamente de acordo com a nossa forma de ver as coisas.
Questionou-se muito quando resolveu ir para França, aos 18 anos?
Na altura não. Não me questionei, as questões vieram há muito pouco tempo. Porque na altura em que fui para lá era mesmo uma necessidade, não havia volta a dar.
Precisava de se sentir insegura...
Sim, porque cá, com a família maravilhosa que eu tenho, era impossível sentir isso. Fui para lá e não conhecia ninguém. Havia dias em que pensava vir--me embora. Não havia aquela coisa de chegar a casa e estar aconchegada, ter com quem falar, a amizade, o amor...
Pagava as suas contas?
Sim, apesar da ajuda dos meus pais. Fiz todo o tipo de trabalho, desde modelo a vender coisas, a servir às mesas, e também fui ‘au pair’.
Começou a ver Portugal de outra forma depois de sair?
A apreciar mais, sobretudo. Acho que os portugueses têm dificuldade em implicar-se nas coisas. Nós temos um sebastianismo, um messianismo judaico, aquela ideia de que alguém há-de chegar para nos salvar. E isso mexe mais comigo agora do que na altura, até porque era muito jovem. Aliás, não foi por isso que fui para lá, se fosse por isso implicava-me aqui. Não fui para fora à procura da salvação.
Vai participar no filme ‘Corrupção’ de João Botelho...
Sim, e fiquei muito contente por ter sido escolhida. Vou dar o meu melhor.
O primeiro sonho de que se lembra é o de querer dançar. Depois disso, Teresa Ovídio licenciou-se em Psicologia, ainda em Lisboa, curso que concluiu já estava em Paris, ao mesmo tempo que fazia teatro. Serviu às mesas, foi vendedora, posou como modelo e ainda tomou conta de crianças para conseguir pagar as contas. Na Universidade de Sorbonne fez um curso de cenografia – “o professor era maravilhoso” – e assume que precisa do risco e do desequilíbrio para ser bem sucedida na profissão que escolheu. Foi, aliás, isso que levou a actriz a querer sair de Portugal: a procura da insegurança. Não será à toa que confessa que tudo o que a põe em dúvida costuma resultar. No currículo de Teresa contam-se quatro filmes, duas séries de televisão e onze peças de teatro, este último o género de representação do qual necessita “organicamente”. É mãe de um menino de 5 anos, que a acompanha para todo o lado. Chegou mesmo a dar aulas de português aos colegas do filho para que ele não se sentisse estrangeiro em França.
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