Quando os mortos falam connosco
Médiuns e espíritas têm um dom muito procurado: comunicar com os que deixaram o mundo dos vivos. Não faltam clientes.
Acreditam que a vida não finda no funeral. Sabem que ao corpo sobra duas hipóteses: apodrecer na terra ou reduzir-se a cinzas. Mas a alma é o que conta, sendo defendida como imortal e capaz de comunicar com os vivos. Os médiuns, que se apresentam como o elo entre o plano espiritual e o mundo terreno, assumem que têm a capacidade para tal. Os entendidos confirmam que a mediunidade é a responsável que permite a correspondência entre quem está a sete palmos abaixo do solo e aqueles que continuam a pagar impostos. Com a variante de se manifestar de várias maneiras e feitios, a suposta aptidão de falar, ouvir e, até, ver criaturas que já partiram, enche os consultórios dos ditos especialistas da matéria imaterial.
O anúncio de Ana Duarte é directo: "Médium ou guia espiritual. Dou consultas em escritório na zona de Alvalade, Lisboa". A entrevista é feita nas imediações da avenida de Roma, num espaço em que, às vezes, recebe clientes. Na mesa redonda cabem o anjo Miguel, um livro e um cristal quartzo. As mãos carregam uma custódia de prata, os dedos ficam entrelaçados, os olhos fecham, a nuca curva-se e palavras saem em sonância baixa: "Entre outras coisas, pedi ao meu anjo para que o seu espírito ficasse presente e para que não sejamos perturbados por espíritos menos agradáveis".
ESPÍRITOS TEMPERAMENTAIS
Ana, nascida no ano de 1954, avisa que há espíritos inconformados, desestabilizadores, rebeldes, revoltados com a morte que os sugou; atrevidos que entram sem serem convidados e que ainda restam outros, poucos, agressivos. Um certa madrugada despertou-a com uma bofetada. "Fiquei com a cara marcada. Mas este episódio não faz a regra." A experiência de duas décadas atesta que a maioria dos seres incorpóreos não é tormentosa. A viagem transcendental surgiu aos 17 anos, num Dezembro que antecedeu um Janeiro que a marcaria. "Senti uma inexplicável tristeza e só me apetecia chorar."
Levada ao médico, o diagnóstico recaiu em depressão. O pior estaria por vir, quando, após trinta dias, um fulminante acidente cardiovascular mata o pai. Relacionou a estranha angústia com a terrível notícia. A premonição induziu-a a experimentar inúmeras feições de mediunidade, até encontrar a angeóloga Lizete Soares, que lhe assegurou que a angelologia – o ramo da teologia que estuda os anjos – se adequava à sua personalidade.
"O meu anjo entra em contacto com o anjo do cliente, que por sua vez, traz a mensagem de quem já desencarnou." Digamos que os querubins servem de agentes, embora haja excepções, raras, em que o defunto se expressa directamente. "Quando recebo mensagens através do meu anjo já a reconheço, se são via entidades vem torcida". Os anjos não têm sexo, embora o que diz que ouve não venha de uma boca, a voz aproxima-se da masculina. "É mental." René Descartes, já apostara que a glândula alojada no centro do cérebro, a pineal, é o ponto da união substancial entre corpo e alma. Sob a conspecção esotérica, ela funciona como um ‘terceiro olho’ e é a responsável pelas intuições transcendentes.
Ana nunca viu nenhuma alma do Além, apenas um vulto, uma sombra branca, na casa da mãe. A inibição visual não lhe tira as marcações na agenda. Mulheres, homens, de todas as idades e credos, procuram respostas. Sinais. Provas. "Já tirei tantas e tantas dúvidas que, durante muitos anos, tiravam o sono a muita gente". Pais de suicidas que insistem em receber uma pista da causa que os terá conduzido à sepultura por espontânea vontade. Viúvos e viúvas em busca da confirmação de um detalhe sigiloso sobre o cônjuge. A revelação de palavras-chaves e de características pessoais consola o cliente. "Houve um dia em que demorei a transmitir a mensagem e havia uma razão". O espírito que fora chamado mantinha a gaguez que tivera o respectivo corpo.
UM DOM "IMPECÁVEL"
O discurso de um médium com oitenta anos é veloz. Não dá o rosto, não autoriza que seja publicada o endereço onde recebe amigos, ou amigos de amigos, se estiver bem-disposto. O consultório reduz-se a um minúsculo quinto andar sem elevador de um velho prédio lisboeta. A consulta custa vinte euros e dura sete minutos. "Esta coisa de falar com os mortos é um dom impecável."
Desde muito novo que vê parentes falecidos. A tia chamou-o de louco. O pai, também. Mas quando lhes disse que a mãe estava na cozinha a cantar ‘Fado da Mocidade’, de Ercília Costa, enquanto cosia um botão de uma camisa de flanela, promoveram-no a "nosso menino". A senhora Elisa morrera durante o parto. José, baptizado nesse mesmo sábado de Março de 1932, não tinha como saber do pormenor. "Era a camisa preferida do meu pai e a canção que ela mais gostava. A partir daí, até ficaram com medo de mim." Recebe com uma frase inquietante: "Já estávamos à sua espera". O plural do verbo intimida, mas não resta saída. Se assim for, que venham eles, elas. E num ápice vieram, ou então o senhor com apelido de uma árvore é um detective espectacular que descobre e imita a peculiar dicção de alguém que morreu nos anos 90.
A pele branca escureceu, a pronúncia beirã transformou-se em francesa, a sua face metamorfoseou-se para uma conhecida e uma conversa outrora inacabada pôde ser concluída. Estranho. Ou ilusão. O tempo acorda com relógio da parede a tocar. A cara de José deixou de ter barba. Um papel com uma frase é para ser lida e destruída mal a portada do prédio feche.
ESCRITA DO ALÉM
Alda Maltez abriu a porta da mediunidade há dez anos. Depois de a sua saúde ter sofrido sérias complicações, a antiga empresária da indústria têxtil deparou-se com algo que não designa de coincidências: "Eu via em todo o lado os algarismos 2.22. 3.33, 4.44. Eram sinais". O processo, difícil, alastrou-se no trabalho e no casamento. Saiu da empresa e separou-se. Devagar e dolorosamente chegou à psicografia: "Canalizo por escrito as mensagens que os guias espirituais e os anjos me dão."
Contudo, a tradicional escrita mediúnica, em sua opinião, abarca um sentido maior: "É também uma técnica de comunicação com outras dimensões que se encontra ao alcance de todos".
A pioneira em Portugal do Curso Psicografia da Alma defende uma nova consciência, a colectiva, que não se limita a falar com aqueles que vivem nos cemitérios. No início surgiam "entidades brincalhonas com intentos menos bons". Foram varridos com a prática. Alda regista na folha e no computador e distingue o que ela própria redige e o que lhe é ditado. "As mensagens que recebo são mais bonitas." Quando se estreou, necessitava de ouvir para escrever, mas com a experiência, basta-lhe escutar as primeiras palavras e desata a escrever. A linguagem começou por ser arcaica e a seguir deu-se um ajuste, tendo desenvolvido um tipo de letra, maiúscula, para acompanhar o compasso acelerado. "Eles falam rápido."
Já transmitiu recados de espíritos, apesar de isso não ser a sua vertente preferencial: "Faço aconselhamento. Peço ao guia e ele ajuda a pessoa encarar o momento actual". Para passar a comunicação é necessário sintonizar – evocar. "Eu vejo." Aliás, tem visões que só residem na mente. "O que eles, os guias, me têm dito é o seguinte: no dia em que eu tiver essa capacidade irei ver outras coisas que não iria gostar." Poupam-na, digamos. A estudante de Psicologia tem 52 anos, mas a idade não lhe tirou a fama: "Sou um bocadinho medricas".
MÉDIUM DE INCORPORAÇÃO
O calor de Maio é travado na rua dos Bombeiros de Setúbal, número 27. Uma inesperada brisa provoca à corajosa que me acompanhou nesta reportagem uma inofensiva quebra de tensão. Subirá, de imediato, com a simpatia de João Baptista, o presidente da Associação Espírita Luz e Amor. As honras da casa estão à vista num rés-do-chão que dispensa a EDP para ter luz.
João Baptista é aquilo que os espíritas denominam doutrinador: "Eu falo com entidades." Que se perceba: o telefone só toca do lado de "lá". Esta metáfora traduz que os espíritos não devem ser convocados, aparecem só se quiserem. António, reformado da função pública, explica-se: "Sou um médium de incorporação".
Para entender um pouco sobre o assunto, comecemos, por definir espiritismo, que em nada está relacionado com os anteriores depoimentos, não apenas por ofertar um auxílio gratuito. Segundo o pedagogo francês Allan Kardec, é a ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos. Já a psicofonia (incorporação) é o fenómeno pelo qual o médium empresta seu aparelho fonador (cordas vocais, boca, etc.) para emitir as frases do espírito. A comunhão entre a mente do espírito e a do médium é telepática e obtida por perispíritos (uma espécie de segundo corpo que o encarnado possui, semelhante ao corpo físico).
EXPERIÊNCIA REVELADORA
A história de António começou em 1981 aquando o falecimento de um parente. Em dez meses emagreceu dezassete quilos, a medicina deu-lhe calmantes, mas o mal-estar não ia embora. Um dia foi. "Um amigo meu levou-me a esta associação espírita, e o que presenciei, só devo ter visto duas vezes, em trinta e um anos de vida espírita". Sentou-se no banco, fizeram-lhe o passe espírita – "o acto de passar as mãos repetidamente ante os olhos de uma pessoa para magnetizá-la, ou sobre uma parte doente de uma pessoa para curá-la" – e uma médium incorporou, de tal maneira, que o rosto dela alterou-se: "Ficou igual ao do meu familiar que tinha morrido".
A ligação com o espiritismo brotou naquele momento. Por ter sido fiel à certeza de que a mediunidade não se aprende; expressa-se, António adverte: "As entidades andam e funcionam connosco e ao trespassarem o corpo uma energia magnética vibrará". Se as sente a aproximar fora do centro espírita, desvia-se, consciente que os guias dar-lhes-ão a mão.
ECOS DO ALÉM NA TELEVISÃO E NA INTERNET
Todas as semanas, na TVI, Iva Domingues leva a estúdio Janet Parker, uma das mais famosas médiuns do Mundo e a sua auxiliar Su Wood, através das quais os convidados – muitos deles caras conhecidas – contactam com os seus entes queridos. O programa estreou em Maio de 2010 e, desde logo, gerou tanta polémica quanto interesse. Neste Verão, andará em digressão por cidades portuguesas.
A temática fascina cada vez mais o público e já existem canais on-line, especializados na abordagem das questões do espírito. É o caso da TVCEI, a primeira webtv espírita do Mundo, com programação em oito idiomas, inclusivamente português e à qual se pode aceder através do endereço www.tvcei.com. O canal oferece notícias, conteúdos explicativos e relatos de comunicação com outros mundos. Outros canais web disponíveis na net são www.canalespirita.com e www.mundoalem.co, ambos produzidos por conhecidas comunidades espíritas.
O Biography Channel apresentou recentemente a série de documentários ‘My Ghost Story’, onde diversos especialistas abordavam a questão do espiritismo.
No que diz respeito ao cruzamento do tema com a ficção há dois bons exemplos: a série ‘Fact or Faked’, transmitida pelo canal de TV por cabo Syfy ou o filme ‘Hereafter – Outra Vida’, onde o realizador Clint Eastwood se revela um apaixonado pelos mistérios da vida para além da morte física.
O PODER CURATIVO DOS ESPÍRITOS
Prática difundida entre os espíritas, o passe espírita consiste na imposição das mãos feita por um indivíduo (Passista), sobre outro (Recebedor) que se encontra sentado à sua frente, num ambiente à meia-luz. Segundo a doutrina Espírita, este acto tem o poder de canalizar energias benéficas, conseguindo a cura, o conforto, o alívio da dor e o reequilíbrio orgânico e psíquico.
Os médiuns assumem terem uma capacidade maior de absorção e armazenamento dessas energias, que emanam do fluido cósmico Universal e da própria intimidade do Espírito. Tal aptidão coloca-os em condições de transmitirem essas vibrações a outras criaturas que, eventualmente, estejam a necessitar de ajuda.
NOTAS
DISTINTOS
O espiritismo estuda a natureza das entidades. Os médiuns dão-lhes uma voz.
PREÇOS
Uma consulta com um médium custa entre 40 a 70 euros. Mas há quem ajude de graça.
ANÚNCIOS
A actividade não está regulamentada. Muitos dos médiuns usam os classificados para anunciar consultas.
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