Regresso à Guerra Fria: Putin reeditou na Ucrânia a política soviética
Repressão de manifestações, ocupação militar de territórios, consultas falsamente democráticas e lei do a ferro e fogo.
A preocupação manifestada pelos prémios Nobel da Paz, reunidos em Roma, no antepenúltimo fim de semana de 2014, diz tudo: Há "riscos crescentes de guerra, incluindo de uma guerra nuclear, entre grandes Estados". Mais: "Esta ameaça provém do facto de algumas grandes potências pensarem que podem atingir os seus objetivos pelo uso da força".
O documento saído do encontro de Mikhail Gorbachov, Lech Walesa, Dalai Lama e Ramos-Horta, entre outros, não dá nome às grandes potências, mas refere onde ocorrem os conflitos que suscitam a ameaça nuclear: Síria, Iraque, Israel/Palestina, Afeganistão, Sudão do Sul e Ucrânia.
O ano de 2014 foi terrível e a Ucrânia é o principal novo cenário de conflito entre os blocos EUA-União Europeia e a Rússia. Ali ocorreu até a tragédia, em julho, do derrube bélico de um avião de passageiros com 298 pessoas a bordo. Isto para além do estraçalhar do país com anexação da região da Crimeia pela Rússia e uma sublevação armada na parte leste da Ucrânia, indiscutivelmente sustentada pela Rússia, que já provocou milhares de mortos e vasta destruição.
VENTOS FAVORÁVEIS
O rumo favorável às posições da Rússia de Putin numa guerra mais antiga, na Síria, estimulou o poder imperial do Kremlin quando viu a fronteiriça Ucrânia ser atraída para a União Europeia. O presidente Putin imaginou uma repetição de Damasco em Kiev. À maneira de Bashar al-Assad, Moscovo apostou que Yanukovych seria capaz de se manter o poder contra a atração generalizada na população por uma vida melhor, à alemã.
De 2013 vinha um confronto político leste-oeste em Kiev que rebentou em finais do ano quando Moscovo forçou o poder da Ucrânia a travar a implementação de um acordo de praticamente pré-adesão à União Europeia.
A força impetuosa dos protestos populares em que se notabilizou um antigo campeão de boxe Vitali Klitschko, muito apoiado pela chanceler alemã Angela Merkel, fez porém cair o poder pró-russo. Em janeiro demitiu-se o primeiro-ministro Mykola Azarov, e em fevereiro, após substituir o Estado-Maior do Exército para reprimir a ferro e fogo os manifestantes da praça da Independência, em Kiev, foi o próprio presidente Viktor Ianukovych quem se viu destituído e fugiu à procura de proteção nas zonas controladas pelas forças militares russas.
A reação de Vladimir Putin ao êxito dos protestos populares foi de imperador déspota: perdeu a batalha das manifestações em Kiev e vingou-se ocupando a Crimeia que num processo falsamente democrático, com referendo, anexou diretamente à Rússia.
POLÍTICA À SOVIÉTICA
Putin pratica à maneira da extinta União Soviética uma falsa democracia, onde o poder impõe e os votantes têm o direito de confirmar.
Para se manter no poder, alegadamente com regras à democracia americana de dois mandatos na presidência, Putin inventou uma dança de cadeiras. Ao atingir o limite previsto passou a primeiro-ministro indo o ocupante deste cargo, no caso Dmitri Medvedev, para presidente. Após um interregno de quatro anos, voltou a ser eleito presidente com mais dois mandatos no horizonte.
Na anexação da Crimeia seguiu-se o mesmo pró-forma: a 11 de março, o parlamento da Crimeia e o conselho da cidade de Sebastopol manifestaram a intenção de se juntar à Rússia, consideraram a destituição de Ianukovych como um golpe de estado e o governo de Kiev ilegítimo; a 16 de março, cerca de 80% do milhão e meio de eleitores votaram por 96% a separação da Ucrânia e com 93% a adesão à Rússia.
A vingança prosseguiu uns dias depois com a Gazprom a anunciar a 1 de abril o fim do ‘desconto’ no preço do gás que fazia ao anterior governo pró-russo e uma subida imediata do preço de 40%.
Nos EUA, aquela inadmissível anexação pela Rússia de parte do território da vizinha Ucrânia levou a administração de Obama a lançar um processo de sanções económicas, a que se juntou a União Europeia. Ficou assim completo um quadro de confronto que lembra a chamada Guerra Fria do pós-Segunda Guerra Mundial 1939-45, com os blocos ocidental e soviético separados pela Cortina de Ferro.
TENSÃO DESARMADA
O alerta dos galardoados com Nobel da Paz quanto ao perigo de uma guerra nuclear tem razão de existir, mas as circunstâncias são muito diferentes dos tempos da antiga Guerra Fria, assente numa corrida armamentista que chegou à exaustão com a Bomba de Neutrões e o filme ‘The Day After’ (O Dia Seguinte), sobre as quais não de sabe qual foi mais ficção.
Além disso, apesar das acusações de ambos os lados a chamar-lhes novos Hitler, os líderes dos dois blocos, Obama e Putin encontraram-se pessoalmente, este ano e em pleno confronto bélico, por três vezes: no Dia D, na Normandia, em junho, e nas cimeiras da APEC, em Pequim, e do G-20, na Austrália, ambas em novembro.
FORÇA DA ECONOMIA
Estamos de facto longe dos tempos em que o líder soviético Nikita Khrushchev descalçava o sapato para bater com ele na mesa, ao discursar na assembleia da ONU, em setembro de 1960, ou em que o presidente americano Dwight Eisenhower ficava deprimido por o inimigo lhe recusar o aperto de mão. As telecomunicações tornaram obsoleto o ‘telefone vermelho’, com linha direta da Casa Branca ao Kremlin, criado após a crise dos Mísseis em Cuba, com o suspense de quem acionava primeiro o botão do ataque atómico.
Hoje os contactos são permanentes e os chefes da diplomacia John Kerry e Serguei Lavrov passam o tempo a reunir-se. Com a globalização, a economia tornou-se a arma mais temível e que atinge mais fundo. Até a Guerra Fria é de novo tipo.
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