“Sem ela, a minha vida não teria metade da graça"
Estrela Carvas, secretária, amiga e confidente de Amália, contou. Inês Almeida, jornalista, escreveu. O resultado é um livro onde se apresenta a mulher para além da diva do fado.
Écomo se o Fado – assim mesmo, com letra maiúscula, sinónimo de destino – tivesse juntado estas duas mulheres. Já se sabe que aqueles que o Fado junta nada aparta. Estrela Carvas, 67 anos, passou mais de 30 ao lado de Amália Rodrigues e nem a morte foi capaz de levar-lhe a amiga. Amália permanece dentro de Estrela. Num lugar iluminado.
Estrela autodiagnosticou-se uma ‘amalite’ desde que, aos dez ou onze anos, se sentou à porta da diva do fado à espera de conhecê-la. Dessa vez não conseguiu vê-la. Só mais tarde, aos 18, quando deixou Luanda e rumou à metrópole para passar férias havia de concretizar o seu desejo de sempre. Nunca mais perdeu Amália Rodrigues de vista. 'Se não a tivesse conhecido, a minha vida seria igual a tantas outras, a trabalhar numa repartição pública, não teria tido metade da graça', afirma, convicta, Estrela Carvas, que mantém a voz de menina obstinada.
Desde 1960 que Estrela esteve ao lado de Amália. Sabe o que, porventura , mais ninguém sabe da mulher para além da diva do fado. Sabe que Amália queria ter sido bailarina. Que fumava desalmadamente. Que nunca se atrasava para os espectáculos – chegava sempre cedo. Que pedia a Deus para ser capaz de amar. Que bebia litros de chá. Que gostava de queijo da Beira Baixa, aquele de cheiro quase insuportável. Que roubava flores dos jardins. São como as cerejas as histórias que Estrela tem para contar acerca de Amália.
Estrela tem saudades da amiga que adormecia a ver filmes de Fred Astaire e não gostava de palavrões. 'Sinto a falta dela como de uma mãe ou de uma irmã.' Ficaram as memórias e a voz que continua a ouvir todos os dias, a voz com que a diva chorou seu triste fado.
'ELA AINDA VIVE PARA A AMÁLIA'
Já conhecia a Estrela? Como foi o vosso encontro? E, depois, a relação com ela?
Não a conhecia. Fomos apresentadas na Casa-Museu Amália Rodrigues. Depois, ao longo de sete meses, encontrávamo-nos, de manhã, e ela falava-me da vida dela com a Amália.
A Estrela deixou de viver por causa de Amália ou Amália fez com que a vida de Estrela fosse mais preenchida?
Ela viveu a sua vida – tem família, uma filha e agora netos. Mas também viveu para a Amália e ainda vive: na segunda-feira, quando a Casa-Museu está fechada, vai à Hemeroteca pesquisar sobre a Amália.
Foram amigas e as amigas às vezes zangam-se. A Estrela resistiu a falar dessa parte da relação entre elas?
Não. Ela fala da Amália com admiração mas não evita falar dos problemas...
O que é que a Inês sabia acerca da Amália?
Muito pouco, alguns fados mais conhecidos. A Estrela apresentou-me à Amália.
'FOI ELA QUE VESTIU O FADO COM NOVAS ROUpageM'
'Em 51, eu tinha nove anos. O meu pai perguntou: «Quem é que quer ir ver a Amália?» Ora, perguntem ao cego se quer ter vista. A minha mãe disse que ia ela, os quatro mais velhos e, claro, eu, a Estrela. O meu pai respondeu logo que não, que eu não ia, porque ainda não tinha idade. Mas a minha mãe, nesse dia, foi uma verdadeira padeira de Aljubarrota e disse: «Vai, vai. A Estrela vai!» O meu pai deve ter percebido que nem o governador-geral lhe daria a volta e, enfim, lá acedeu, comprando um bilhete também para mim.
Só que o homem põe e Deus dispõe. Azar dos azares, à última hora a noiva do meu irmão mais velho também quis ir e a pobre e pequenina Estrela teve de ceder o seu bilhete a mando do pai. De nada serviria reclamar, chorar ou bater com a cabeça nas paredes. Eu era a carta fora do baralho e fui obrigada a ficar em casa. Revoltada e amargurada, fui chorar para debaixo da mesa para o meu pai não ver, senão ainda me batia.
Recordo-me que, quando voltaram do cineteatro Tropical, eu continuava debaixo da mesa, lavada em lágrimas. E não eram lágrimas de crocodilo. Nunca mais perdoei ao meu pai. Nessa noite, aprendi o que era um desgosto, um terrível desgosto. Foi, até àquele dia, o maior desgosto que tive na minha vida. A minha mãe, depois, fez-me o «relato» todo. Bebi cada palavra que ela dizia, mas sabia que ouvi-la contar não era a mesma coisa, não tinha a mesma graça, nem metade da emoção. Eu queria era ver a grande Amália, queria ver uma rainha e queria ouvir uma deusa.
Nos meus inocentes nove anos não sabia, por certo, as razões da minha devoção, mas sentia uma atracção extraordinária por ela. Era a voz. Como a voz das sereias. Era só a voz o que eu conhecia dela, mais nada. E de mais nada precisava. Bastava ouvir a Amália cantar para que eu, com nove anos, cantasse também.
Abençoada voz que me fazia tão feliz.' (...)
O Natal de 1960 estava à porta. Tropical e tórrido como era sempre em Angola. Telefonei (terá sido o milésimo telefonema?) para desejar à Amália um Bom Natal e para lhe dizer que, agora, estando com um pé em África e outro na Europa, voltaria a Lisboa no ano seguinte. De repente, a Amália deu-me uma novidade que me caiu em cima como um balde de água fria: «Ó menina, não venha porque eu vou para o Brasil e vou casar-me.»
Eu não queria acreditar. Devo ter ficado gelada ao telefone. De tal forma que, ainda antes de morrer, a Amália se lembrava disso.
Pedi-lhe que não o fizesse, mas ela respondeu, rindo: «Tem de ser! Chegou a altura de casar, Estrela.» E casou. Casou com o engenheiro César Seabra, com quem ficou sempre, até ele morrer.
Para mim, que a admirava, saber que a Amália ia casar e ia viver para o Brasil era ter a certeza de que ela nunca mais voltaria a Portugal. Nunca mais cantaria e nunca mais teríamos a Amália. «Nunca mais» era a expressão que ressoava na minha cabeça.
Estava fora de questão sair de Luanda e ir para o Brasil. Luanda era a minha casa, Angola era a minha pátria, a minha terra; vir a Portugal e regressar era fácil. O Brasil era uma coisa do outro mundo.
Fosse como fosse, a Amália é que nada tinha a ver com as minhas suposições e com os meus dilemas. Foi para o Brasil e casou a 26 de Abril de 1961. E o que pensei, e pensei logo, foi básico: «Agora ele não a deixa cantar, vai ser o bom e o bonito.» Fiquei com má impressão do engenheiro, do César, sem o conhecer. Era um preconceito, mas era o meu preconceito. Havia de me arrepender dele.
(...)
Foi ela, foi o gosto dela, que introduziu a cor preta no fado, assim como foi ela que lançou os vestidos compridos como uma imagem de marca do fado. Vestiu, portanto, o fado com uma nova roupagem, dando-lhe a dignidade que até aí não tinha.
Nas suas deambulações, sentia a necessidade de se apresentar de forma diferente, de mudar. Alterava as cores, alterava o corte de cabelo – o que era recebido, pelo público, sempre com espanto e admiração.
Em jeito de graça, costumava às vezes desabafar comigo: «Quando morrer, se for para o céu, Deus vai puxar-me as orelhas, porque gastei muito dinheiro mal gasto em roupas.
(...)
Vícios, quem os não tem? A Amália não fugia à regra. Tinha poucos. Melhor dizendo, quase nenhuns. Mas teve um, o maior, que quase lhe custou a vida, o vício dos cigarros. Era uma fumadora inveterada. Chegava a fumar quatro ou cinco maços por dia. Deixou o vício, embora não tenha sido fácil. Nem para ela, nem para mim. Felizmente conseguiu. Mas só conseguiu abandoná-lo quando teve a fibrilhação, no episódio do Casino.
Para deixar de fumar fez um pacto comigo. Chamou-lhe o pacto do diabo. Combinámos que eu não a deixaria fumar, a não ser uma vez de hora a hora. «Diga eu o que disser, faça eu o que fizer, a Estrela não me deixa fumar. Tenho de lhe pedir a si. Você é a única pessoa suficientemente mal-educada para ser desagradável comigo e não me deixar fumar quando eu quero», dizia ela.'
'O 'ANTÓNIO' JANTOU-O VOCÊ ONTEM'
'Quem tomava conta da casa do Brejão, na Costa Alentejana, era a Clara. Ajudavam-na o marido e o pai, o senhor Manuel. A Amália gostava de ir ajudar o senhor Manuel a plantar batatas. Quer dizer, ia mais fazer que ajudava do que ajudar a sério. (...) Depois, ia ver os porcos, mas de longe, e baptizava-os com nomes próprios (...) portugueses: ‘António’, ‘Joaquim’. Quando dava por falta deles, comentava a falta com o César. Com a sua ironia refinada, o César rematava ironicamente: ‘O 'António' jantou-o você ontem.’'
DE VENDEDORA AOS PALCOS DA EUROPA
Na década de 50, a menina que vendia fruta já é uma mulher feita - fadista de pleno direito - actua nos espectáculos do Plano Marshall para a Europa (Berlim, Dublin, Paris, Berna), como única intérprete ligeira no meio de um elenco clássico. Cria ‘Foi Deus’, de Alberto Janes. Durante um espectáculo em Dublin, Amália canta ‘Coimbra’, que fica no ouvido da cantora francesa Yvette Giraud, que a populariza em França como ‘Avril au Portugal’.
BELENENSES, SLB E EUSÉBIO
'A Amália dizia que era do Belenenses e houve um amigo que a fez sócia. Ela nem pagava as quotas, alguém lhe tratava disso. Eu sou benfiquista e se o Benfica perdia não podia reclamar. Ela dizia-me logo: ‘Vá desabafar lá para fora.’ (...) Eles encontraram-se pela primeira vez quando a televisão francesa veio fazer um programa sobre Portugal, no início dos anos sessenta. Os franceses filmaram um jogo do Benfica com a Amália na assistência. No final, o Eusébio aparecia a entregar-lhe umas flores. A partir daí, a Amália gostou sempre muito do Eusébio, pela projecção que ele dava ao país e pela simplicidade no trato.'
'GOSTO MUITO DE SI'
No bilhete datado da década de 70, anexo no livro, que inclui ainda várias cartas, lê-se: 'Estrela, gosto muito de si! Gosto da sua alma. Gostava que o mundo fosse cheio de Estrelas! Beijinhos. Amália.'
UMA DECLARAÇÃO DE AMIZADE NO FEMININO
Estrela Carvas não gosta de ir ao Panteão, onde repousa o corpo de Amália. É um lugar simbólico, mas não é ali que repousa a sua amiga de 30 anos, a mulher de quem foi secretária, confidente e cúmplice. Prefere encontrá-la em casa 'e julgar que vem a descer as escadas numa fúria e me dá um raspanete dos antigos: ‘Menina, onde vai, ainda não acabei!’' Já passaram dez anos desde que Amália Rodrigues morreu, mas Estrela não se despediu ainda dela. 'Prefiro sentir a presença de Amália que é para mim uma constante.' Mais do que uma biografia da diva, esta é uma história de amizade entre duas mulheres que não viviam uma sem a outra.
SÓ NADAVA SOZINHA
'Quando ia nadar, tinha de nadar sozinha. Não podia haver mais ninguém na piscina, pois quando
chapinhávamos apanhava com água na cara, faltava-lhe o ar e começava a ficar aflita. Não podia era ver ninguém à beira da piscina. (...)'
FICHA: 'OS MEUS TRINTA ANOS COM AMÁLIA'
Editora: Guerra & Paz
Autora: Estrela Carvas (entrevista escrita por Maria Inês Almeida)
Preço aprox.: não indicado
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