SWING: A ESTRANHA MODA DO TROCA-TROCA

Dois homens e duas mulheres entregam-se juntos ao prazer. Têm uma característica comum: são todos casados. Neste momento, X (uma mulher) faz amor com Y (um homem). Entretanto, a parceira deste junta-se ao marido daquela. Confuso? É o ‘swing’.

17 de janeiro de 2003 às 18:15
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Tudo é permitido, nada é obrigatório Esta a regra básica do ‘swing’, um fenómeno antigo mas relativamente pouco estudado. Basicamente, trata-se de uma troca de casais, em que parceiros diferentes praticam sexo entre si. Às claras. Uns em frente aos outros. Até se cansarem.

Mas há outras combinações: casais com um homem ou uma mulher, ou vários casais desfrutando entre si dos prazeres da carne. Um ritual que se repete semana após semana, mês após mês, ano após ano, quase sempre com parceiros diferentes.

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Há casais que andam nisto há anos. Muitos têm filhos, quase todos estão bem na vida. Alguns criam laços de amizade profunda entre si. Outros apenas a empatia necessária para que o acto sexual entre os diversos parceiros corra bem.

“Se alguém não estiver a gostar, paramos. Não estamos ali por obrigação, mas por prazer”, conta ao Domingo Magazine uma ‘swinger’. “Eu gosto muito da minha mulher. Amo--a! Se ela não está bem, acabou”, reforça o seu marido.

Respeito, é a palavra mais utilizada pelos ‘swinger’. O amor fica à porta do quarto e o ciúme debaixo da cama. Despidos de qualquer sentimento de posse, agrada-lhes ver duas mulheres entregues às suas fantasias (a homossexualidade masculina é pouco tolerada) e não se preocupam que, momentos depois, o parceiro de uma esteja a satisfazer sexualmente a parceira do outro. Pelo contrário, gostam de ver a parceira(o) ter prazer com outra pessoa.

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Estranhos prazeres, dirão uns. Perversão e promiscuidade, adjectivarão outros. Um nojo, classificará a maioria, ao que os ‘swinger’ contrapõem: “Quem não pensou já em trocar de parceiros? Que homem não desejou ainda estar com duas mulheres na cama? Quantos não traíram já, às escondidas, as suas mulheres e vice-versa? Não temos esse problema. Nós não caímos na rotina nem na monotonia da relação a dois, que tantas e tantas vezes conduzem à destruição do casal”, alerta um ‘swinger’ com larga experiência.

“Isto não quer dizer que todos os casais devam praticar ‘swing’. Aliás, o ‘swing’ não serve para resolver os casamentos. Pelo contrário, apressa a ruptura. Isto é só para quem tem o espírito e a mente aberta. Pessoas sem preconceitos, que gostam de viver plenamente a sua sexualidade”, assegura, convicta, a sua esposa.

Não é fácil chegar aqui e a esmagadora maioria jamais entrará pelos caminhos da ‘infidelidade consentida’. “Primeiro, tem de haver uma relação muito forte e muito sólida entre o casal. Depois, é preciso que ambos sintam necessidade de transformar em realidade as suas fantasias. A primeira vez é sempre complicado. Recordo-me que, não há muito tempo, estivemos com um casal, relativamente novo, e o coração deles batia a 200 à hora! Estavam hipernervosos. Depois acabou tudo por correr às mil maravilhas”, confidencia uma ‘swinger’.

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EFEITO INTERNET

Do que não há dúvida é que são cada vez mais os que querem experimentar. Nem todos têm condições para entrar no clube – “há muitos que só pensam em ‘saltar’ para a mulher do parceiro”, atitude muito mal vista-, mas é indiscutível que a moda do troca-troca pegou de estaca. Os novos, até há pouco fora deste circuito, estão também eles a aderir em força.

Não há uma explicação plausível para este crescimento. A desagregação da família e a contínua perda de valores terão, certamente, a sua quota-parte de responsabilidade. Mas a grande ‘culpada’ chama-se Internet.

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“Este ano é exemplificativo. No Verão surgiram imensos casais a colocar anúncios (na Net) manifestando o desejo de trocar de parceiros. Pensámos que era por ser Verão...mas o Inverno chegou e o ritmo não pára!”, diz um ‘swinger’ muito conhecedor do fenómeno.

Na ‘rede’ é fácil conhecer e ser aliciado. O diálogo estabelece-se ‘via e-mail’ e, ao cabo de meia dúzia de perguntas, combina-se o primeiro jantar a quatro, fala-se no dia seguinte, no final da semana bebe-se um copo num bar ‘swing’ e, se a ‘química’ funcionar, não tarda muito para que a primeira experiência a quatro suceda. Na casa de um dos casais ou, o mais provável, num motel. Uns desistem e encaram o facto como um ‘affaire’ matrimonial. Outros querem mais.

Quem se sente bem acaba por fazer do “swing” um modo de vida. Conhecem-se outros casais. Fazem-se novas amizades. Divertem-se. E garantem que a relação sexual a dois melhora consideravelmente. Porque também há vida sexual (só) a dois. “O apetite aumenta. Conhecem-se novas posições, novas formas de obter prazer e, no fundo, estamos a fazer com o nosso companheiro, aquilo que o ‘swing’ não permite: uma relação sexual com amor, que é necessariamente diferente. Muito diferente”, salienta uma ‘swinger’ convicta.

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Não existem dados estatísticos sobre o que acontece passado algum tempo aos casais que se dedicam a esta prática. Mas não é difícil adivinhar que, em muitos casos (a maioria?), o ‘swing’ acaba por entrar na rotina do casal. A mesma rotina que os fez, um dia, partir à aventura para novas experiências sexuais.

Sociólogos, psicólogos e sexólogos ouvidos pelo Domingo Magazine consideram que o ‘swing’, desde que verdadeiramente assumido pelo casal, não é nenhum “bicho de sete cabeças”. “A troca de casais é uma situação excepcional”, começa por nos dizer o sexólogo José Pacheco, prosseguindo: “É uma situação que tem mais a ver com segurança do que com transgressão. Porque ao transgredirem ao mesmo tempo, ambos sabem que estão a fazê-lo”.

Para este clínico, “se as pessoas se sentem satisfeitas com esse tipo de experiência, não há razões para se ver aí alguma anormalidade”. Acrescenta que se trata de uma prática “mais frequente na classe média/alta”.

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O sociólogo Jorge de Sá considera que esta particularidade tem a ver com o facto de nas classes média alta e alta “ a sofisticação sexual ser maior”, e chama a atenção para este aspecto curioso: “As mulheres valorizam mais os sentimentos, os homens valorizam mais os prazeres carnais. Quando sobem os níveis de educação e de cultura, invertem-se as posições”.

Também o psicólogo Luís Reto entende como normal a estratificação social do ‘swing’, pois “os níveis de exigência na classe média/alta são mais elevados que na classe baixa”. “Criam-se outras expectativas. Há mais insatisfação quando se tem cada vez mais. A classe média baixa e baixa não tem tempo para essas coisas, só tem tempo para sobreviver”, sustenta. “Não é um fenómeno que tenha uma explicação linear, porque é difícil traçar a fronteira entre o que é normal e anormal. Considerando que uma situação normal é aquela que não afecta terceiros, o ‘swing’ pode enquadrar-se nestes parâmetros. Embora haja situações em que há riscos de vir a afectar.”

“Seja como for”, acrescenta Luís Reto, “penso que o ‘swing’ não resolve os problemas do casal. Agora, se for na perspectiva de uma nova etapa na relação, se é isso que o casal quer, não vejo mal nenhum”, sublinha.

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Na mesma linha de raciocínio, o sexólogo Santinho Martins entende que o ‘swing’ pode vir a funcionar como “um estimulante”, face a situações de “perda do desejo e da erecção ou cansaço da relação”. “Nós aconselhamos os casais a renovarem as suas práticas sexuais e a infracção, o proibido, porque é estimulante”. Mas “claro que um casal que funciona em aberto tem riscos”, alerta. Segundo este especialista, há o perigo de, quem pratica a troca de casais, cair “na rotina, no ciúme, na culpabilização”.”.

Já o psicólogo Nuno Nodin, não tem dúvidas: “O ‘swing’, num esquema de acordo mútuo, ou seja, desejado pelos dois, é melhor que a infidelidade às escondidas”, podendo, até, ajudar a resolver situações complicadas. E conclui: “A diversificação das experiências pode enriquecer a relação. Tudo depende da forma como é vivida. Nesse sentido, o ‘swing’ não é condenável, se o casal assumir isso”. Muitos escolhem essa opção.

CASAIS SIMPATICOS À PROCURA DE AMIGOS

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Ele tem 25 anos, mede um metro e oitenta, pesa 73 quilos e diz-se...bem dotado. Ela é nove anos mais velha, mede um metro e setenta, pesa 56 quilos e sublinha a medida do peito (83), as curvas da cintura (fina) e a forma da anca (larga).

O desejo de ambos é ter uma relação com outro casal, de preferência bonito e simpático. A motivação não difere muito das centenas de casais ‘swinger’ que colocam anúncios nos vários ‘sites’ da Internet para uma relação sexual a quatro: sair da rotina, encontrar novos caminhos para a relação e dar expressão às fantasias de ambos. Mais tarde, a atitude é assumida por muitos como uma filosofia de vida.

“Aderimos ao ‘swing’ porque as nossas fantasias começaram a ser mais exigentes. Depois de alguns anos de casamento, a maioria dos casais cai na rotina do dia-a-dia. Para que isso não nos acontecesse, começámos a fantasiar”, confessa um do elementos dos casais praticantes que aceitaram falar connosco.

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A ideia de partilhar o companheiro/a com outro/a parte invariavelmente do homem. Uma ou outra excepção apenas confirma a regra. Contudo, na hora da verdade, quando dois homens e duas mulheres se juntam num mesmo espaço para ‘swingar’ são elas que assumem ‘as regras do jogo’. “Normalmente, são as mulheres que controlam e desbloqueiam a situação, pelo facto de terem tendências bissexuais. E qualquer homem gosta de ver duas mulheres a ‘brincar’. A partir daqui as coisas acontecem normalmente. Está aberto o caminho”, afirma outro elemento de um casal ‘swing’. “No mundo do ‘swing’ quem manda é a mulher. Se não gostarem, os homens não têm hipótese nenhuma”, conclui o mesmo.

A PRIMEIRA VEZ

Os relatos sobre a primeira experiência também não diferem muito ums dos outros, se bem que boa parte dos pretendentes ao ‘clube swing’ ainda não tenha passado do plano das intenções. Dos que já deram o primeiro passo, o arranque não contabiliza más experiências. “A primeira vez foi com um casal da nossa idade, depois de uma longa conversa via Internet e posteriormente em jantares que promovemos. Foi sem dúvida um pouco embaraçoso, no início, mas rapidamente se quebrou o gelo”, conta um casal ‘swing’. Não deixa, no entanto, de ser curioso o facto de nesta primeira experiência surgirem algumas situações de “ménage à trois”, uma variante do ‘swing’. O parceiro escolhido pelo casal é, quase sempre, uma mulher, de preferência uma amiga. “No início a nossa fantasia era estar com uma mulher. Como tínhamos uma amiga ‘toda maluca’, desabafámos sobre o assunto. Ela acabou por dizer que também era fantasia dela estar com uma mulher e assim demos largas à imaginação. Mais tarde, conhecemos alguns casais e trocámos de parceiros”, conta um ‘swinger’.

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EMBARAÇOS

Como acontece muitas vezes nas relações entre casais, o acto sexual nem sempre corre bem e no ‘swing’ também há experiências embaraçosas. Embora poucos falem nelas. É o que acontece, por exemplo, quando o ciúme vem ao de cima. “A situação mais embaraçosa é quando existem ciúmes entre o casal, situação que se verifica com alguma frequência. Por isso, aconselhamos os casais a falarem muito sobre o assunto antes de tomarem qualquer iniciativa do género. Em vez de fortalecerem o casamento acabam com ele”, alerta um ‘swinger’.

Mas não é só o ciúme que contribui para que as coisas não corram de feição. “Se um de nós não está bem, paramos. Podem acontecer muitas coisas, por exemplo, não gostarmos do odor de alguém. As pessoas não têm culpa. Aliás, pode acontecer o mesmo connosco. Aí o melhor é parar e...amigos como dantes. Os verdadeiros ‘swinger’ respeitam isso. Tem de haver muito respeito”, sublinha um membro de um outro casal.

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“Nota-se que, por vezes, há indivíduos que estão com um casal só para ter relações sexuais com a mulher do outro. Não respeitam a sua mulher! Não gostam dela, querem é a dos outros. Topam-se logo. Isto não é ‘swing’. Como não é ‘swing’ aqueles indivíduos que se apresentam com uma pros3tituta para trocar de parceiros”, sublinha o elemento.

Outro, com 20 anos de experiência em troca de casais, é conciso em matéria de situações incómodas: “A falta de erecção.” Já para outro ‘swinger’, “as situações mais embaraçosas passam pelos encontros às escuras, porque às vezes nem sempre sabemos quem está do outro lado”.

FINALMENTE A DOIS

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Num ponto, todos os casais com que o Domingo Magazine conseguiu chegar à fala foram unânimes: a relação a dois melhorou a partir do momento em que viveram novas experiências.

“O que mudou, principalmente, foi a frontalidade e o amor. Acabou a desconfiança, aumentou o desejo e o ego de cada um, sobretudo da mulher”, garante um dos casais de ‘swingers’ por nós contactados. “Descobrimos novas posições, o que nos dá mais gozo e prazer”, afiança outro. Também há quem diga que a relação ficou mais forte: “Temos mais confiança um no outro, mais apetite sexual e menos ciúmes.” E quem levante o problema da rotina: “Gostava que ‘isto’ não se tornasse um hábito. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio e reconheço que não é fácil. É possível, até, que haja casais que não consigam fugir a essa rotina”.

Um outro casal vai mais longe e, além de sublinhar que “não se vai ao ‘swing’ segurar o casamento – porque é mais rápido o seu desmoronamento” –, adverte: “Praticar ‘swing’ todos os fins-de-semana é doentio e revela uma obsessão”.

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