Thanks, Mr. Nubar

‘Pantaraxia - Autobiografia’ foi escrito pelo filho único de Calouste Gulbenkian.

03 de abril de 2016 às 15:00
Foto: D.R.
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Por: Maria Filomena Mónica

Gosto de ler biografias; gosto de ler biografias honestas; acima de tudo, gosto de ler biografias divertidas. A biografia de Nubar Gulbenkian, a que deu o estranho título de ‘Pantaraxia’ (cujo significado é manter as pessoas atentas), preenche estes requisitos.

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No 7º Dia da Criação, Deus não favoreceu o país onde nasci. O nosso solo é pobre, os nossos rios correm ao contrário, a nossa situação geográfica não é famosa. Mas eis que um senhor antipático, de origem arménia, Calouste Gulbenkian, decidiu criar uma Fundação cuja sede, determinou, teria lugar em Portugal. Nunca tal se vira e, durante anos, os meus compatriotas nem deram pelo que lhes coubera em sorte. Eu dei: em 1971, foi com uma bolsa da ‘Fundação’, como então era designada (visto não existir outra), que consegui partir para o estrangeiro a fim de me doutorar.

O facto não alterou a minha visão do sr. Calouste Gulbenkian, um autocrata à moda oriental que passou a vida a discutir com o seu filho único, Nubar. O pai teve uma primeira fúria quando este se casou com uma espanhola. Depois de, em 1930, terem feito as pazes, as relações voltaram a deteriorar-se. O motivo é revelador. Nubar, nessa altura com 44 anos, decidira almoçar no escritório do pai, pelo que mandara vir um frango em geleia acompanhado de espargos. Algumas semanas depois, quando o pai estava a conferir as despesas, deparou-se com os 18 xelins correspondentes ao almoço. Um escriturário encarregou-se de lhe revelar o nome do ‘criminoso’. Seguiu-se a inevitável cena.

A obsessão do pai com o esforço – quando começou a trabalhar, Nubar encontrou, em cima da secretária, um placard com a seguinte máxima "Não há nada mais divertido do que o trabalho" – levou o filho a pronunciar, como filosofia suprema de vida, o princípio de que o trabalho nunca deveria interferir com o prazer. O autoritarismo paterno levou Nubar, um homem inteligente, culto e sensível, a uma vida de playboy.

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A FUNDAÇÃO

Durante a II Grande Guerra, Calouste foi viver para Vichy, o que fez com que os ingleses o considerassem um "inimigo estrangeiro". Furioso, optou por vir para Lisboa, onde morreria em 1955. Há muito que vinha a planear a criação de um organismo que, perpetuando o seu nome, concentrasse, por um lado, a sua colecção de obras de arte e, por outro, contribuísse para apoiar actividades científicas, artísticas e filantrópicas. Não é possível afirmar-se qual o motivo fundamental que o levou a determinar que a fundação ficasse em Portugal, mas três factores devem ter desempenhado um papel: a sua fobia aos impostos, o pouco amor que devotava aos americanos e, ainda e sempre, a sua fúria com o comportamento de Nubar. Temos muito a agradecer a este filho rebelde.

 

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Título: ‘Pantaraxia - Autobiografia’

Autor: Nubar Gulbenkian

Editora: Labirinto de Letras

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Tradução: Adriana Barreiros, José António Barreiros

LIVRO

‘A Amiga Genial’

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Acabo de ler a obra ‘A Amiga Genial’, de Elena Ferrante, publicada pela Relógio d’Água, uma editora que se tem notabilizado por nos dar obras arriscadas sem ter falido. O relato da amizade entre Lenu e Lila, duas adolescentes nascidas num bairro pobre e violento de Nápoles, encheu-me as medidas. Como eu percebo a forte lealdade que entre elas existe a meias com uma saudável rivalidade.

Título: ‘A Amiga Genial’

Autor: Elena Ferrante

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Editora: Relógio d’água

 

RESTAURANTE

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As Piscinas

Ter, mais uma vez, celebrado os meus anos, entre filhos e netos, num restaurante nas Azenhas

do Mar, ‘As Piscinas’, situado sobre o Oceano. Como é de um amigo do meu filho, este combina com ele o peixe que eu aprecio e consegue que eu tenha diante de mim quilos de percebes. Ambos me convenceram de que tudo foi pescado nessa madrugada: mesmo que não seja verdade, optei por acreditar.

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Local: Azenhas do Mar, Sintra

Contacto: 219 280 739

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Site: www.azenhasdomar.com

 

FILME

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‘A Senhora da Furgoneta’

Quem aprecie as peças de teatro de Alan Bennett – é o meu caso – vai gostar deste filme. A personagem principal, magistralmente encarnada por Maggie Smith, é uma mendiga fedorenta e antipática que usa e abusa de um senhor tímido a quem a sua marginalidade comove. Os diálogos são soberbos e a realização exemplar.

 

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Realização: Nicholas Hytner

Interpretação: Maggie Smith

Exibição: Cinemas

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FUGIR DE…

Ensino

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O arraial de Maio de 1968 chegou ao Ministério da Educação. Com atraso, é verdade, mas nunca é tarde para se concretizarem asneiras. A 24 de Março, foi aprovada em Conselho de Ministros uma ‘estratégia de educação para a cidadania’: as escolas de 3º Ciclo e Secundárias vão ter "orçamentos participativos" no próximo ano lectivo, ou seja, os alunos, menores de idade, terão oportunidade de se pronunciar sobre como se gasta parte do orçamento da escola.

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