Um anjo no Gang

A cara de anjo é enganadora. Aos 13 anos, Cláudia furta carros, assalta garagens e passeia-se nas vias rápidas do Porto, em bombas descapotáveis a grande velocidade. A princesa do submundo é a miúda mais nova do Gang da Lapa.

13 de fevereiro de 2005 às 00:00
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Cláudia tem pele de boneca de porcelana. De pijama azul-bebé vestido, olhos estremunhados e cabelo encaracolado em desalinho, arrasta os pés pela sala alcatifada, ensonada. Senta-se à mesa, encostando a cabeça na almofada fofa com desenhos do Pato Donald, que trás na mão. Suspira como uma criança.

São três da tarde, mas as persianas continuam fechadas. A miúda de 13 anos e a irmã, de 15, deitaram-se às oito da manhã. Vão passar o resto do dia em casa a trincar umas bolachas e a ver televisão.

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À noite, os amigos vêm buscá-las. Vão acelerar os potentes ‘tunings’ pela VCI, comer uns hambúrgueres no NorteShopping e, se tiverem com pica, fanar uns carros nos arredores do Porto. “Sabemos que fazem umas asneiras, mas gostamos de andar por aí com eles”, diz Cláudia com candura, entre dois bocejos e risadas infantis. “São divertidos.”

A rapariga poderia ser a cara de uma marca de roupa para bebé. Os vizinhos apelidam-na de anjo. Mas já passou duas noites na esquadra, a última delas há uma semana em Espinho, depois de ser apanhada a roubar uma garagem com sete amigos.

“A minha mãe ficou fula, deu-me cá um raspanete...”. A mãe, Augusta, está agora no quarto a dormir, drunfada com comprimidos para a depressão, a carpir as mágoas do divórcio. Não tem mão nas duas filhas, sussurram os vizinhos com uma pontinha de má-língua. “Todos os dias, antes de sairmos, ela pede-nos para estarmos em casa à meia-noite. Respondemos-lhe que nem pensar. Prometemos estar às três, mas nunca chegamos antes das cinco”, revela Sandra, a mais velha.

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É bonita, podia ser uma betinha da Foz. O ‘piercing’ na língua e os restos de tinta vermelha no cabelo são os únicos sinais visível de rebeldia. “Gostamos de desafiar o que é proibido.” O tom é de provocação. Sandra vai buscar um maço de L & M ao quarto, acende o cigarro compenetrada, com ar reguila.

Só se ouve o chilrear dos periquitos e o motor do autocarro 118, que faz o trajecto do Bairro da Ponte do Carro, nos arredores de Matosinhos até Perafita. O apartamento estremece. Apesar de ser a primeira vez que fala com jornalistas, Sandra não se engasga no português. “Escrevem que somos chefes de gangs, assaltamos pessoas, andamos armadas e assustamos a vizinhança. É tudo mentira.”

Termina a sentença com duas tossidelas profundas. Não por falta de hábito com a nicotina. “Ainda estou a sofrer da porrada que me deram na barriga, há um mês.”

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À QUEIMA-ROUPA

Uns minutos antes da contagem decrescente para o ano novo de 2005, Cláudia e Sandra dão uma festa de arromba no apartamento da mãe. Num dos quartos, ‘Marreta’, ‘Cheirinho’ e ‘Grilo’ bebem copos de uísque e cola de penálti e fumam umas ganzas à refunda. Vangloriam-se dos CLK e Volvos gamados, das namoradas novas e das calças de marca cheias de estilo, compradas com dinheiro fresco.

O ambiente da passagem de ano é de euforia tão descontrolada como as batidas infernais da música de dança. Entre as gargalhadas entorpecidas, ‘Marreta’, o rapaz mais velho do mal-afamado Lapa Gang Boys, saca da pistola roubada, que tinha escondida no casaco e brinca com ela, tal como havia visto nos filmes de ‘gangsters’.

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Aponta-a à cabeça de ‘Cheirinho’, o mais franzino, e diz-lhe que o vai matar. Os amigos gelam. “Estás estúpido?”, grita-lhe ‘Grilo’, indignado com a brincadeira de mau gosto. O esgar de ‘Marreta’ é de fúria. Não aprecia que lhe chamem a atenção. Gosta de pensar que é o chefe do bando.

O cano da pistola está agora na direcção da testa de ‘Grilo’, mas o miúdo é duro como uma pedra, não se intimida. A berraria termina com o som de um tiro seco. ‘Grilo’ está estendido no chão, encharcado de sangue, ainda com vida. ‘Marreta’ de boca aberta, estupefacto. Cheira a pólvora. A morte.

AO SOM DA SIRENE

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“Ficámos em choque. Não sabíamos o que fazer”, recorda Sandra, que estava no quarto com os amigos pedrados. Augusta, a única adulta na farra, terá desmaiado mal viu o corpo inerte do miúdo de quinze anos.

“Foi tudo muito rápido. O ‘Marreta’ pediu-me um lençol, carregou o amigo, já inconsciente, até ao rés-do-chão e deixou-o nas traseiras do prédio”, afirma Sandra. Uma vizinha que preferiu não se identificar garante, no entanto, ter visto a miúda a ajudar o namorado. “É mentira. Fiquei em choque. Sem forças para nada”, responde. Apenas ligou para o 112, mas desligou a meio, sem coragem para se identificar. “Tinha medo de ser presa.”

Enquanto a ambulância deambula, em vão, pela rua deserta do bairro camarário, ‘Marreta’ agride ‘Grilo’ com violência, arranca-lhe os brincos e rouba-lhe os 300 euros que traz na carteira. “Queria disfarçar o crime, dando a entender que ele havia sido assaltado por um desconhecido”, conta Cláudia, que estava a brincar na rua com as amigas quando o tiro foi disparado – terá sido ‘Cheirinho’ quem as avisou da tragédia. “Ficámos a tremer e a chorar a noite toda”, justificam as manas, como que a desmentir os boatos de que teriam ido divertir-se para uma discoteca depois de se livrarem do corpo.

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Os eventos bizarros não terminariam por aí. Durante a noite, alguém partiu o vidro do café do bairro, chamando a atenção da polícia local.

Quando às seis da manhã um soldado da GNR verificava os estragos, Sandra tem uma ‘mise en scène’ que faria Meryl Streep parecer uma actriz de segunda. “Correu pela rua, a choramingar, dizendo que alguém gemia na horta das traseiras”, refere uma fonte policial. “Quando viu o corpo de ‘Grilo’ fez um ar espantado, como se não soubesse de nada.”

O rapaz ainda estava vivo, mas em péssimo estado. “Vi pedaços do cérebro dele espalhados no chão”, conta o dono do café horrorizado. ‘Grilo’ só viria a morrer no Hospital de São João, no Porto, às nove da manhã. ‘Marreta’ foi preso, mas aguarda julgamento em liberdade.

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OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE

A aventura das duas irmãs no reino do submundo mal tinha começado. Uma semana depois do crime, Sandra foi sequestrada no Continente, enquanto comprava pão e iogurtes. “Mónica, a irmã de ‘Grilo’, veio ter comigo e obrigou-me a entrar num táxi. Fomos até à casa dela no Bairro do Regado. Estava lá toda a família”, revela a ‘teenager’.

Umas estaladas e pontapés depois, a namorada de ‘Marreta’ era obrigada a ligar-lhe para o telemóvel. “Eu iria servir de isco para o apanharem e lincharem. Mas ele desconfiou e desligou-me o telemóvel na cara.” Ao fim de umas horas, libertaram-na. “Fui para o Hospital com ferimentos na cara, nas costas e na barriga.”

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Na mesma sala acanhada e de móveis velhos onde Sandra diz ter sido raptada, Maria Arminda, de 56 anos, ri--se da história da rapariga: “É tudo uma grande invenção dela. Nunca a vi mais gorda.” A mulher baixinha, de avental verde, arruma a mesa do almoço e obriga o neto a ir para o quarto jogar Playstation.

A sala tresanda ao cheiro enjoativo de francesinhas e batatas fritas. “Só tenho contas a ajustar com o assassino do meu filho. Mas aquela família tem muitas culpas no cartório, porque não chamou os médicos a tempo e foi cúmplice de um crime.”

Maria Arminda, desempregada, ficou sem ganha-pão e companhia. O marido está preso na cadeia de Custóias. O filho mais novo morreu. “Não foi acidente. O ‘Marreta’ assassinou-o por vingança. Não queria pagar uma dívida ao meu filho”, grita irada.

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No Bairro do Regado, um dos mais degradados do Porto, ainda se chora de raiva e se jura vingança por todos os cantos. Olho por olho, dente por dente. “No dia seguinte ao assassinato, andámos à procura do ‘Marreta’. Se o tivéssemos visto, matávamo-lo”, confessa Liliana, mais conhecida como a ‘preta do Regado’.

Ela era confidente de ‘Grilo’ e estivera com o rapaz na última tarde de 2004: “Ele estava orgulhoso. Comprara um anel caro para a namorada brasileira, a Jaíde, que estava de férias em Espanha”.

Há poucos dias, os amigos pintaram um enorme grafite em sua homenagem num bairro vizinho, o da Lapa - sede dos Lapa Boys Gang. “O mano vai estar no nosso coração para sempre”, jura Pilé, um puto magricela, de boné enfiado na cabeça, calças largas e andar preguiçoso, que não foi ao funeral do amigo por estar no reformatório. “Nunca fez mal a ninguém. Era uma espécie de Robin dos Bosques. Não se importava de dar o dinheiro roubado aos amigos necessitados.”

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A polícia tem uma versão menos romântica de ‘Grilo’, que seria um dos ladrões mais ágeis da noite portuense. “Era um especialista em assaltar carros pelo vidro traseiro”, relata um agente da GNR. “Só estava cá fora porque era menor.”

TARDE DA MÁ-LÍNGUA

Os carros de alta potência voltaram a estacionar e fazer piões com estardalhaço à frente do prédio de Cláudia e Sandra. Mas as duas raparigas raramente são vistas a passear na rua do bairro. Só saem quando a noite cai.

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“Vivo num inferno”, confessa Conceição, a vizinha do rés-do-chão, uma das poucas com razão de queixa das raparigas. “Elas passam a vida a discutir até altas horas da noite e não deixam dormir ninguém. A Sandra até já deu uma estalada na mãe. Fazem o que querem dela.”

Longe vão os tempos em que Conceição ia para o café tagarelar com Augusta. As duas vizinhas esfriaram a relação de cumplicidade depois de uma intriga mal resolvida. “Descobri que não dá para ter confiança com ela. É uma pessoa nervosa, alcoviteira e desequilibrada. E piorou depois da noite de ‘réveillon’.”

A vizinha revela que Augusta era mulher-a-dias em casa de famílias ricas. Quando os patrões descobriram o escândalo, despediram-na, sem misericórdia: “Hoje, passa os dias a dormir. Vive como um vegetal”.

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Embora o prédio onde vive não tenha placa, Conceição não se apercebeu da detonação do tiro que matou ‘Grilo’ na noite de 31 de Dezembro. “Devo tê-lo confundido com um foguete.” O filho, Bruno, 23 anos, que fuma um cigarro na esquina do prédio de tijoleira, também não. Ele já conhece as duas raparigas de ginjeira. “A Cláudia é muito envergonhada. Raramente a vemos a falar. Chegou a jogar à bola com o meu irmão mais novo. A Sandra já é mais extrovertida. Mas é difícil imaginá-las metidas com gangs violentos”, diz numa voz arrastada e olhar ausente. “Conheci os amigos delas e eram gente fina.”

Os donos do mini-mercado e do café do bairro quase punham a mão no fogo por elas. Só sabem das tricas das duas raparigas pelas manchetes dos jornais. “Tão educadinhas. É bom dia, boa tarde. Nunca nos faltaram ao respeito. Quem diria?”

Nuns prédios mais abaixo, a imagem delas não é tão imaculada. “Eu vejo-as na rambóia. A entrar em carros de gandulos e a chegar às tantas da noite”, declara uma idosa que preferiu o anonimato. “Mas com uma mãe daquelas, como é que não iriam cair nesses antros de perdição?”

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MENINAS DE RUA

Escondidas sob o escudo das persianas da sala, Cláudia e Sandra não se importam com o veneno destilado pelos vizinhos. “Só nos queremos divertir um pouco. Qual é o mal?”, pergunta Cláudia. A vida dela mudou radicalmente quando conheceu ‘Grilo’ e os seus comparsas do crime, há dois meses. Até aí era uma aluna atinada do sétimo ano, que nunca repetira um ano lectivo. “Sabíamos que roubavam carros. Mas com eles sentíamo-nos seguras”, conta, numa maturidade que não condiz com a aparência frágil.

Cláudia perdeu a inocência na madrugada em que foi apanhada num Renault Laguna com o pequeno malandro. A matrícula francesa alertou o polícia que passou por eles. “Fomos parar à esquadra. Até foi divertido. Mas não éramos namorados, apenas amigos”, frisa. “Ele adorava estar em nossa casa. Vinha para cá desabafar dos problemas com a família.”

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Se da primeira vez o caso foi abafado pelas autoridades, há duas semanas quando o Gang da Lapa foi apanhado em flagrante a assaltar uma garagem em Espinho, o nome dela acabou escarrapachado nas páginas dos jornais.

“Fomos tão estúpidos. Vimos o carro da polícia a aproximar-se e não fizemos nada. Podíamos ter fugido, se soubéssemos conduzir.” Esteve presa durante poucas horas com a irmã mais velha. Foi libertada, mais uma vez. Apelidaram-na de ‘menina do gang’. Um epíteto que diz não ser verdadeiro. “Quais gangs?! Cada um trabalha para si. Nunca vi grupo mais desorganizado”, ironiza. “Em Espinho, quem se lixou mais foi o ‘Marreta’ que estava proibido pela polícia de sair do Porto”, conta.

Para as duas raparigas, o destino dele está traçado como uma personagem de uma tragédia grega: “Vai aparecer um dia destes a boiar no rio. É morto pelos familiares do ‘Grilo’ ou pela polícia.” O delas também: “Estamos bem assim. Não queremos voltar à escola. Ter de estudar é uma chatice.” A mãe há muito que perdeu a autoridade sobre as filhas. “Está doente. Mal por mal, prefere que eles venham cá a casa, onde estão sob sua vigilância, do que andemos por aí”, reconhecem. “Mas mesmo assim andamos na rua.”

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O telemóvel de Sandra toca com insistência. Do outro lado da linha, Bruno, mais um compincha das noitadas, pergunta a que horas pode vir buscá-las a casa. “Não sei. Dá-nos mais uma hora ou duas para nos arranjarmos.” São quatro da tarde. O dia está prestes a começar para as duas miúdas sem medo. Dali a minutos iriam trocar o pijama de bonecos e tons infantis por uma roupa mais arrojada. A rua não é para meninas.

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