UM SONHO DE BARRO
Esta é a história de um oleiro que perseguiu durante toda a vida um sonho – fazer em barro uma aldeia saloia. Num pinhal, perto de Mafra, nasceu a localidade de faz-de-conta já visitada por muitos ilustres.
No concelho de Mafra, Estrada Nacional 116, a dois passos da Ericeira, ganhou forma o sonho de um homem. José Silos Franco,
82 anos, acreditou e provou ser possível deixar marcado no espaço a memória de outro tempo naquilo que baptizou a Aldeia Museu de José Franco. Hoje, quase 50 anos depois, a aldeia tem 200 mil visitantes por ano.
O sonho de José Silos Franco começou em 1945 com a compra de um pedaço de pinhal, de 2500 m2, à beira da estrada. “A minha mulher, a Helena - grande mulher – chamava-me louco por este meu sonho. Achava que devia gastar antes o dinheiro a pensar no futuro dos netos, ou na compra de casas para arrendar”, recorda. Mas à medida que a aldeia ia crescendo, era Helena Franco quem mais gostava de decorar e de vestir os modelos.
Há 12 anos, a sua ‘musa’ desapareceu mas com a força que lhe vem do barro, o mestre Silas passou a trabalhar ainda mais. “Nunca se deve desanimar”, desabafa, determinado. Tanto para mais, a vida e a obra deste octogenário interliga-se com a história portuguesa. Antes do 25 de Abril, participou com obra sua na Exposição Mundo Português e, na aldeia, recebeu a visita de Marcelo Caetano. Depois dos ‘cravos’, Mota Pinto e António Guterres por lá passaram.
E o mérito já lhe foi reconhecido. Ramalho Eanes condecorou-o com o grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago da Espada e Jorge Sampaio atribuiu-lhe o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Também o Papa João Paulo II lhe concedeu, pessoalmente, a sua bênção apostólica.
COMO SE COZE UMA IDEIA
“Os fogos a lenha são os melhores porque o fogo fazia maravilhas. Não havia duas peças iguais. Hoje são a gás. Como são reguláveis, sai tudo igual”, lembra José Silas. O barro é o mesmo e vem da terra, Torres Vedras. “É o barro vermelho. Dizem os entendidos que é dos melhores da Europa. Aqui ao lado, os espanhóis preparam-no e arranjam-no de maneira mais cuidada, mas o nosso é o melhor”, acrescenta.
Antes de iniciar cada peça, a maioria das vezes, desenha-a no papel. Depois, começa-as todas à base de um tronco de barro que transforma numa espécie de ânfora. Nunca utiliza moldes. Na ânfora de base, modela o corpo principal. “Depois preparo uma massa de barro delgadinha e corto-a como se fosse fazenda. Então, com paciência, visto a peça, tal como um alfaiate coze as diversas partes dos fatos.”
E para trabalhos de tão delicada mestria, o oleiro não necessita de mais de meia dúzia de simples instrumentos: “Uma cana de oleiro, duas ou três pontas de madeira, um teco, um pente velho, um canivete e duas esponjas”, mais a roda, deixada pelos árabes no séc. XIX e, claro está, os seus preciosos dedos.
A construção da aldeia não contou com arquitectos. Para tornar realidade o seu sonho, José Franco apenas teve a ajuda de um jovem estudante dessas matérias. Depois, os pedreiros e ele próprio tomaram conta do recado. Os manequins são obra de um amigo, um escultor desconhecido. As caras e as miniaturas levam a sua assinatura e as azenhas foram construídas por um antigo Oleiro, o Joaquim da Luz.
À entrada da aldeia saloia, o local mais fascinante e já mítico é o pequeno atelier do seu mentor. Do homem que a criou e que lhe deu vida e que, pela saúde da mesma, ainda hoje, já depois dos oitenta anos, continua a velar. Com um sorriso permanente nos lábios e os dedos, grossos, banhados em barro, e sem nunca dar menos importância a cada peça que ia moldando. Ali mesmo, em frente à bancada do artista e ao som da sua roda, sentado para além da corda que limita a zona dos visitantes, trabalha para as pessoas, para quem o visita. “Eu aqui, sabe, a estas horas do dia, faço falta a muita gente...”
A VISITA DE JORGE AMADO
Este é um museu que se visita sem pagar diz o oleiro que, apenas, conta com o contributo de beneméritos na caixa de esmolas da Capela de Sto. António. Dali irá, directamente, em auxílio dos mais desfavorecidos. Sendo propriedade sua, José Franco diz que não se paga porque vai tendo o que chegue para ele. As despesas de manutenção ficam por sua conta. E não são poucas. Luís Ribeiro, antigo mecânico da equipa de ciclismo do Sporting, entregou-lhe há pouco uma correia nova da caixa da grafonola, ao que se seguiu o teste com um disco antigo. O objecto faz parte da colecção da sua “Casa da Música”, um dos muitos estabelecimentos das ruas desta aldeia especial. Pelo arranjo, pagou-se 100 euros. Mas o Mestre Franco não se lamenta. A pequena fortuna investida na sua aldeia “tem sido o mais santo dinheiro gasto em toda a minha vida.”
A aldeia tem sido nascente de muitas alegrias na vida deste Oleiro. A amizade, um dos valores que mais preza, é disso exemplo, pois é neste espaço que recebe os amigos. Dos quatro cantos do mundo e de todas as proveniências sociais e culturais. Como seja o caso de Jorge Amado, que “uma vez veio à aldeia para a matança do porco”. “Antes de se matar o porco, com tudo preparado para o comer a seguir, o Jorge mandou parar tudo e o porco acabou por ser mais um convidado para o almoço” que, entretanto, acabou por ser improvisado. Outros amigos eram Beatriz Costa e Hermínia Silva, Vieira da Silva, Leitão de Barros e a Amália Rodrigues. A fadista que, pouco antes de morrer, lhe pediu para “fazer uma Nossa Senhora da Conceição”.
Filho de uma família humilde, José Silos Franco nasceu em 1920, numa casa a uns escassos 200 metros da aldeia que viria a erguer, na freguesia de Sobreiro. Começou na arte da olaria aos dez anos, para nunca mais a largar. “Na escola, eu era um dos melhores a desenho e a música. O resto não interessava”, conta.
Da parte dos avós maternos, ambos oleiros, terá herdado esta paixão, já que o pai – sapateiro – era mestre de outras artes. Aos sete anos já acompanhava a mãe, ao lado do burro, que carregava pequenas peças de barro para venderem nas feiras.
As suas primeiras peças resumiam-se a loiça utilitária. Ainda assim, conta, “já fazia coisas diferentes”, o que lhe foi proporcionando a estima de alguns patrões. Dos seus professores destaca os grandes Mestre Elias e Rosa Ramalho. A sua loiça vendia-se bem.
Aos 21 anos, José Franco casou com aquela que seria a sua companheira de vida, Helena Franco. Foi ela a ajudá-lo a tornar realidade o maior sonho da sua vida: construir um museu vivo, na forma de uma aldeia saloia de início de século passado, reproduzindo as artes e os ofícios, os usos e os costumes, a cultura popular das suas gentes. Da união nasceu uma filha; mais tarde, dois netos.
Não tem segredos profissionais. Só talvez um, e bem singelo: “A oração”. Na sua arte, José Franco destaca-se em três estilos artísticos: o sacro, o satírico, e o popular. “É tudo diferente”, garante. Quando trabalha em arte sacra, experimenta sentimentos intensos, “sinto coisas que ultrapassam tudo”. Com a arte satírica farta-se de rir. “Rir faz muito bem, faz desaparecer as rugas”. A nível do estilo popular conhece a fama. “Todos querem um Sto. António meu. Mas é só porque é meu, porque o Santo é tosco.”
BREVE MAPA DA TERRA
A Oficina do Sapateiro e o Barbeiro-Dentista: Por entre as ruas da aldeia encontram-se todos os espaços comerciais, mas também sociais, que serviam os seus habitantes na primeira metade do sécúlo passado. No interior de cada um estão expostos valiosos espólios de objectos e instrumentos da época, constituindo um enorme museu de incalculável valor. Por entre as diversas recriações destes espaços podemos encontrar a “Oficina do Sapateiro” ou o Barbeiro que, à época, era o mesmo a fazer as vezes do Dentista.
A Casinha do Moleiro: Os Moinhos de Vento, a Eira, o Forno e o Poço: Uma das principais referências arquitectónicas desta zona saloia são os moinhos de vento. Uns maiores, outros mais pequenos, movidos a vento ou a electricidade, estão um pouco por todos os inúmeros recantos deste espaço. Na eira separava-se o joio do trigo, e o milho era debulhado. O forno, onde depois de amassada, a farinha cozida dava lugar ao pão. Muito perto, a “Casinha do Moleiro” e o poço.
A Capela de Sto. António: Na encruzilhada das ruas pode, também, encontrar-se a “Capela de Sto. António”, ou não fosse esta uma aldeia portuguesa com certeza. Na capelinha, por entre figuras de arte sacra, há uma caixa de esmolas cujo produto não reverte em proveito próprio mas em benefício das crianças deficientes e pessoas necessitadas.
O Açougue, a Casinha do Carpinteiro e a Oficina do Ferreiro: Rua abaixo, o “Açougue”. Lá dentro, uma balança imensa pesa os fumados nos seus pratos de metal bem areado. Ao lado, a “Casinha do Carpinteiro”. Martelos, serras, polainas, grosas e tornos, entre outras, são as ferramentas expostas. O Vizinho é o “Ferreiro”.
O Porto de Pesca da Ericeira: Dentro de uma parede, e por detrás de uma rede de ferro, uma réplica animada do antigo porto de pesca da Ericeira dos fins do séc. passado. Com um premir de botão, todo o cenário ganha vida: as traineiras e os botes agitam-se no mar, iluminam-se as casas no cimo da rampa, giram as velas dos moinhos, acende-se o farol.
A Padaria: Em direcção ao terreiro do castelo, passamos pela padaria. De entre diversas especialidades, como as Madalenas ou as filhós à moda saloia, feitas ali mesmo, o que mais saída tem, pela fama granjeada, é o pão com chouriço assado.
Os Estábulos e a Pocilga: A “Casa da Burrinha” e a Pocilga, ou, como se pode ler na placa à porta, a “Casinha do Porco”. Ao lado, a do fiel amigo e companheiro das lides de trabalho. O cão, claro está.
A Escola Primária: A “Escola Primária” é, talvez, o espaço percorrido com mais curiosidade pelos mais novos e pelos contemporâneos daquela época.
A Aldeiazinha mecânica: O ex-líbris da Aldeia Saloia de José Franco: a “Aldeiazinha”. É um modelo animado de uma aldeia, que se estende por mais de 30 m2. É um cenário em jeito de presépio.
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