Vénus morena da novela cliché de Vendrell

J.P. Simões, de fatiota azul e pinta de ‘marmanjo’ dos anos 70, embala o baile de máscaras. A primeira cena deixa antever o espírito do filme, ‘Pele’, a terceira longa-metragem de Fernando Vendrell que, depois de se mostrar no IndieLisboa, na passada quarta-feira, chega às salas de cinema na próxima quinta-feira, dia 4.

30 de abril de 2006 às 00:00
Vénus morena da novela cliché de Vendrell Foto: d.r.
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No salão embalam-se as cores, todas, mesmo as mais escuras, do tom de ‘Pele’ de Daniela Costa, a protagonista desconhecida, escondida por trás de uma máscara que lhe oculta os traços mestiços… diferentes. Como ‘Pele’. A diferença começa na banda sonora – muito boa – que percorre a película enquadrada em planos abertos, fotografias vivas que fazem saltar para a frente o nome do director de fotografia, o italiano Mario Masini.

“Um filme é um trabalho de equipa”, confirma o realizador, que sublinha a relevância de intervenientes como os Hipnótica e da dupla J. P. Simões (ex-Belle Chase Hotel) e Sérgio Costa na mestria musical da película. E na excelência do guarda-roupa, do argumento, da maquilhagem… “O J.P. é um génio da música portuguesa. O Masini é um técnico de excelência, dá um look muito setenta ao filme.” E por aí fora. Sem esquecer os actores. “Dei mais espaço aos actores e não estou nada arrependido por isso”, conta Vendrell, que confessa ser precisamente a ‘prisão’ imposta à representação pelo cinema tradicional português um dos grandes ‘entraves’ à maior qualidade dos produtos nacionais.

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“Há um grande receio em deixar controlar muito a representação em função da câmara, sem deixar fluir a narrativa, a história, a energia dos actores”, explica. Mas, neste caso, talvez a liberdade tenha sido em excesso e o espectador talvez sinta que há espaço a mais e uma direcção de actores em autogestão.

O elenco é de luxo, convivem em harmonia as gerações jovem e veterana, mas fica aquela sensação de que a câmara, tantas vezes tão bem posicionada, devia ‘falar’ mais. Vendrell dá espaço aos actores, nota positiva, mas com esta opção retrai a câmara, e o espectador fica em suspenso, sempre na ânsia de que esta se liberte.

Talvez por isso, alguns planos fazem ainda lembrar o rótulo ’cliché’ a cada nova fita de assinatura nacional: “É um filme português.” Ou, pelo menos, tem vários momentos ‘à la portuguesa’, nos quais a acção parece que não flui ao compasso de arranque, que se engasga depois de ter disparado… ‘Pele’ tem rasgos de modernidade, intensidade e até genialidade. Mas, por vezes, perde ritmo, força.

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Ainda assim, à protagonista, a “Vénus morena” de Vendrell (Daniela Costa), pedir-se-ia o contrário: que se soltasse mais, que explorasse ao extremo os seus dramas pessoais, apesar do salto da menina mimada da alta sociedade lisboeta da década de 70 até à rebelde mestiça que se resigna a aceitar as origens escondidas (a ascendência africana, de uma mãe desconhecida e amor fortuito de um pai 20 anos ausente).

Ainda que se diga independente, Vendrell assume que ‘Pele’ “é muito comercial, é perverso até”, brinca. “Este filme aproxima-se muito do público que vai ao cinema: os jovens que procuram o caminho do futuro, que lidam com problemas de inconformismo, da rejeição da família, da busca da liberdade. De certa forma, “é como uma telenovela. O filme é quase todo um ‘cliché’”, frisa.

Com ‘Pele’, inspirado no romance de Henrique Galvão, Vendrell termina um ciclo, no qual foi beber inspiração a África. Lisboeta de ‘gema’, o realizador admite uma ligação de pele com o continente negro. Um ‘amor’ extremo por laços familiares, viagens de sangue. “Em minha casa era tudo muito exótico, a decoração, as comidas, as visitas. A minha descoberta da adolescência fez-se com a leitura de obras do Júlio Verne e de Jack Landon e nunca imaginei um Portugal confinado a este quadrado. Exaspera-me que as pessoas se satisfaçam com o País deste tamanho. Por isso, a minha pátria é a língua portuguesa, diz ele, que filmou já em Cabo Verde, Moçambique. Por cá, neste quadradinho que se quer maior, os problemas são os de sempre. “Confronto-me com os mesmos problemas: conseguir que os meus filmes sejam vistos, que sejam financiados… o problema é do País. Nós não nos temos a nós próprios em conta, estamos muito no papel da Olga. Por isso me interessam personagens que vão para além dos seus limites.”

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Título: 'Pele'

Género: Drama

Realização: Fernando Vendrell

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Actores: Daniela Costa, Francisco Nascimento, Fernanda Lapa e Manuel Wiborg

Classificação: 3 estrelas

Aprecia a década de setenta e todos os ambientes ‘pop’ da época. E ainda se lhe interessam histórias de conflito racial e marginalização social...

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A NOVA DIVA DE VENDRELL

Aos 26 anos, Daniela Costa salta para as luzes da ribalta com o seu primeiro papel de protagonista. A ‘Olga’ africanizada da trama de Fernando Vendrell fez os seus estudos de representação na Escola Profissional de Teatro de Cascais, sob a direcção de Carlos Avilez e, ainda na escola, experimentou os palcos.

Seguiram-se breves participações em produções televisivas (novela ‘Senhora das Águas’ e a série histórica ‘Bocage’, ambas na RTP1) e cinematográficas (‘As Bodas de Deus’, de João César Monteiro) antes do salto de leão. Na vida real, tal como a menina mimada da elite lisboeta dos anos 70, também Daniela sabe dançar, como se comprova em ‘Même – Mesmo Aqui ao Pé’, um espectáculo de dança para crianças, com coreografia de Rui Lopes Graça.

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UM REALIZADOR INDEPENDENTE

É realizador e produtor. Depois de ‘Fintar o Destino’, filmado em Cabo Verde e de ‘O Gotejar da Luz’, realizado em Moçambique, chegou a vez de ‘Pele’. Mas Fernando Vendrell não concebe a realização sem a produção. Por isso, em 1992, criou a David & Golias e aposta também em cineastas diversos.

Esteve no Festival de Sundance, foi ‘producers on the move’ em Cannes, tem em permanência projectos para aprovação, bate-se por eles no ICAM e garante não desistir. Agora, está a criar uma empresa para produzir DVD – o Bosque Secreto.

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Dá e faz pelo cinema aquilo que diz que quem devia não faz. “Este sector do audiovisual é imparável. Sinto-me frustrado que o poder político em Portugal, as televisões, o ICAM (Instituto de Cinema, Audiovisual e Multimédia) não tenham visão estratégica para ver quão importante e decisivo seria o investimento neste sector.”

Mesmo assim ele nã desiste deste sonho. Ainda bem para nós que enquanto espectadores gostamos, apesar de tudo, de ver histórias contadas em português.

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