X-Files Zeinal Bava: Um executivo sem rede nenhuma

Foi sempre a subir, até cair aos 50 anos na justiça e na confiança daqueles que foram seus amigos e colaboradores

24 de julho de 2016 às 15:00
Foto: Pedro Zenkl
Partilhar

O primeiro da família Bava a tirar um curso universitário mora no último andar de um prédio localizado em frente ao Museu de Arte Antiga, em Lisboa. Vista magnífica, garantem olhos que estiveram na varanda imensa. O intuito dos procuradores e inspectores, que procederam às buscas na residência do antigo CEO da PT, estava desconexo desse cenário. Foram as acoplagens financeiras da ‘Operação Marquês’ que obrigaram a autoridade competente a revistar um apartamento de luxo e moderno, mobilado com raridades.

José Sócrates e Zeinal Bava e, já agora Lula da Silva, comungam afinidades. E não nos referimos à jardinagem, porque esse hobbie, ao que sabemos, só atrai Zeinal Bava. Fonte próxima avisa baixinho: o empresário condecorado por Cavaco Silva com a Ordem do Mérito Comercial não é flor que se cheire. É um homem de pormenores. Não lhe escapa sequer um átomo. Por ser detentor de uma memória extraordinária, estranhou-se o repentino, e atlético, ataque de amnésia que teve na Comissão de Inquérito.

Pub

Na sua preciosa colecção de arte incluem-se vários quadros de José Malhoa. Não gosta de guiar e a carta de condução tirou-a há talvez 10 anos. O motorista, o senhor Monteiro, nunca representou um luxo. Pragmático, determinado, metódico, organizado e com os seus objectivos alcançados, não obstante a mó em que se encontra. Dominador, controlava o poder mantendo a descendência de políticos e influentes: "O filho de Jorge Sampaio, o filho de António Guterres, o filho de Marcelo Rebelo de Sousa, a filha de Edite Estrela, etc. Até o filho de Otelo Saraiva de Carvalho. Ena, tantos filhos". Ambição é substantivo que nunca lhe faltou. E foi exactamente a consequência da ganância que inumou a sua reputação. É isso que o baptiza de maquiavélico. Diz-se que é duro, aliás, muitíssimo duro no trato. Tem a fama de ser implacável com aquele que falha e não faz o trabalho de casa antes de uma reunião importante. Senhor de um feitio "esquisito", como assegura um antigo colaborador. E que se entenda o temperamento bizarro da seguinte óptica: Zeinal Bava não mede os meios para atingir os fins e é alguém que não tem sentimentos; tem alvos. Mais queixas chegam de outra via: "Eu dei-lhe a mão e ele comeu-a."

SEMPRE A SUBIR

Ainda assim, ninguém, nem o inimigo maior, é capaz de lhe negar competência e inteligência. Permitia o erro. Uma vez, ou talvez duas, dependendo da mostarda que lhe ia chegando ao nariz, embora não admitisse a mesma falha na mesma pessoa.

Pub

Mas se quisesse ocupar o lugar de uma pessoa, conseguia-o sem precisar de demonstrar tal desejo: "Ia dizendo umas coisas, indirectas, claro". E, quando o poder atracou à sua beira, directamente não despediu ninguém. Arranjava maneira de que outros o fizessem. Podia dar liberdade às tantas equipas que liderou, e podia parecer ser "cool" e fantástico, sem pastas e com mochilas, com pauzinhos de sushi a orquestrar almoços rápidos no escritório, da fama de centralizador não se livra. Dispunha de discurso fácil e convincente, um registo tranquilo e espontâneo, seguido de meneios que simplificavam o entendimento e o passo da mensagem, perfilhando um porte informal. Cultivava a cultura do mérito. Difundia a vénia à ética. Espelhava rigor. Isso acabou ou nunca existiu; a decepção sem fim vem de um ex-assessor: "Tudo foi por água abaixo. Se o encontrar na rua ou troco de passeio ou ignoro-o". No caso de Zeinal Bava o cumprimentar, fica-se desde já a saber: "Ele ficará com a mão no ar".

O nojo vive nas luvas assumidas por Ricardo Salgado perante o Tribunal Central de Instrução Criminal: foi ele, Ricardo Salgado, o coveiro do BES, quem ordenou a transferência de 18,5 milhões para uma conta no estrangeiro, e particular de Zeinal Bava, a partir de uma conta da Espírito Santo Enterprises – a empresa sem actividade e sem receitas próprias que é catalogada pelas autoridades como "saco azul".

As explicações de Bava, que confirmou as duas transferências financeiras que totalizam o referido montante, feitas pela sociedade offshore ESSE, com sede nas Ilhas Virgens Britânicas, destoam das explicações de Salgado. O ex-presidente do BES, em Julho de 2014, fundamentou ao tribunal os pagamentos como sendo uma compensação extra para atrair Zeinal Bava e a equipa escolhida para reestruturar a Oi. O propósito seria tentar impedir que os quadros da PT optassem pela concorrência e que Carlos Slim, o manda-chuva mexicano das telecomunicações, contrata-se o próprio Bava.

Pub

Ricardo Salgado, em tempo algum, menciona financiamento do GES para a compra de acções da PT e vai mais longe: a ideia das transferências partiu de Zeinal Bava. Por sua vez, Bava acrescenta que aceitou esta importância devido a uma "alocação fiduciária contratualizada e afectada a uma finalidade que não veio a ser concretizada, pelo que o capital e juros, tal como previsto no contrato, foram integralmente devolvidos". Devolveu os tais milhões mais tarde, e não em 2014, escudando-se na derrocada do BES. Desconhece-se o valor que Bava auferiu nos anos na PT, com acções das empresas que geriu.   

BRASIL

No Rio de Janeiro, durante o seu curto reinado na Oi, mal ali chegou, a poupança viu-se no improvável. Os caixotes do lixo individuais acabaram. Não é assunto romântico, mas da cidade maravilhosa aterra o recado: "A qualidade do papel higiénico baixou". E separado do assunto anterior, o sotaque carioca continua: "Muitos portugueses vieram com Zeinal Bava".

Pub

O Brasil para a família Bava significava uma espécie de segunda pátria. As férias da Páscoa eram, e continuam a ser, passadas na praia do Forte, a preferida de Zeinal Bava para surfar. O surf começou pela brincadeira de acompanhar os filhos. Em Salvador da Bahia, a água é quentinha, ao contrário de Sesimbra, onde a família da mulher, filha de um construtor civil da zona, é dona de uma moradia.

Zeinal Abedin Mohamed Bava, muçulmano sunita, casado com Fátima Braz, católica, com três filhos que estudaram no colégio Salesiano, em Lisboa, frequenta a mesquita no Bairro Azul. Nascido na capital de Moçambique, em 1965, no dia 18 de Novembro, após 10 anos chegava a Lisboa com os pais e a irmã. Retornados, como tantos e tantos, a geração de comerciantes abriu uma pequena fábrica de mobiliário. Inscrito no Colégio Camões, a probabilidade de descer um nível da escolaridade deixa-o inconformado. Pede para estudar na St. Julian’s, em Carcavelos. Os pais fazem-lhe a vontade. E mais lhe fazem: aos 14 anos, vai para o Concord College, um colégio interno na Inglaterra.

Acabado o liceu, quis ser médico, mas a medicina não lhe traria a entrada instantânea no mercado de trabalho. Aconselhado por um professor, opta pela Engenharia Electrónica e Electrotécnica, na University College London. Não lhe agrada o primeiro emprego, na Arthur Andersen, onde também andou Nuno Vasconcellos da quase defunta Ongoing.

Pub

Abdool Vakil, a pedido de um familiar de Zeinal Bava, abre-lhe o caminho, dando-lhe emprego na Banca, através do Efisa, à época ainda agência de investimento. Segue para outros destinos profissionais. Chegou à PT em 1999, pela mão de Eduardo Martins, que, em 2001, larga a empresa. Zangado. Outros zangar-se-ão. José Bau deixa a presidência da TVCabo para ser substituído por Zeinal Bava. Iriarte Esteves presidia a TMN e viu no seu lugar Zeinal Bava. Pois é, bebé, ironiza quem conhece a história: "Não se zangaram mais porque a reforma milionária que levaram para casa não deu para isso". Euros, aos milhões, nunca faltou na Portugal Telecom. Viagens a Nova Iorque, com tudo e mais alguma coisa pago, serviam de estímulo. Bónus materializados em milhares. A ascensão no universo do operador de telecomunicações parecia que não disponha de travões, mas teve. O facto de dizer e, inclusive, jurar, que desconhecia as aplicações financeiras de 897 milhões de euros na Rioforte, não lhe limpa o fato.

No raiar de Julho, o regulador brasileiro do mercado de capitais sambou da seguinte feição: instaurou dois processos administrativos arrolados com a operação de fusão comunicada em 2013 entre a Oi e a então Portugal Telecom, liderada, na altura, pelo homem, que teve tantos amigos e protegidos e, agora, não lhe restou sequer um para falar em "on".

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar