Apesar dos avanços científicos que permitiram às mulheres terem menos dores durante o parto, há ainda quem prefira fazê-lo sem recorrer a fármacos. A bem da saúde dos bebés e da humanização dos partos, dizem estas mães
Ao longo de séculos a sabedoria do povo sintetizou, no adágio popular, a ideia que vigorou durante muito tempo. 'Não há parto sem dor.' As estatísticas de 2006 provam exactamente o contrário, isto é, que uma em cada três mulheres dispensa bem sofrer na altura de dar à luz, preferindo a cesariana. No entanto, existe ainda uma minoria de resistentes que concebe o parto como 'natural', ou seja, rejeitando tudo o que sejam fármacos. Uma experiência que classificam de muito dolorosa, mas que defendem como 'mais saudável' e um marco que reforça o sentimento de maternidade.
Tal como há pouco tempo veio defender a presidente da Associação Portuguesa de Bioética, Micaela Oven, gestora de recursos humanos do IKEA em Matosinhos, há seis anos em Portugal, pensa que deve ser a mulher a escolher o tipo de parto que deseja. Queixa-se, todavia, da falta de informação ao longo da gravidez, de que nas consultas pré-natais não se fornece informação sobre os diversos tipos de parto.
O nascimento da primeira filha ocorreu com o recurso a 'epidural, ocitocina.' Uma experiência sem mácula, mas que não a deixou plenamente feliz.
'Fui muito bem tratada por toda a gente, mas não tive controlo nenhum sobre o que se estava a passar e quis, no nascimento do Erik, tomar o comando do que se passaria com o meu corpo', confessa Micaela. A vontade de dominar foi a força motriz da decisão e o resultado não deixou dúvidas.
'Foi uma experiência espiritual em que obtive uma ligação mais profunda com o meu corpo. Sinto que tenho muito mais recordações', revela.
Micaela percorreu um longo caminho até optar pelo parto natural. Para suportar as dores, que sabia que iam ser fortíssimas, procurou uma solução. 'Através da hipnose obtive o relaxamento e a descontracção necessárias. É uma técnica com a qual aprendemos a controlarmo-nos e a relaxar, o que é fundamental para suportar a dor', diz a sueca. A mesma defende que ficou adepta deste tipo de parto.
'Tive dores, mas já nem me lembro delas. Há uma diferença entre achar que vai doer ou não. Somos o único animal que faz um grande filme sobre o parto', sentencia.
Micaela foi uma das quinze mulheres que no ano passado recorreram ao Bloco de Partos do Hospital de S. João, no Porto, para fazer um parto natural. A introdução deste método teve como principal dinamizadora a enfermeira Elisa Santos, que, após longos anos de experiência na área, pensa que 'clísteres e a tricotomia [raspagem dos pêlos]' são opções a evitar.
'Gosto de falar com as mulheres previamente. Preciso de perceber por que é que querem um parto natural. É importante para perceber se tem estofo para aguentar a dor', adiantou a enfermeira Elisa. Isto porque, segundo o que as mulheres que ajuda lhe contam, durante o parto experimentam uma 'sensação de morte, a dor é de tal maneira forte que são confrontadas com a sua finitude.'
A enfermeira pensa que actualmente existe uma desumanização dos partos. 'A epidural por si só não garante que não haverá dor, há aliás mulheres que sentiram tudo na mesma. Também o catéter é uma manobra invasiva e a aplicação de uma ventosa pode ser dolorosa para o bebé e para a mãe', adianta Elisa Santos.
Lúcia Loureiro, 31 anos, de Amares, Braga, é uma apaixonada pela maternidade e sempre a atraiu dar à luz fora do hospital. 'Aprendi que era possível dar a luz sem toda a intervenção hospitalar. Não gosto muito de hospitais e penso que temos capacidade de ser mães sem toda essa parafernália. Não percebo porque é que todos acham normal levar a epidural', remata.
Começou por fazer um curso de doula (uma mãe para a mãe, ou seja, uma mulher que ajuda a ter o filho mas que não tem conhecimentos médicos) e, posteriormente, através de uma parteira que fazia partos naturais, tomou a decisão. Lúcia queixa-se da falta de informação para as grávidas e alerta para outro tipo de interesses. 'É verdade que é muita dor. Mas acho que está ligado à forma como a nossa sociedade tem demasiado medo da dor. Há muitos interesses económicos por detrás da epidural e as farmacêuticas querem fazer negócio', atira.
Foi no Irão que Shiva, agora casada com um português, começou a fazer partos. Sempre a fascinou o parto natural, mas tinha de experimentar. 'Fiquei muito satisfeita e consegui fazer muitas coisas para controlar a dor. Deixaram-me andar e fizeram-me massagens para aliviar as dores lombares e abdominais. Fiz exercícios com a bola de Pilates e coloquei-me em posições laterais. Pude também beber água, o que foi muito importante', relata. A preparação para a maternidade foi longa, mas valiosa. 'Tive aulas para o parto, vinte e oito sessões, em que me ensinaram a fazer a respiração, o que ajuda bastante. Assim, pensei primeiro na respiração, o bebé teve mais oxigénio e permitiu diminuir a dor', adianta Shiva Reis.
PRESENÇA DA FAMÍLIA HUMANIZA O PARTO
Shiva Reis, ex-parteira no Irão, define-se como uma mulher de personalidade, dotada de bastante força interior e com curiosidade sobre tudo o que tenha a ver com maternidade. Na sua experiência com o parto natural, afirma que foi fundamental poder contar com a presença do marido e da mãe durante o nascimento de Daniel. “Deixaram o meu marido e a minha mãe estarem presentes, o que foi muito importante. O facto de ter comigo uma pessoa de sexo diferente foi fundamental. Sentia-me psicologicamente muito confortável”, revela. Segundo afirma, para além de ser mais saudável, esta iraniana encontra ainda outra vantagem. “Economicamente é melhor para o País, porque se gasta muito dinheiro em medicamentos e o valor que se paga pelo anestesista é muito alto”, argumenta. No entanto, as dores intensas durante o parto levam, não poucas vezes, a ponderar a desistência. “Nessa parte é importante todo o apoio. Sentia que não tinha forças. Se estivesse sem o meu marido e a minha mãe talvez não tivesse forças. Formámos um triângulo que me ajudou muito”, sustenta.
QUINZE HORAS DE TRABALHO DE PARTO
Apesar das longas e dolorosas quinze horas de trabalho de parto para que a pequena Lia viesse ao Mundo, Lúcia Loureiro não imagina ter um filho de outra maneira que não seja através do parto natural. 'Tem a ver com os efeitos da epidural e com os fármacos usados durante o parto, que podem dificultar a amamentação, influenciando, a nível biológico, a formação do leite', diz. Lúcia até pretendia ter o filho em casa, mas não quis correr riscos e recorreu ao Hospital de S. João, no Porto.
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