Fomos aos bastidores do espetáculo que Lisboa recebe em janeiro. A digressão do melhor circo do mundo estava em Genebra
'Dralion' significa, na língua inventada do Cirque du Soleil, a união do ‘dragão' com o ‘leão', um espetáculo que homenageia a cultura ancestral do Oriente e o seu encontro com o Ocidente. Em palco, diversos atos integram excertos de uma viagem pelo Mundo, desde os clássicos palhaços da América, os coloridos dançarinos de África, aos perfeitos acrobatas da Ásia. E o resultado é mais uma aventura da companhia criada em 1984 por dois artistas de rua canadianos e que nestes 39 anos atingiu o estatuto de melhor circo do Mundo.
‘Dralion' chega a Lisboa em janeiro, depois de ter passado por vários países. Criado em 1999, o show foi adaptado para a digressão de arena no ano seguinte e desde então tem evoluído, pois rodar quadros, artistas e ideias é um lema desta companhia.
A Domingo assistiu em Genebra (Suíça), cidade multicultural por excelência, ao espetáculo que reúne uma verdadeira Torre de Babel. Se na plateia as várias línguas faladas por emigrantes e funcionários das Nações Unidas apelavam à globalização, a equipa do circo não ficava atrás. Em palco, ‘Dralion' junta 15 nacionalidades, uma trupe chinesa de 25 elementos, e espreita os movimentos urbanos, ilustrando o festim visual, cheio de cor e fantasia, com música étnica e um apelo aos sentidos.
No palco circular da Arena, a viagem faz-se com a cor dos quatro elementos - fogo (vermelho), água (verde), terra (ocre) e ar (azul) -, que ganham formas humanas e números arriscados. Numa enorme parede instalada em cena, atletas do Japão, da China, Ucrânia, Bielorrússia, Rússia e Espanha desafiam a força da gravidade com passadas largas e saltos no ar. Num ‘pas de deux' aéreo, um casal de acrobatas, envolto em seda azul, exibe um número que corta a respiração, mesclando o risco das alturas com a delicadeza da dança. E entre contorcionismos exigentes e jogos de diablo, os artistas chineses constroem uma pirâmide humana ao mesmo tempo que saltam à corda.
NOVA LINGUAGEM
Em cada cidade onde pára, ‘Dralion' obriga a montar uma estrutura de 166 mil quilos, dos quais 43 mil são de equipamento preso ao teto. É dali que saem cabos, véus e um efeito que recria as famosas lanternas chinesas. Mark Shaub, diretor artístico, explica à Domingo que ‘Dralion' "junta a arte milenar do Oriente com a tradição do Cirque du Soleil de fazer um aproximação multidisciplinar e multimédia ao circo, desenvolvendo um visual próprio, graças ao jogo de luzes e guarda-roupa únicos". Desta vez, "temos artistas chineses que se juntam ao restante elenco. E todos trabalham para fazer um bom espetáculo. O que importa neste conceito é que os artistas trazem o seu passado, encontram-se aqui e desenvolvem um show".
ARTISTAS E ATLETAS
A par de artistas de rua e outros do circo tradicional, o Cirque du Soleil integra também antigos atletas de competição. "Para eles", diz Mark Shaub, "é uma oportunidade de continuarem a carreira e ganhar dinheiro mesmo quando superada a idade de competir". O desafio é depois introduzir a coreografia na atuação. "Mantêm o treino de atletas, mas têm de se formar como artistas e, como em tudo na vida, uns têm naturalmente mais habilidade do que outros", diz.
Jonathan Morin, que em palco gira numa roda gigante, foi atleta até aos 20 anos, quando passou a integrar o circo canadiano. Hoje, aos 35, já se considera mais artista, pois "à técnica" soma agora a obrigação de "levar emoções ao palco, tocar o público". Garante que "lutar por um lugar no pódio" ou por "um aplauso do público" são estágios incomparáveis. "Nem sequer é o mesmo estado de espírito. Um atleta que compete pelas medalhas sabe que não há margem para o erro, pois o juiz coloca logo uma marca. Para um artista, a perfeição é a sua capacidade de manejar o erro, porque o erro acontece e temos de ter a certeza de que o superamos e continuamos em palco sem que o público se aperceba."
Certo é que integrar o Cirque du Soleil é também assumir um estilo de vida. Jonathan vive no circo com a namorada, Marie-Eve Bisson. Partilham quartos de hotel e refeições em conjunto com a trupe, pois em digressão todos comem na cozinha local - onde diariamente são preparada mais de 200 refeições recomendadas por nutricionistas. Vladimir Pestov, malabarista russo de 19 anos, cresceu no Cirque du Soleil, ao lado dos pais, que integraram o espetáculo ‘Quidam'. Tara Katherine Pandiya, 21 anos, dançarina que representa a Deusa do Oceano, adora o circo, mas sente a falta da família, residente em São Francisco (EUA): "Fico 21 semanas fora de casa." Candy, 25 anos, adotou um nome ocidental para se integrar na trupe. Nasceu na China, juntou-se ao Cirque du Soleil em 2010, parou devido a uma lesão e voltou para ‘Dralion'. "Comecei na acrobacia aos oito anos e gosto muito do que faço", diz num inglês hesitante, a língua oficial da companhia. Define o circo como "um espaço fantástico". "Adoro o palco, dá-nos poder. Exige mais concentração estar a fazer um espetáculo para o público, mas ele dá-nos muita energia."
Mark Shaub admite que é essa entrega constante que explica o êxito. "O Cirque du Soleil é muito bem sucedido porque tem capacidade para recriar e definir o que é o circo moderno. O que vemos em ‘Dralion' são coisas que as pessoas gostam de fazer, como saltar à corda, jogar com o diablo, andar numa parede, mas aqui levadas ao extremo. Somos visionários e influenciamos outras formas de entretenimento. Vemos acrobatas nos espetáculos da Broadway e da Madonna."
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