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A doce mania dos pacotinhos de açúcar

Há quem preserve gestos simples: agitar o pacote de açúcar, abri-lo e esvaziar. Depois, mais nada. Para os periglicófilos o ritual não se esgota logo. Como todos os coleccionadores, guardam-nos para arquivar ou para a troca.

01 de fevereiro de 2009 às 00:00

A bisavó tira o x-acto da carteira e, ainda sentada numa mesa do café, corta cirurgicamente o pacote de açúcar para o esvaziar. Entrega-o a Miguel Menor, 14 anos, que em casa o vai arquivar no dossiê. O bisneto é periglicófilo... é coleccionador.

O cabelo encaracolado de Miguel vai deslizando pela testa. Aumenta-lhe ainda mais a timidez. Diz que sente a falta do bisavô, falecido há três anos. Mas o que de mais especial herdou, cultiva com um dos poucos sorrisos que esboça: a colecção de pacotes de açúcar, que já vai em 4507. 'Os medievais são os meus preferidos', diz, enquanto desliza suavemente as páginas do seu arquivo. Contempla-os uma vez mais. Esta é uma série de pacotinhos de Castro Marim. Mas há outras que o alegram particularmente. Tem a colecção completa dos jogadores do Benfica (a sua equipa), de 2005. Os portistas também estão lá todos; do Sporting falta um.

Para um adolescente que ainda não bebe café, as contribuições da família e dos amigos são vitais. 'É uma colecção gira e que nunca acaba', explica Miguel a razão pela qual, desde miúdo, se fascina por este hobbie. E até aqui a globalização se faz sentir. 'Um amigo disse-me que, agora, quando for a França me traz pacotes.' O mercado internacional é tão fascinante como o nosso.

No imaginário do aluno do 7.º ano, que quer crescer piloto da Força Aérea, ainda só pôde olhar para um veloz F16, ou um helicóptero Puma, em fotografia nos pacotinhos. Mas já sonhou que lá dentro, em vez de açúcar, estaria a voar o piloto Miguel.

Conclusões precipitadas diriam que o caso do Miguel é único. Mas não. Segundo a presidente do Clube Português de Coleccionadores de Pacotes de Açúcar (Clupac), 'há um estudo que parte da premissa que, em cada 100 famílias portuguesas, existe um coleccionador' deste objecto tão comum. Pelas contas de Paula Louro, se há três a quatro pessoas por casa, haverá cerca de 30 mil coleccionadores. Só associados do Clupac são 433: 62% homens e 38% mulheres; um grupo onde a média de idades é de 43 anos.

Paula, de 49 anos, observa o Mundo ao seu redor através de 'um simples e pequeno papel com açúcar dentro. Faz com que uns brinquem com ele, outros utilizam-no para fazer música, outros ainda usam-no para resolver os quebra-cabeças que algumas colecções de pacotes têm... mas, no fim de contas, ninguém fica completamente alheio que foi e continua a ser um óptimo canal publicitário', explica. 'É também através de colecções de pacotes de açúcar que podemos visualizar a evolução do desenho gráfico e do mercado publicitário ao longo do tempo, em Portugal e no estrangeiro.'

Contagiada pelo marido, Paula decidiu ajudar a coleccionar quando foi, em 2002, ao evento que junta coleccionadores, o PortSugar, esse ano realizado no Seixal. 'Nós mulheres, temos a fama – e às vezes o proveito – de usar malas grandes de onde se pode esperar que saia tudo, não é? Pois, quando chegámos ao Seixal, o meu saco (porque era mais tipo saco) ia normalzinho – enfim, para o que é de esperar numa mulher, – mas quando saímos, estava bem carregado. Só com pacotes de açúcar.'

Aqui o objectivo não é comprar nem vender. Troca-se. Embora haja séries de algumas colecções específicas que se vendam. Nos leilões do Sapo ou Ebay, fazem-se negócios que dificilmente ultrapassam os 40-50 cêntimos por unidade. Fala-se que uma raridade – anteriores aos anos 60 – possa valer cerca de 50 euros. Mas quem os dará? Curiosamente, há fabricantes que personalizam os pacotes e os vendem – como é o caso da MySugar, em Aveiro, que imprime, por exemplo, com a fotografia que se queira e uma frase simples, por 35 euros 140 exemplares.

Acresce salientar que, só no ano passado, o Clupac ofereceu 300 kg de açúcar à ASCRA – Associação Social, Cultural e Recreativa de Apúlia. Além do mais, o Clupac promove ainda nas escolas exposições e encontros de sensibilização de jovens e crianças em risco.

Coleccionou de tudo: notas, selos, moedas e calendários de bolso. Rogério Reis até chegou a ter uma banca na Praça da Ribeira, em Lisboa, para promover a troca e o comércio das suas colectas. Até que, já reformado da administração da Polícia Judiciária, rendeu-se à internet em casa e descobriu o passatempo que lhe faltava: periglicofilia.

À semelhança dos outros, tem séries de pacotes da matemática, com dinossauros, das ordens honoríficas, da calçada portuguesa, muitos de futebol e outros tantos com animais. Um sem fim de temas. O filho Paulo ajuda-o a organizar todos em capas de arquivo.

Não falha nenhum encontro de coleccionadores, que se espalham um pouco pelo Porto, no Norte. A Oeste, pelas Caldas da Rainha, Batalha, Tomar. Mas também pelo Barreiro e Castro Marim. 'Confesso que a minha série preferida foi-me enviada pelo próprio presidente da Câmara de Arronches – a terra da minha mulher. São pacotes dedicados ao Museu do Brinquedo', conta.

Rogério anima-se. Fala com encanto do seu tesouro. 'Sou velho, já não sou novo – tem 65 anos – mas no hobbie dos pacotes de açúcar sou novo', brinca. Começou em Maio de 2005. E, como tem experiência nestas coisas, já guarda mais de 5000 diferentes. 'Dizem que é das colecções mais baratas. Não direi que não – embora também gaste algum dinheiro. Para mim, o coleccionismo é trocar, porque se fazem amizades e conhece-se muita gente', remata Rogério, que chega a fazer 500 trocas por ano.

'É engraçado que o nosso médico de família, já de há 30 anos, tem a atenção de me guardar pacotes para quando lá vou.' Até a sua advogada se rendeu ao coleccionismo. Um dia sentaram-se os dois no chão do escritório dela a ver pacotinhos. 'Parecíamos crianças.'

NÃO É DIFÍCIL SER COLLECIONADOR

Não são necessários muitos cuidados para preservar os pacotes de açúcar. Mas um bom coleccionador vê-se pela organização dos seus exemplares. Para isso, o melhor é arquivá-los. A maioria dos periglicófilos esvazia os pacotes. Alguns oferecem o açúcar a instituições, outros consomem-no. Os mais fáceis de encontrar são os que circulam, no momento, pelos cafés, restaurantes, hotéis e supermercados. Os mais raros, depende do coleccionador, são normalmente os mais antigos – anteriores aos anos 60. Mas há quem goste de uma série específica, ou porque fala de fado, provérbios, museus, clubes... de tudo.

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