O guarda-redes alemão Robert Enke cedeu à depressão. Daqui a 20 anos esta será a doença mais comum no mundo. A Domingo ouviu histórias de sofrimento em português.
A notícia caiu como uma bomba na frustração de Cláudia. O futebolista Robert Enke morrera numa linha de comboio, anunciaram os meios de comunicação social. A secretária administrativa, 37 anos, soube logo do que se tratara antes de o suicídio ser confirmado – embora os afastasse a geografia, a língua, todo um mundo de diferenças. Nunca se conheceram. Um sentimento, no entanto, os unia. Um elo escuro. A depressão.
"Não precisei de saber o que estava escrito na carta de despedida do Enke para saber o que ele tinha feito. Quem passou por isto sabe a dor que vai dentro. Senti uma frustração enorme, gostava de ter podido falar com ele, talvez isto não tivesse acontecido. Eu também pensei desistir da psicoterapia, eu também, junto a linhas de comboio, muitas vezes pensei acabar com tudo". Nessas alturas, Cláudia dizia para si própria que "não estou aqui a fazer nada".
A depressão também mata. O psiquiatra Pedro Afonso explica que, enganado pelo desespero, o pensamento suicida ocorre "com frequência nas depressões mais graves. O doente pensa no suicídio como forma de libertação, como um meio para pôr fim ao sofrimento".
SONHOS DESFEITOS
Teresa Enke disse, em conferência de imprensa, uma frase que dificilmente sairá da memória colectiva. "O amor não basta." Para o ex-guarda-redes do Benfica não bastou. Para Cláudia, o amor foi o problema. Ou a angustiante falta dele.
"A primeira crise que tive foi na altura em que me separei, depois de um casamento de ano e meio. Sempre pensei que quando casasse era para a vida. Como os meus pais são separados, aquilo que eles não conseguiram eu queria para mim: o casal unido, os filhos à volta, envelhecer lado a lado". Foi todo um projecto de vida que desmoronou, numa altura em que tentava engravidar. "O Enke perdeu um filho. Eu perdi um sonho". As insónias deram o primeiro sinal de alarme. Perdeu e ganhou peso, em oscilações que lhe transtornaram o corpo. "Não tinha reacções, ficava apática. Às vezes agressiva. Houve uma altura em que vestia o pijama à sexta-feira e só tirava à segunda para ir trabalhar, nem conseguia ir passear o meu cão".
Já estava no fundo, num poço sem fundo, quando encontrou ajuda na Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, que presta apoio, a vários níveis, a estes doentes. Aprendeu a levantar-se mas teve uma recaída. Passaram quase dez anos desde a primeira depressão. Deixou de ver a vida "como um conto de fadas" mas reaprendeu a acreditar.
Uma em cada quatro pessoas em todo o Mundo sofre, sofreu ou vai sofrer de depressão, adverte a Organização Mundial de Saúde. Procurar ajuda é fundamental. A psicóloga clínica Madalena Lobo considera que os doentes pedem apoio "numa situação de desespero que vem da percepção de impotência. A depressão cobra uma factura muito elevada na vida de qualquer pessoa: falta de prazer e vontade para actividades que antes lhe eram comuns, a sensação de peso e a falta de esperança relativamente ao futuro". A depressão, na maioria das vezes, tem na sua origem causas mistas: factores externos (acontecimentos da vida) e internos (alterações biológicas). Há pessoas, explica Pedro Afonso, que por razões hereditárias têm mais factores de risco. Outras pela sua personalidade – como traços melancólicos ou baixa tolerância à frustração.
PROBLEMAS NO EMPREGO
António Rodrigues, de 60 anos, percebeu num consultório a razão para frequentemente cair em estado depressivo. "Há características da minha personalidade que me fazem bloquear perante as situações mais difíceis". Foi há uma década a primeira depressão por que passou, depois de um problema no emprego.
"Uma colega com quem tinha tido um desentendimento começou a estragar-me a vida, a entrar no meu computador, tão subtilmente que ninguém percebia. Comecei aí a não querer ir trabalhar, não queria sair da cama de manhã, sentia uma ansiedade muito grande e um nó imenso. Perdi amizades, deixei de jogar ténis de mesa, de estar com pessoas, de ouvir música. Sentia-me inseguro e sem chão."
O rol de antidepressivos e ansiolíticos que tomou ajudaram-no a encontrar mais paz mas foi fundamental o apoio psiquiátrico. O que não invalidou que à primeira depressão se tenham seguido mais. Por demais dramas no emprego, alguns problemas afectivos, lutos difíceis de chorar. Na pior crise esteve cinco semanas internado mas os últimos progressos dão-lhe motivos de orgulho. "Estou a fazer o desmame dos medicamentos".
A necessidade de mudar é uma constante entre as pessoas que sofrem de depressão. Pedro (nome fictício) acha que só consegue descansar quando se reformar. Pedro não pode ficar sozinho quando se sente mais deprimido. Só que ele já se esqueceu do que é sair com os amigos, beber uns copos e jogar conversa fora, rir e fazer rir. Ele gosta é do silêncio, mesmo que lhe venham à cabeça maus pensamentos. Desde Setembro de 2008 que este agente da PSP (em casa por baixa psiquiátrica) já pensou por duas vezes em pegar numa pistola e matar os médicos da Junta Superior da Polícia (que recusa reformá-lo por invalidez) e de "descarregar uma arma" em alguns colegas de comando da Polícia, em Lisboa.
Só os internamentos na ala psiquiátrica do Hospital da Estrela o acalmaram. O corpo de Pedro, 53 anos, treme como se tivesse medo até de pensar. As palavras enrolam-se-lhe na língua e, muitas vezes embargadas pela amargura, são sempre de revolta. Queixa-se de que entre 83 e 95 as suas chefias no Comando da PSP de Setúbal o perseguiam. Empurravam-no para fora da estrutura da Polícia. "Acusavam-me de ser daquelas pessoas que falam de mais. Só que a verdade é que eu não engulo sapos, não aceito injustiças." Ainda em 1983, tentou o suicídio. O divórcio da mulher amada derrubou-o. E este misto de sentimentos quase o obrigou a tomar uma caixa inteira de comprimidos tipo Valium.
Desde os primeiros sintomas, o polícia procurou um psiquiatra. Quando começou a perder tolerância, a perder a calma e a gritar facilmente. Mas reforça que nunca bateu em ninguém. Mudou para o Comando da PSP de Lisboa, só que psicologicamente não reagia. "A minha revolta é tanta que mal entro na Polícia ou visto a farda fico completamente suado. Se me reformassem, conseguia ter uma vida normal". Só não cometeu ainda uma asneira porque foi sempre apoiado pela mulher (terceiro casamento), pelo psicólogo e pelo psiquiatra disponibilizados pela Polícia. "Eu até lhes digo que não sei como é que não há mais mortes na PSP!"
"PODE HAVER TRISTEZA SEM DEPRESSÃO E VICE-VERSA" (Pedro Afonso, psiquiatra e autor, entre outros livros, do trabalho ‘Será Depressão ou Simplesmente Tristeza...?’)
- Os sintomas de tristeza ou de depressão são idênticos?
- Pode haver tristeza sem depressão e vice-versa. Quando perdemos alguém que nos é próximo ficarmos tristes é um sentimento normal e não podemos afirmar ‘de per si’ que se trata de uma depressão. Por outro lado, existem formas de depressão em que a tristeza não está evidente. Por exemplo, no caso da ‘depressão mascarada’ – nestas situações a depressão é vivida principalmente no corpo, através de sintomas físicos: mal-estar geral, falta de energia, dores de cabeça, alterações gastrointestinais, insónia...
- Como se distinguem?
- Muitas vezes é difícil. A tristeza adquire contornos patológicos principalmente em três situações: quando é incompreensível, não se descobrindo nenhuma razão que justifique que a pessoa se sinta triste; quando este sentimento é excessivamente prolongado no tempo; quando a intensidade da tristeza interfere significativamente com a vida da pessoa, impedindo-a de trabalhar, de estar com os amigos ou levando-a a perder totalmente o interesse por actividades que anteriormente lhe davam prazer.
- Como se trata a tristeza e como se trata a depressão?
- A tristeza normal não se trata porque não é uma doença. A tristeza ultrapassa-se com a ajuda dos amigos e da família. A depressão grave trata-se com antidepressivos, podendo ser eventualmente feita ainda uma intervenção psicoterapêutica.
ROBERT ENKE SUICIDOU-SE POR DEPRESSÃO
Robert Enke tinha só 32 anos. Suicidou-se. O guarda-redes do Hannover 96, que ficou na memória dos portugueses por ter também defendido a baliza do Benfica entre 1999 e 2002, não aguentou a depressão. Foi trucidado por um comboio no dia 10, à noite.
O internacional sofreu um duro golpe com a morte da sua filha Lara, aos dois anos, em 2006, vítima de doença cardíaca. O jogador nunca se recompôs. O casal adoptou uma outra menina, que fica agora órfã de pai aos oito meses.
"Tentei dar-lhe perspectivas e esperança, dizia-lhe que nem tudo era mau, que havia coisas belas na vida, mas, infelizmente, não resultou", confessou Teresa Enke, a viúva de Robert, numa conferência de imprensa.
OS SINTOMAS DA DOENÇA
Para que esteja a sofrer um episódio de depressão ‘major’, uma pessoa deve apresentar, pelo menos desde há duas semanas, no mínimo cinco dos nove sintomas descritos na caixa ao lado, durante grande parte do dia e quase todos os dias – o que constitui uma perda de qualidade de vida significativa. Contudo, um destes sintomas deverá necessariamente ser humor depressivo ou desinteresse pela maioria das actividades.
Segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, os sintomas são uma causa de grande angústia ou deficiência no funcionamento familiar, social, ocupacional ou noutras áreas importantes; os sintomas não são causados pelo uso de substâncias (como o álcool, drogas ou medicamentos) ou por qualquer doença; os sintomas não são causados por luto, os sintomas persistem por mais de dois meses ou são caracterizados por elevada perda de qualidade de vida diária, preocupação mórbida com sentimentos de desvalorização pessoal, ideias suicidas, sintomas psicóticos ou lentificação psicomotora.
1- Perda ou ganho de peso significativos – pelo menos 5% de variação num mês, caso não esteja de dieta – ou perda ou aumento de apetite.
2- Humor depressivo. Em crianças e adolescentes, pode manifestar-se num estado de irritação.
3- Diminuição clara do interesse em todas ou quase todas as actividades.
4- Dificuldade em adormecer, ou permanecer a dormir (insónia), ou dormir mais do que o habitual (hipersónia).
5- Comportamento agitado ou apatia – devendo um destes sintomas ser visível às outras pessoas.
6- Sensação de grande fadiga ou uma sensação de decréscimo de energia.
7- Sentimentos de desvalorização ou culpa excessiva ou inapropriada (e que não se referem meramente à autocensura ou sentimentos de culpa por estar doente).
8- Redução da capacidade de pensar, de concentração ou de tomar decisões.
9- Pensamentos frequentes de morte ou suicídio (com ou sem um plano definido) ou tentativa de suicídio.
NOTAS
SUICÍDIO
Mais de 15 por cento dos casos de depressão terminam em suicídio, com prevalência superior nos homens.
EM 2030
Nos próximos 20 anos, a depressão deverá afectar mais pessoas do que qualquer outra doença.
JOVENS
A depressão é um dos problemas que mais afectam os jovens: a prevalência é de 4 por cento entre 12 e 17 anos, 9 por cento aos 18.
16 POR CENTO
A prevalência mundial da depressão é de 16 por cento e está associada a uma elevada taxa de mortalidade.
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