A krokodil deve o nome à pele escamada de quem a toma, mas também pode corroer os músculos
Até parece impossível que alguém possa consumir um produto que provoca gangrena e deve o nome às escamas esverdeadas que deixa na pele, tal como até parece impossível que haja traficantes interessados em verem os clientes morrer em menos de dois anos. No entanto, a krokodil, droga injetável usada por centenas de milhares de russos, terá chegado aos EUA há pelo menos um ano e a União Europeia mantém-se alerta a um pesadelo que faz com que a heroína passe por menos nociva, pois o termo de comparação é catastrófico.
O aparecimento da krokodil, que começou a ser consumida na Sibéria, há cerca de uma década, deveu-se ao que poderia ser encarado como uma decisão racional quando existe procura e oferta. Sendo três a dez vezes mais barata do que a heroína, a droga substituta alastrou pelas partes mais pobres da Rússia, oferecendo uma fuga à realidade ainda mais intensa e que em nada depende das oscilações do preço do ópio. E este dispara sempre que pragas agrícolas e instabilidade política e militar prejudicam o cultivo de papoilas em países tão imprevisíveis como o Afeganistão.
Como muitos russos sabem – o presidente Dmitry Medvedev terá ficado chocado ao encontrar ‘receitas’ quando fez uma busca na internet –, para fabricar krokodil basta juntar codeína, obtida em analgésicos e xaropes vendidos sem receita médica em qualquer farmácia, com produtos tão fáceis de encontrar como gasolina, diluente de tinta, ácido clorídrico, tintura de iodo ou até cabeças de fósforos. O resultado é a desomorfina, que é um derivado de morfina dez vezes mais potente, mas a forma artesanal como se processa a síntese, recorrendo a produtos altamente tóxicos e sem purificação, torna-a ainda mais letal para os toxicodependentes.
"A droga que come os utilizadores por dentro", como tem sido chamada na imprensa internacional, tende a estar tão contaminada com substâncias tóxicas que não só provoca graves lesões na pele, fazendo rebentar vasos sanguíneos e gerando necroses, como chega a corroer músculos quando a seringa falha as veias. Se alguém injetar regularmente krokodil – e não haverá muitos utilizadores ocasionais desta droga –, é provável que acabe por sofrer amputações dos braços e pernas ou que fique com os ossos expostos, tornando-se cada vez mais vulnerável a infeções.
DÚVIDA NA AMÉRICA
As lesões na pele e nos tecidos fizeram soar alarmes nos EUA, após diversos internamentos de alegados utilizadores da krokodil. Perante relatos em locais tão distantes quanto os arredores de Chicago, o tórrido Arizona ou o religioso Utah – ou mesmo de algumas mortes no Oklahoma, mais tarde atribuídas a outras causas –, a Drug Enforcement Agency (DEA), agência federal encarregue do combate ao tráfico de drogas, comunicou que ainda não tem provas oficiais da presença dessa alternativa mais barata à heroína entre os toxicodependentes. Segundo dados de 2011, 620 mil norte-americanos admitiram utilizá-la pelo menos uma vez no espaço de um ano, contra mais de 1,5 milhões na Rússia.
Num artigo publicado na última edição da ‘Newsweek’, a jornalista Victoria Bekiempis realçou a "insana ausência de factos concretos" sobre o que já está a ser encarado como uma ameaça que veio do frio, capaz de subtrair esperança de vida a quem dela depende. A revista lembrou que nos EUA é muito mais difícil, ou praticamente impossível, arranjar medicamentos com codeína se não se apresentar receita médica.
Mesmo sem confirmação da DEA, que não disponibiliza informação sobre a krokodil no site oficial, Frank LoVecchio, codiretor de um centro de informação sobre venenos e drogas de Phoenix (Arizona), descreveu à agência noticiosa Reuters, no mês passado, o que disse serem "os primeiros casos" de uso dessa droga nos EUA. "Catastrófico é o que acontece à pele. Catastrófico é o que acontece ao organismo. Dissolve a gordura e os tecidos musculares das pessoas", descreveu.
Já neste mês, o jornal britânico ‘Daily Mail’ publicou fotografias e relatos de duas irmãs toxicodependentes que estiveram entre um grupo de cinco pacientes tratados para os efeitos secundários da droga. Consumidoras de krokodil ao longo de um ano e meio, Amber e Angie Neitzel, residentes na cidade de Joliet, no Illinois, a 60 quilómetros de Chicago, aceitaram mostrar o estado arrepiante dos braços e pernas, garantindo que acreditavam estar a comprar doses de heroína, sem se inquietarem com o porquê de o preço ser dez vezes inferior e de o efeito ser bastante mais potente, embora durasse menos tempo.
SINTOMAS E TRATAMENTO
Para o médico Abhin Singla, que tratou as irmãs no hospital de Joliet, não há dúvidas do que está em causa. "No instante em que vi a Angie percebi o que ela andava a tomar. Era krokodil, sem sombra de dúvida. Todos os sintomas coincidiam a 100 por cento", recordou, temendo que a droga se espalhe pelos EUA devido ao baixo preço.
"Fica-se com marcas e sangra-se ao injetar heroína, mas nada como isto. Tenho buracos profundos na carne e a pele está a apodrecer", acrescentou Amber Neitzler, que esteve perto de sofrer amputações devido às feridas na zona dos ombros. Tal como a irmã, recorreu à desintoxicação depois de ser alertada por um amigo para o fenómeno cada vez mais presente na Rússia. "Começámos a pesquisar e tudo se tornou evidente. Quando vimos quais eram os sintomas, percebemos o que se passava connosco. Quanto mais lia, mais assustada ficava. Nem conseguia ler muito de seguida, pois convenci-me de que iria morrer", explicou ao ‘Daily Mail’.
A desintoxicação nos centros de reabilitação russos, muitas vezes geridos por igrejas evangélicas, demora um mês, durante o qual o toxicodependente têm de ser sedados, pois a privação faz-se sentir muito mais do que no caso da heroína. Ainda mais complicados são os efeitos permanentes, incluindo danos cerebrais, hepatite e a destruição dos músculos e da pele provocada pelas substâncias tóxicas adicionadas à codeína.
ALERTA NA EUROPA
Portugal continua sem casos de consumo ou apreensões de krokodil, tal como não existe qualquer registo oficial de presença da droga no espaço comunitário. "Informações episódicas têm sugerido a existência de ‘crocodile’, mas aparenta haver alguma confusão sobre este tema e, até à data, não houve confirmação toxicológica ou forênsica de qualquer caso na União Europeia. Há, por exemplo, relatos de pessoas que injetavam heroína e outras substâncias, mas julgavam estar a utilizar krokodil", disse à Domingo Ana Gallegos, que lidera o setor de Ação sobre Novas Drogas, Redução de Oferta e Novas Tendências do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, cuja sede está localizada em Lisboa.
Apesar disso, o Observatório "está a seguir a situação", incluindo a droga no sistema de alertas de novas substâncias psicoativas. Mas tudo o que é conhecido, até agora, deve-se às reportagens sobre os russos que anseiam pela próxima dose de krokodil, pois não foi recebida qualquer confirmação de casos nos 28 Estados-membros da União Europeia, bem como da Noruega e da Turquia.
O organismo não tem informações seguras sobre a situação na Rússia e nos EUA, mas Ana Gallegos também não acredita que a nova droga seja difícil de identificar, pois contém desomorfina. Tudo indica, portanto, que a krokodil ainda não mostrou os ‘dentes’ a Portugal.
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PORTUGUESES AINDA NÃO CHORAM LÁGRIMAS DE KROKODIL
Nenhumas notícias são boas notícias se estiver em causa uma droga capaz de destruir a pele e os tecidos de quem a consome. Assim sendo, João Goulão, diretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), tem boas notícias. "Não tenho conhecimento de qualquer caso e não há qualquer sinal que aponte para a presença dessa droga em Portugal", disse à ‘Domingo’, admitindo não ter "nada de relevante" a dizer sobre a krokodil, embora tenha lido artigos sobre os seus efeitos.
Sendo a krokodil uma alternativa mais barata à heroína, o responsável pelo SICAD assinala que o número de heroinómanos em Portugal mantém-se sem grandes variações. Embora "haja um decréscimo de novos utilizadores", há sinais de recaídas ou de risco de recaída.
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