São amigos: Aldina Duarte, a fadista discreta que não veio do fado, e Carlão, o ícone do hip hop que também faz rock, mas que não liga em demasia à idolatria dispensada pelos fãs.
Conheceram-se em Berlim, a convite da escritora Inês de Pedrosa, que os levou a participar na semana de poesia na Casa Pessoa. Por lá, convenceram o programador a mudar o alinhamento e depois ficaram uma noite toda à conversa. Parece que é hábito, até nos palcos, como aconteceu no espetáculo de improviso no Teatro Municipal Amélia Rey Colaço, em Algés (Oeiras). Ainda assim, a ‘Domingo’ desafiou-os a perguntar o que ficou por dizer.
Aldina Duarte (AD) – Já nos conhecemos há muitos anos, por isso não vamos estar aqui com coisas. Não conheço ninguém que tenha prescindido do estatuto de ‘mega star’ para passar para uma dimensão mais reduzida por opção própria. A maioria quer é o inverso. O que é que te moveu? Não tiveste medo que o dinheiro faltasse?
Carlão (C) - Estava cansado de uma vida muito agitada. Era tudo numa escala tão grande - que é boa por um lado - mas afasta-te das pessoas e do objeto artístico. Começas a fazer tudo de forma mecânica e automática e começa a faltar um certo risco, até. Quando os da Weasel acabaram, ficou um vazio que tinha de ser preenchido e vieram Os Dias da Raiva. Foi o feeling do momento, fazer o que antes não dava.
AD - Ninguém te disse: ‘Tu és mas é maluco! Vais lixar tudo’?
C - Falámos o que tínhamos a falar mas não pensei muito nas consequências. E ainda bem!
AD - Acho estranho teres passado dos Dias da Raiva para aquela coisa dos pais e do Algodão...
C - Não acho estranho. As duas coisas podem perfeitamente coexistir na mesma pessoa. Tenho neste disco o ‘Viver para Sempre’ que fala da minha família e outra canção que fala de depressão. Pode parecer bipolar, mas não é. Ninguém se sente sempre da mesma maneira.
AD - Ou então é doente! Mas gostas de ser famoso? A mim, a maioria das pessoas não me conhece de lado nenhum. A ti não, reconhecem-te em qualquer lado.
C - Há coisas que são boas...
AD - O quê, por exemplo?
C - Por um lado, as pessoas reconhecem logo o que tu fazes, que é genuíno (nunca houve grandes marketings!). Mas também pode ser mau por não haver descoberta.
AD - Mas fama não te obriga a mudar de vida? Tu vieste de autocarro. Não vão ter contigo?
C - Faço tudo normalmente. Nós somos músicos, pá! Se fôssemos jogadores de futebol e atores de telenovela era diferente!
AD - Mas farias uma coisa só por dinheiro?
C - Eu faço aquilo que gosto, como quero fazer. Se isso der dinheiro... boa! Se não der... faço à mesma! E nunca faria algo por dinheiro que fosse contra os meus valores.
AD - Gostas mais de dinheiro ou de fama?
C - Não sei se posso dizer que gosto mais de um do que do outro. O dinheiro dá-me mais jeito! A fama? Posso muito bem passar sem ela...
C - Agora pergunto eu: no fado têm havido muitas tramitações, num registo próximo do pop. Tu és uma pessoa que arrisca, mas tens as coisas mais compartimentadas. Como é que te posicionas?
AD - Já me chamaram a carta fora do baralho. É óbvio que o meu percurso não tem nada a ver com o de ninguém. A maior parte das pessoas tinha uma ligação ao fado desde criança, eu não.
C - E então?
AD - Muda tudo. E chegar já adulta a uma tradição oral que é de dimensão muito familiar, que se faz numa ‘casa de fados’ (repara na palavra ‘casa’), que passa de geração para geração… é como se fosses uma bastarda. Repara que o fado é um conjunto de melodias - 180 melodias, concretamente - que são a gramática. É preciso saber escrever para elas ou saber ir buscar à poesia clássica para caber na métrica da rima. Mas é nessas melodias que todos os fadistas ao longo da história criaram a sua personalidade artística. O fadista define-se pela capacidade de escolher a letra para a melodia (e vice-versa). Por isso, um fado nunca está feito, tem um espaço interpretativo muito grande. Do ponto de vista da técnica é tão elaborado e requintado como uma arte académica apesar de ser uma arte popular. É isso que me apaixona.
C - Tens isso tudo presente de cada vez que cantas?
AD - Sempre!
C - E chega-te?
AD - Quem toma uma droga destas não quer outra. Eu sou de experimentar, não gosto é de misturar as coisas ao ponto disto ficar reduzido ou diminuído. Quando é o Pedro Gonçalves ou o Manel Cruz fazem uma música para mim o espaço é outro.
C – Mas ainda não respondeste…
AD - Não vale a pena ser hipócrita. Não me identifico ao nível estético com a maior parte dos projetos que se fazem atualmente no fado. Não são a minha praia. Mas mal de nós quando um estilo artístico tiver limites para a criatividade e para a experimentação! Isso é que nunca! Eu prefiro ver uma obra de arte desbaratada, mas que haja liberdade para o fazer. E o público que se forme, informe, que consuma ou não. No dia em que houver alguém que sabe ‘quem pode fazer o quê’ com uma obra de arte, aí sim, era o fim da democracia. A supremacia ditatorial!
AD - E já que foi a palavra que nos uniu: qual é a tua favorita?
C - Não sei se tenho uma palavra favorita, mas... papá. Dita por eles. É a palavra que muda tudo.
C - E a tua?
AD - Liberdade. Foi a palavra que mudou tudo para mim e para os que amo.
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