No Alentejo, a corrida ao mais precioso dos metais faz-se no silêncio seco dos dias. Uma empresa veio da Austrália para explorar as riquezas de Montemor-o-Novo. Não são os primeiros, mas todos rezam para que sejam os últimos.
Foi num sábado à noite. A luz pequena e brilhante apareceu a dois metros da casa e o homem que passeava os cães assustou-se. "Tem de ser obra de Deus", pensou, de si para si. O objecto pairou por instantes a meio metro do chão e a seguir já estava junto ao tronco da azinheira. A rapidez com que tudo aconteceu espantou o homem. Os tons dourados que distinguia no meio da surpresa haveriam de ficar para sempre na sua cabeça. "Fiquei a ver se alguém se apeava, mas ninguém se apeou", contou, no dia seguinte, aos vizinhos. Alguns não acreditaram. Muitos não acreditaram. Alguns, ainda hoje duvidam. Muitos, ainda hoje duvidam.Os anos passaram, tantos que José Banha já lhes perdeu a conta, mas a memória ficou. "Era um OVNI, digo-lhe eu", repete quase mecanicamente à medida que vai desfiando o seu rosário de recordações.
Hoje há outra vez movimentações estranhas em Boa-Fé, terra de 376 almas. Jipes e carrinhas de caixa aberta levantam a poeira das estradas de terra batida que rodeiam a pequena freguesia esquecida no interior alentejano. Os homens chegaram há alguns meses, vindos do outro lado do mundo, carregados de máquinas pesadas e um sonho tão antigo como o próprio homem: encontrar ouro. Quatro meses de golpes profundos no subsolo deixaram no ar quente do Alentejo o aroma doce de um futuro melhor. E embora todos saibam que esta febre pode desaparecer tão depressa como surgiu, a esperança vai crescendo. Uma vez mais.
Não, não há nenhuma corrida ao ouro. Não há carros por toda a parte, não há barulho, não há vida. Apenas silêncio. A vida está tão lenta como sempre esteve em Boa-Fé, freguesia do concelho de Évora. Há quem diga que até está mais lenta. A população envelheceu, os mais novos foram embora, os mais velhos foram morrendo. Ficaram as casas, espalhadas pelos montes, a igreja e os seus santos – que, dizem eles, "são tão bonitos" – e a venda onde, há uns anos, o homem viu o OVNI. Esta tarde, não se vê ninguém, apenas silhuetas e sinais de uma festa que já foi no largo da paróquia.
Gertrudes Charrua interrompe o almoço de bacalhau e batatas quando ouve os cães ladrarem na soleira perante a presença de estranhos. "Sim, sei que andam por aí à procura do ouro, mas eu nunca vi essa gente. Dizem que costumam ir ali à venda, mas nunca os vi". A mulher caminha devagar da sombra de casa para o sol que aquece o cruzeiro. Fala dos geólogos e dos técnicos como quem descreve extraterrestres. "Andam aí, sim, mas nunca os vi", repete. Gertrudes caminha há mais de trinta anos sobre a mesma terra, nos mesmos trilhos secos que a levam às hortas e de volta. A vida nunca a deixou parar e pensar que havia ouro por baixo dos seus pés. E agora, quando todos sonham com o mesmo, Gertrudes arrasta a perna e pensa noutra coisa. "Não sabe as dores que tenho. Não posso sequer ir trabalhar. Estou à espera da operação, mas tenho 1667 pessoas à minha frente. Quando chegar a minha vez, estou morta."
É muito provável que o ouro seja mais rápido que o sistema de saúde. Nos últimos quatro meses, as sondas da Iberian Resources, empresa australiana concessionária das explorações em Montemor-o-Novo, não têm tido descanso. Perfuraram mais de dez quilómetros, centímetro a centímetro em direcção ao centro da terra, à procura dos tão desejados filões. Cada metro custou entre 40 e 60 euros, mas de acordo com os cálculos da empresa o subsolo na zona de Montemor-o-Novo pode 'produzir' mais de 500 mil onças de ouro. Dezassete toneladas em oito quilómetros de terreno. O suficiente para encher a mala de um carro, tal a densidade do metal.
Como as máquinas do casino, que acumulam jogada após jogada até ao grande prémio, que acabará por sair, cada empresa que passa pelo Alentejo fica um pouco mais perto do ouro. Não é que não apareça, mas até agora nunca foi descoberto em quantidade suficiente para tornar viável a exploração. E as empresas acabam por partir. Mas os dados recolhidos ficam, tal como os estudos e as conclusões, os locais e as profundidades. Os filões. Quem chega a seguir, investe mais um pouco, tira mais conclusões. Dá mais um passo. Este pode ser o último. A Iberian Resources espera ter o estudo de pré-viabilidade económica terminado até ao final deste ano. Será decisivo para o avanço ou não da exploração. Para já, e com a informação disponível, as tais dezassete toneladas que esperam no subsolo de Montemor-o-Novo, João Carlos Sousa, rosto português da Iberian Resources, está optimista. "Até agora, nunca se tinha chegado a esta fase".
As provas estão à sombra, num barracão de Santiago do Escoural, 1659 habitantes, onde fica a moradia branca que é a sede da Iberian Resources. São centenas de sacos carregados de terra e centenas de pequenos envelopes castanhos à espera de análise em laboratório. As máquinas de perfuração estão paradas, mas no escritório não há um minuto a perder. Os computadores saltam das páginas de minas para os mapas de Montemor-o-Novo, medem-se profundidades, ângulos de perfuração e uma outra consulta aos valores do ouro no mercado internacional.
"Gosto muito de estar aqui. As pessoas percebem o que estamos a fazer e colaboram. Sabem que, a concretizar-se, este projecto pode significar uma alteração profunda na vida de todos", diz Wess Edgar, um geólogo australiano de Melbourne, chefe de uma equipa com muitos portugueses, no gabinete e no terreno. É um tipo alto, descontraído, que parece demasiado novo para os 37 anos. "Pessoalmente, estou bastante optimista. Não só pelo que encontrámos, mas também pelas condições da zona, quer em termos de infra-estruturas quer de mão-de-obra. As pessoas trabalham muito bem e tratam-nos da melhor forma."
Numa região devastada pela seca, onde os empregos são tão raros como água da chuva, a possibilidade de uma empresa se instalar durante uma década no concelho é o equivalente a uma monção. A Iberian Resources diz que o trabalho irá demorar entre cinco a dez anos. Mais de uma centena de postos de trabalho serão criados directamente, muitos mais poderão nascer de forma indirecta. E há sempe a possbilidade de os australianos, enquanto procedem à extracção das dezassete toneladas, encontrarem novo filão. Afinal, a zona concessionada tem mais de 850 quilómetros quadrados e ninguém sabe o que a terra esconde.
Só que a eficiência e a simpatia podem não chegar. As variações no mercado mundial de ouro podem deitar tudo a perder numa questão de semanas. Se os preços baixarem, a margem de lucro diminuirá e os custos da exploração tornar-se-ão incomportáveis. Afinal, para uma exploração ser rentável, é necessário retirar, em média, dois gramas de ouro por tonelada de material. "Os valores em Montemor aproximam-se disso", refere o responsável da Iberian Resources. Ao contrário do que sucede com outros metais, onde grandes companhias de dimensão multinacional funcionam em regime de quase-quartel, o mercado do ouro permite que pequenas e médias companhias se aventurem em explorações mais pequenas. Mesmo num país como a Austrália. Grande, enorme, continental. Embora alguns australianos achem que não. Há alguns anos, os sócios principais da Iberian Resources, numa das inúmeras viagens à Europa, chegaram a Portugal e, assim que puderam, consultaram os dados disponíveis sobre extracção de ouro. As melhores pistas apontavam para Sul.
José Francisco Banha tem os olhos virados para a televisão. O mundo à sua volta parece ter parado. A venda está igual há cinquenta anos. Os mesmo movéis, a mesma diversidade impossível de produtos – desde chapéus a brinquedos, passando por sapatos e feijão, cigarros e insecticidas. "Ouro? Ouro? Não sei o que lhe diga. Essa febre já por aqui andou várias vezes. Eles chegam, a gente entusiasma-se e depois vão embora. Mas nós ficamos." José Banha traz o queijo numa mão e o pão na outra. Em pleno Agosto, as temperaturas sobem e o País arde de Norte a Sul, mas tudo parece demasiado longe de Boa-Fé, onde de anos a anos, alguns homens aparecem e trazem sonhos. Os nomes, como de Mike Brown, guarda-os em papéis amarelecidos pendurados junto à porta. "Lembro-me bem de todos. Gente muito boa, sempre certos nas contas, muito educados", diz José Banha, lamentando que os seus clientes, portugueses e vizinhos, não sejam iguais. "Há quem me deva mais de duzentos contos..."
Em Boa-Fé, no Escoural e por toda a parte nas redondezas, as conversas sobre o ouro acabam sempre da mesma forma: "Era bom", dizem eles. "Podia animar a freguesia, trazer mais gente. Em termos de trabalho, não creio que fizesse muita diferença para Boa-Fé. Já somos poucos e velhos, daqui ninguém ia trabalhar. Mas no Escoural, em Montemor, isso era capaz de animar. Era bom”, descreve, agora mais animado, o comerciante que acredita em OVNI.”Era bom”, volta a repetir. Aos 74 anos, o brilho do ouro já não o seduz. Os passos, tal como as palavras, têm o ritmo certo. Nem rápidos, como a luz do OVNI que viu mas em que alguns não acreditam, nem lentos, como a promessa do ouro mil vezes repetida mas que tarda em realizar-se. "Precisa de mais alguma coisa?" O telejornal da uma acabou agora. Os olhos estão outra vez virados para a televisão.
Os romanos conseguiram, durante a sua presença na Península Ibérica, mais de mil toneladas de ouro. O ouro encontrava-se em rios como o Tejo, o Douro e o Guadiana. A actividade mineira foi retomada em vários pontos do País, por empresas estrangeiras e portuguesas.
"ISSO PARA NÓS É OURO" (Carlos Sá Pinto, Presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, 47 anos, CDU)
- Há australianos à procura de ouro no seu concelho. Não são os primeiros a fazê-lo e no passado o sonho nunca se tornou realidade. Ainda acredita?
- Antes de tudo quero dizer que é natural que haja algum cepticismo por parte das pessoas aqui. É conhecido há muito tempo que há ouro no Escoural. Sabemos também que esse ouro não tem sido, até ao momento, viável em termos da sua exploração. Como tal, as pessoas habituaram-se a ver as empresas chegar e partir sem resultados nenhuns... Contudo, parece que existem agora alguns dados novos. Neste momento, esta prospecção mais completa e exaustiva apresenta alguns resultados animadores. No entanto, até à concretização do projecto ainda vai algum tempo.
- Imagine o que será Montemor ter essa exploração e imagine que, uma vez mais, tudo falha.
- Aquilo que num determinado momento não é rentável produzir, passado pouco tempo, com a evolução das técnicas, passa a ser rentável. Naturalmente, não estamos a falar apenas do problema da técnica. A viabilidade tem também a ver com o mercado e o mercado do ouro tem muitas oscilações e está muito dependente de indicadores que podem ou não verificar-se. Por isso mesmo diria que, a não se concretizar a exploração, era mais uma. Já temos tido várias de maneira que não ficaríamos excessivamente desapontados. Enfim, quereríamos, como tem sido normal, que houvesse.
A segunda hipótese é a hipótese mais optimista. Temos aqui um filão capaz, que perspectiva uma exploração na ordem dos cinco a dez anos, que, tudo indica, poderá criar cem postos de trabalho – o que seria marcante para uma região como a nossa, sobretudo numa freguesia como o Escoural, que, como é sabido, está muito deprimida. Esta é uma hipótese de desenvolvimento que, a concretizar-se, poderá permitir ultrapassar diversos problemas no Escoural. Além dos cem postos de trabalho, a empresa tem também capacidade para dinamizar muita coisa à sua volta.
- Este é um assunto muito discutido pelas pessoas da terra?
- Quando há notícias nos meios de comunicação social, quando aparece nas primeiras páginas dos jornais e a abrir telejornais, quando é dado nas rádios, é evidente que há sempre tendência para se falar. E o ouro é sempre aquela coisa mítica, aquele 'El Dorado', que vem resolver todos os problemas. Julgo que é um sentimento moderado, porque já há alguma habituação a expectativas que nascem grandes, mas que depois, quando são espremidas, deitam muito pouco. Esperemos que agora deite alguma coisa, porque nós aqui precisamos. Poderia mesmo dizer que para nós é como a água, desde que deite uma gotinha, nós aproveitamos. As pessoas falam, têm interesse, o que é natural. Afinal, trata-se de uma empresa que vem criar postos de trabalho, que vem ajudar a dinamizar a região. E isso para nós é ouro.
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