Documentos secretos revelam corrupção, cisão no poder e conspiração para matar o Papa
Bento XVI escolheu bem as palavras na missa que celebrou, no passado dia 18, quando a ocasião impunha o barrete vermelho e a entrega do anel cardinalício a 22 novos cardeais. Pediu humildade e não poder àqueles que estão ao serviço da Igreja, num texto que evoca a intriga que desde Janeiro varre os corredores do Vaticano. Apesar da festa e opulência que marcou o último consistório, a distância entre o Papa e os seus cardeais é tal que em Roma já se fala de um "pastor rodeado de lobos".
TEIAS DE CONSPIRAÇÃO
Desde o início do ano, a imprensa italiana tem publicado documentos secretos que dão conta de casos de corrupção, lavagem de dinheiro e até da intenção de afastar Bento XVI, por resignação ou morte.
"Precisamos de calma, sangue-frio e razão", afirmou o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, que comparou o caso ao famoso Wikileaks. Mas, segundo vários especialistas, a intriga tem um objectivo imediato: descredibilizar o todo poderoso Tarcísio Bertone, secretário de Estado e número dois na hierarquia da Igreja Católica, e colocar um italiano no poder.
A polémica estalou em Janeiro quando uma carta dirigida ao Papa alemão pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò surgiu na imprensa. O sacerdote, actual núncio em Washington (Estados Unidos), descrevia a teia de corrupção e clientelismo que observara desde 2009, quando assumiu o cargo de secretário-geral do Vaticano.
Na missiva, datada de 2011, Viganò, de 70 anos, revelava que no Palácio da Santa Sé trabalhavam sempre as mesmas empresas, com custos mais elevados por não existir "transparência na gestão dos contratos de construção e engenharia". Relatava ainda que a corrupção era do conhecimento de toda a Cúria Romana e que os banqueiros do Instituto das Obras Religiosas (IOR) se preocupavam com os próprios interesses, nomeadamente por terem montado uma operação financeira que, em 2009, levou ao desvio de 180 milhões de euros.
As denúncias saíram caro ao arcebispo, que seis meses depois foi transferido para Washington, onde ocupa o cargo de núncio, semelhante ao de um embaixador.
Mas a teia da conspiração dos cardeais chega mais longe. Num outro documento, divulgado na televisão, o cardeal colombiano Castrillón Hoyos citava uma enorme tensão entre Bento XVI e Bertone, denunciava a intenção do Santo Padre querer nomear para o cargo de confiança Angelo Scola, actual cardeal de Milão, e relatava a existência de um complô para assassinar o Papa nos próximos 12 meses, e que teria sido divulgado pelo cardeal siciliano Paolo Romeo numa viagem à China. O caso levou à abertura de inquéritos e manchou a instituição secular.
AO ESTILO ITALIANO
Aura Miguel, especialista em assuntos do Vaticano, salienta que, "por ser constituída por homens, a Igreja sempre teve e terá este género de mexericos". No entanto, o que se passa hoje é "uma intriga ao estilo italiano".
Do que viu em Roma, onde esteve por ocasião do consistório, a jornalista notou que "existe um mal-estar relativamente ao actual secretário de Estado, Tarcísio Bertone, por ele ter nomeado pessoas que lhe são próximas. Há predominância de cardeais italianos e assim sendo é de esperar que prefiram um dos seus para continuar".
E é precisamente uma questão de estilo que alimenta a brecha aberta no centro do poder do Vaticano. Vocacionado para a introspecção e o pensamento, Bento XVI distanciou-se do trabalho de relações-públicas do antecessor João Paulo II e criou um novo modelo de comunicação. Pediu desculpa pelos excessos da Igreja, nomeadamente nos casos de pedofilia, criou, em 2010, uma Autoridade de Informação Financeira do Vaticano para vigiar as contas da Santa Sé e recuperou o conservadorismo: devolveu à luz do dia vestes medievais, criticou a violência do Islão e o uso de preservativos.
Para mais, numa entrevista a Peter Seewald, Bento XVI afirmou que quando o Papa "tem consciência de não estar em condições físicas e mentais deve renunciar ao cargo". Muitos esperam um anúncio em Abril, quando completa 85 anos, num corpo que acusa a idade.
"Por não estar vocacionado para governar e ter delegado no cardeal Bertone", nota Aura Miguel, este Papa terá aberto caminho aos cardeais, donos e senhores da Cúria Romana, onde assenta a complexa teia do poder na Santa Sé. Órgão administrativo, apenas dependente do Papa, a Cúria coordena todo o funcionamento da Igreja Católica, estando dividida em Secretaria de Estado, Congregações, Pontifícios Conselhos e outros órgãos (como tribunais).
"É aí que reside o controlo da Igreja e os cardeais funcionam num círculo fechado, são nomeados pelo próprio Papa e são eles que vão depois nomear o próximo Papa. E por ser eleito entre si, cooptado, o grupo que manda na Igreja Católica sempre foi um grupo de intriga e de guerra", explica o sociólogo Moisés Espírito Santo.
De facto, na história desta instituição são várias as suspeitas e conspirações. "Basta recuar ao tempo da família Bórgia, à época do grande Cisma ou à morte de João Paulo I, que em 1978 esteve menos de um mês como Papa." O problema está no facto de "a Igreja Católica se reger por regras medievais, não estando sujeita a uma autópsia ou ao controlo de laboratório, o que levanta estas suspeitas. E a ligação aos elos do passado estende-se também à predominância de papas italianos, só quebrada recentemente", diz o sociólogo, citando os pontificados de João Paulo II, polaco, e Bento XVI, alemão.
Envolta em opulência e mistério, "a Igreja ganha em unidade ao nomear um Papa exterior à Itália, até do 3º Mundo. Mas se o poder da Cúria é forte e tem toda a cultura a apontar para isso, são bem capazes de voltar à tradição italiana", frisa o especialista.
RESISTIR AOS SÉCULOS
Adaptar-se aos tempos é, para Espírito Santo, fundamental para o subsistir da Santa Sé. "É da falta de democracia que surge a actual dificuldade da Igreja Católica em ser uma voz unânime. Este Papa teve a coragem de tentar retomar a moralidade eclesiástica, mas isso levou a que se denunciem uns aos outros. A Igreja está abalada do ponto de vista da credibilidade e, por ter o flanco aberto, surgem as dissensões." Desse ponto de vista, diz, "é bom que as denúncias venham a lume. Abre caminho a que outros grupos existentes na Igreja Católica, mesmo de leigos, ganhem expressão".
Para Aura Miguel, "não é por vir ao de cima a parte menos bonita que deixa de ser verdadeira a outra. A Igreja é também feita de Santidade e só isso justifica que ainda persista". Em sua defesa, recorda que "Napoleão, aproveitando também as divisões entre os cardeais, mandou comunicar ao Papa a intenção de destruir a Igreja e este terá comentado: ‘Digam-lhe que não vai ser capaz, pois se nem nós próprios conseguimos!’"
NOTAS
CORRUPTO
Segundo Papa da família Bórgia, Alexandre VI (1492-1503), o mais corrupto, foi envenenado com arsénico.
RENÚNCIA
Celestino V, em 1294, e Gregório XII, em 1415, foram os dois Papas que renunciaram ao cargo.
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