Maria Celina vive há 29 anos em clausura. É a prioresa do Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra. Natural de S. Cristóvão, freguesia do concelho de Cinfães do Douro, descobriu a vocação religiosa quando, um dia, ouviu falar lá em casa dos três pastorinhos. Era pequerrucha, mas a ideia de seguir os passos da irmã Lúcia – fechada num convento, entregue à oração – fascinou-a e ganhou força com o passar do tempo. Aos 19 anos, Deus fez-lhe a vontade.
Hoje, com 48, a madre superiora das carmelitas é uma mulher feliz e completamente realizada. Nunca se arrependeu de ter escolhido o caminho da Fé. Só tem pena de não ter concretizado um sonho de menina: ser pára-quedista. Mas duas palavras da mãe bastaram para lhe cortar as asas: "Estás doida!"
- Fale-me da sua família.
- Sou a mais nova de dez irmãos, os quais estão no Porto, Lisboa e Brasil, dedicados ao comércio. Os meus pais e nós, enquanto estivemos em casa, vivíamos da agricultura. O meu pai já faleceu há 29 anos; a minha mãe ainda vive, mas já não está na casa que nos viu nascer. Vive em casa de uma das minhas irmãs.
- Como foi a sua infância?
- Tive uma infância feliz, embora não achasse muita graça por ser a mais nova, pois tinha que obedecer aos irmãos todos!... Mas eram todos meus amigos. Bem pequenina fiquei a responsável das ovelhas. Era o trabalho do mais novo. Não tive sucessor...
- Quando 'nasceu' a vocação?
- Muito pequenina, dizia que queria viver sempre com a minha mãe e que, quando morresse, havia de ir com ela no mesmo caixão. Pelos cinco, seis anos, ouvi o meu irmão mais próximo em idade, quando já estava na catequese, falar dos três Pastorinhos: "Dois já morreram e uma ainda vive. Está numa casa donde nunca sai e está sempre a rezar!" Ouvi e disse com os meus botões: "também quero ser assim!" Esta foi a primeira isca na minha vocação religiosa.
- Estudei pouco. Até ao 6.º ano estudei na minha terra e em Coimbra completei o 9.º ano. Gostava muito de estudar, mas... não foi possível por várias causas, embora me tivessem conseguido uma bolsa de estudos. Aos 17 anos, já com a minha vocação definida, mas por causa de ser menor e não ter o consentimento de meus pais para a seguir, quis realizar outro sonho, até à maioridade, nesse tempo aos 21 anos: ser pára-quedista! Mas, quando pedi à minha mãe, ouvi como resposta: “estás doida!!!”
- O que a levou a abraçar a vida religiosa?
- A história de uma vocação é algo de muito íntimo, é uma história de amor. Vivi o processo de discernimento vocacional, completamente a sós com Deus. Como disse anteriormente, foi cerca dos cinco, seis anos que tive a primeira luz. Depois, vivi um discernimento muito sério e mesmo doloroso. Aos 11 anos, acordou em mim a mulher e a mãe. 'Ser mãe' era algo que fazia vibrar todas as fibras do meu coração, mas caíam-me os braços ao pensar no encanto da virgindade!... Olhando para Nossa Senhora... queria ser como Ela! Como conciliar estes dois amores?
- Nova luz se fez aos 12 anos quando ouvi o meu Pároco dizer: "Há tantos que ainda não ouviram o nome de Jesus!" Então descobri a maternidade que Deus queria para mim – maternidade espiritual. Nasceu o amor pelas Missões. Mas ainda me ficava um vazio no coração.
Foi aos 14 anos que, reflectindo mais profundamente, descobri que, pelo apostolado das mãos vazias - na vida contemplativa, nunca palpamos o fruto do nosso trabalho, é uma vida de Fé – eu poderia atingir uma Maternidade universal. E disse 'sim' para sempre.
- Há quanto tempo está no Carmelo de Santa Teresa?
- Vim para este Carmelo aos 19 anos. A família, a princípio, não foi favorável. É natural. Eles não têm a vocação. Mas depressa ficaram de acordo. Estou no serviço de Prioresa há 4 anos.
- Como é viver em clausura? É uma vida difícil? De sofrimento?
- Quem vive na clausura vive feliz e nem se lembra disso. Se alguma se sente mal, não é obrigada a ficar. Para isso se dão pelo menos seis anos para viver sem um compromisso perpétuo, para que a candidata possa ter tempo de ver se é mesmo isto que quer. E mesmo depois do compromisso perpétuo, se vier a sentir-se desajustada, pode desistir, mediante uma dispensa de votos.
- Alguma vez pensou 'desistir'? Se arrependeu?
- Nunca me arrependi de ter vindo. Ainda hoje me parece o primeiro dia – são quase 29 anos!
- Em que altura da sua vida sentiu a presença de Deus, acreditou na sua existência? Qual foi a 'prova'?
- Deus foi sempre para mim o Ambiente natural em que vivi. Desde criança tratei com Ele como com um Amigo especial.
- Tem medo da morte?
- Não. A morte é o escancarar as portas da eternidade, o encontro face a face com Deus, Aquele que sabemos que nos ama e a Quem, enfim, poderemos amar sem as limitações inerentes a esta vida, a qual é um dom de Deus.
- O que lhe falta para se realizar como ser humano?
- Nada! Sou feliz, inteiramente de Deus!
- O que é preciso para se ser carmelita?
- É preciso ter vocação. E a vocação ninguém a fabrica por si próprio; é um dom de Deus, que Ele dá a quem quer. Há muitos que querem e não podem, porque não foram chamados. A vocação é uma história pessoal muito íntima, vivida entre Deus e a pessoa chamada, deixando a Este toda a liberdade de se Lhe dizer não.
- Conte-me um dia no Carmelo.
- Levantamo-nos às 5h55m. A ocupação principal é a oração, à qual dedicamos a maior parte das horas do dia. Sete vezes vamos ao coro rezar a Liturgia das horas, oração composta de Salmos, leituras e preces – louvor de Deus e intercessão pela humanidade. Duas horas, uma de manhã e outra à tarde, são dedicadas à oração mental ou contemplativa. O tempo que sobra da manhã e da tarde é destinado ao trabalho, que cada uma realiza em solidão, para favorecer a oração contínua. Depois do almoço e do jantar, que são em silêncio ouvindo uma leitura, temos uma hora de recreio, tempo para distender as cordas. Neste tempo, fazemos alguns trabalhos de mãos, a não ser que seja dia de festa. No cume de todo o dia, está a Eucaristia, que é o Motor de toda a jornada.
- Todas as irmãs vão à cozinha, um dia cada uma.
- Vêem televisão? Ouvem música?
- Só em circunstâncias especiais vemos televisão. Não temos tempo para isso. Música, ouvimos às vezes no recreio.
- Em que circunstâncias saem do Carmelo?
- As saídas do Carmelo são raras e nunca desejadas. Saímos para votar e para, quando necessário, tratar da saúde. Está previsto sair todas as vezes necessárias, quando se trate de nova fundação, para acompanhar as obras do novo Mosteiro, o que acontece muito raramente.
- Como seguem a vida no 'mundo exterior'?
- Sobretudo com o coração, pois a nossa opção é precisamente para estar diante de Deus em favor do Seu povo. Conhecemos as notícias do que se passa no mundo através de muitos meios, ouvindo a informação da rádio, jornais e muita coisa nos chega através do telefone. Mas, ainda que não soubéssemos, isso não seria impedimento para a nossa entrega ter a mesma dimensão, pois sabemos que Deus, que recebe as nossas vidas, sabe muito bem onde aplicar o seu mérito. Nós passamos-Lhe um cheque em branco e Ele pode passar a conta que quiser...
- Conheceu como poucos a irmã Lúcia. (A vidente de Fátima entrou para o Carmelo de Santa Teresa a 25 de Março de 1948, onde viveu até 13 de Fevereiro deste ano, o dia da sua morte). O que mudou desde a sua partida?
- Relativamente à vida comunitária, não mudou nada. Há muito que ela não podia seguir os actos de comunidade. Deixámos de ter aquela referência. Nos últimos tempos, era um ponto de convergência para todas. Ajudava a isso o facto de a sua cela estar junto da sala de recreio. Era paragem obrigatória para todas quando passávamos por lá. E ela gostava muito da visita e procurava ter um miminho para dar. Gostava muito de dar.
Sentimos a sua falta e custa admitir a verdade da sua partida. Todos os cantos da casa falam dela e avivam a saudade.
- O que melhor recorda dela?
- A sua boa disposição, a sua serenidade, a sua paz. A sua alegria contagiante, nascida de um coração amorosamente abandonado nas mãos de Deus. Até ao fim, conservou o seu bom humor, mesmo quando já não podia falar, relativizando o seu sofrimento. Transparecia nela a felicidade e a paz de ter cumprido o que lhe fora pedido.
- Do que é que não gostava?
- Não gostava de banana... e a médica teve a ideia de substituir um comprimido de potássio por uma banana!!!... Foi um sacrifício diário quase até ao último dia.
- De tudo. Ela interessava-se por tudo e para tudo tinha o seu parecer. No recreio gostava que eu ficasse junto dela, para que nada do que dissesse às irmãs lhe escapasse. Como ouvia mal, queria-me bem perto.
- Lúcia fazia anos em finais de Março? Como celebravam o dia? A 'festa' era feita a 22 ou 28? (Lúcia foi registada a 22 de Março de 1907, seis dias antes do seu nascimento).
- Sempre celebrámos o dia dos anos a 22. Alguma vez também a celebrámos a 28. Com já eram tantos, merecia ter duas festas. Na festa dos anos, como para todas, dávamos o abraço na véspera – as grandes festas começam de véspera! – tínhamos a missa pelas suas intenções e, ao meio-dia na refeição era levantado o silêncio, com um almoço melhorado. Bolos e flores não faltavam. Cada uma oferecia uma estampa e no recreio da noite cantávamos os parabéns.
- De que se ocupava a 'pastorinha' no Carmelo?
- Como todas as irmãs, tinha as suas obrigações de vida comunitária. Desempenhou vários ofícios que, conforme o costume do Carmelo, rodam por todas, conforme as possibilidades de cada uma. Conheci-a como sacristã e roupeira. Era esmerada e diligente em tudo o que fazia. Além destes ofícios, tinha um que lhe era imposto por ser quem era – a correspondência sempre abundante. Há vários anos que, por causa da muita idade, o seu trabalho se reduziu a este e não era pouco... Até ao fim, conservou a responsabilidade das respostas a dar. Era ela que decidia as cartas que deviam ter resposta. Isto aconteceu até à penúltima semana. Nos últimos dias, eu dizia-lhe as intenções que lhe eram enviadas e ela acenava com a cabeça.
- Quando sentiu que a morte da vidente de Fátima estava a chegar?
- A partir do dia 21 de Novembro começámos a andar com o coração em sobressalto. Teve vários desmaios, nos quais parecia que era chegada a hora da partida. Às vezes parecia que ia de novo recuperar, mas quando deixou absolutamente de comer, admitimos a realidade da situação. Esteve 17 dias sem comer e quase não bebia.
- Recorde-nos o último dia da vida de Lúcia.
- No dia 13 fiquei com ela durante a oração da manhã. Parecia não sofrer como nos dias passados. Estava com os olhos abertos e muito viva. Nos últimos dias raramente abria os olhos. Depois da Missa voltei junto dela. Com o dedo apontei-lhe o Céu, ao que ela acenou afirmativamente com a cabeça. Em seguida, tomei o meu Crucifixo e coloquei-o em frente dos seus olhos a uma distância pequena. Ela esteve numa conversa silenciosa fazendo gestos com as sobrancelhas. Fez-me sinal com o dedo para lho chegar aos lábios. Neste momento avisaram-me que o Senhor Bispo estava no locutório. Desci e, Sua Ex.cia Rev.ma entregou-me o fax que tinha recebido, enviado pelo Senhor Núncio com o texto da bênção do Santo Padre. Perguntei ao Senhor Bispo se a queria visitar, mas disse-me que estando com pressa voltaria às cinco horas.
Subi à cela da Irmã Maria Lúcia e li-lhe o texto da bênção junto do ouvido. Em seguida, ela estendeu a mão e tomando o papel, encostou-o à roupa que ultimamente afastava até à cintura. Pus-lhe os óculos. Esteve a ler com todo o interesse. Depois entregou-mo de novo. Toda a manhã esteve assim bem. Veio a médica e combinou vir às cinco horas com a enfermeira, para de novo lhe porem o soro, que tinha saído da veia. Pelas duas horas começou a não reagir aos movimentos que se faziam. Já não afastava a roupa, nem reagia quando se lhe humedeciam os lábios... Quando chegou a médica, às cinco horas, pedi-lhe que não a picassem mais... Via-se que estava no fim! Chegou a enfermeira e logo depois o Senhor bispo. Começou as orações dos agonizantes. Às 5h25m ela abriu os olhos, voltou-os para o lado direito, lugar onde eu estava e fixou-me por uns momentos. Coloquei o crucifixo em frente dos olhos. Depois, fechou-os para não os voltar a abrir e apagou-se serenamente, como uma vela que gastando todo o pavio, não deixa fumo.
- O que vai ser feito da cela que ocupava? Está fechada?
- A sua cela continuará a ser "a cela da Irmã Lúcia". Fechada porquê? Ficará uma cela histórica. Ao contrário do que acontece com a cela das outras irmãs que partiram, não irá ser ocupada por mais nenhuma. Será um lugar para nós visitarmos e rezar... Ela nunca ocupou mais nenhuma desde que saiu do noviciado, onde esteve os dois primeiros anos no Carmelo.
- A cela dela à igual à das outras irmãs?
- Durante muitos anos foi igual. Com o passar dos anos e, acentuando-se a sua dificuldade de movimentos, foi-se adaptando às suas necessidades. Sempre acontece assim, para que a irmã se conserve o mais tempo possível independente.
- O que pensa do facto de o corpo ser trasladado (em princípio no próximo ano) para o Santuário de Fátima? Concorda?
- Naturalmente gostaria que ficasse sempre no meio de nós... Seria mentira dizer o contrário e comigo comungam todas as irmãs. Aceitámos a decisão tomada, com todo o respeito. Já foi muito bom termos conseguido este período!
- João Paulo II foi o Papa de Fátima. Esteve três vezes no Santuário da Cova da Iria e encontrou-se com a irmã Lúcia. Alguma vez teve oportunidade de falar com ele?
- Não, nunca estive com o Papa.
- Como acompanhou os dias de sofrimento?
- Acompanhámo-lo com a nossa oração.
- Acha, tal como defendiam muitas pessoas, que o Papa João Paulo II, devia ter resignado?
- Acho que nunca se pede a um Pai que deixe de o ser, pelo facto de estar doente.
- Quando tomou conhecimento da sua morte?
- Às 20 horas (do dia 2 de Abril) ouvi o noticiário da ‘Rádio Renascença’ e comuniquei às irmãs que o Santo Padre estava com febre alta. Terminado o recreio, às 20h45, fomos para o coro rezar. Por causa de um assunto urgente, não pude ficar com a Comunidade. Em seguida, recebi um telefonema do Brasil, dando-me a notícia do falecimento do Santo Padre. Ainda não eram 21 horas.
- Como foram os momentos que se seguiram no Carmelo?
- Fui ao coro dar a notícia. Estavamos a rezar e... a rezar continuámos, depois de um momento de silêncio. Rezámos com lágrimas na voz. Chorámos o Papa cantando Aleluia! É tão belo!
- Acha que o Santo Padre já 'falou' com a irmã Lúcia? E com a Jacinta (que o 'viu' em sofrimento e que está na origem da terceira parte do segredo de Fátima)?
- A estas perguntas só poderei responder quando eu fizer a mesma viagem que eles já fizeram... Depois, se eu puder, digo-lhe alguma coisa.
- Gostava de ter ido ao enterro?
- Participei daqui, como se estivesse lá. Mas confesso que, nos dias em que acompanhámos a agonia do Santo Padre, gostaria imenso de repetir com sua Santidade a ternura dos últimos dias da Irmã Lúcia. Fi-lo pela oração.
- O que destaca dos seus 26 anos de papado?
- Ele foi a revelação de Cristo aos olhos de Deus e dos homens, até ao Calvário e à morte. Um Profeta!
- Se algum dia tivesse tido oportunidade de falar com ele, o que lhe teria perguntado?
- Se calhar ficava muda... mas gostaria de lhe perguntar o segredo de poder dedicar tantas horas à oração – foi a sua força – ele que tinha tantas ocupações! Creio que devia ter uma ordem muito grande na sua vida!
- O que fica depois de partir do 'mundo dos vivos'?
- Não estou à altura de avaliar a riqueza que Sua Santidade deixa na nossa história!... Para crentes e não crentes, para católicos ou crentes de outras confissões, ele tem uma palavra e um exemplo altamente eloquente.
- Merece ser santo?
- Oh, se merece!...
- Na altura da sucessão, falou-se muito na possibilidade de o cardeal patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, vir a ocupar a cadeira de Pedro. Acha que seria um bom Papa?
- Para poder responder a esta pergunta precisava de conhecer todos os Cardeais...
- Conheceu Joseph Ratzinger, quando se deslocou ao Carmelo para falar com a irmã Lúcia, em meados da década de 90. Concretamente do que falaram?
- Não chegámos a falar. Apenas lhe beijei a mão. Pareceu-me uma pessoa muito simpática.
- O que espera do seu Pontificado?
- Que cumpra a missão que Deus lhe confiou.
QUESTIONÁRIO DOMINGO
Um País... Portugal.
Uma pessoa... Jesus Cristo.
Um livro... Bíblia.
Uma música... Toda a música sacra.
Um lema... “Oração e penitência”.
Um clube... Não tenho clube. Ouvimos os golos Municipal de Coimbra. Mas vibro com a Selecção.
Um prato... Qualquer prato de peixe.
Um filme... Não vemos filmes. Só a ‘Paixão de Cristo’, de Mel Gibson, porque o realizador veio cá mostrá-lo.
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