‘O Óbvio e o Obtuso’, de Roland Barthes, é um livro feito de pequenos ensaios, definições que provocam o nosso entendimento
O modo como lemos dá de imediato a dimensão do que é lido. Vê como lê o leitor, perceberás o que lê. A atenção que dirige ao que lê, a forma como as suas mãos agarram no livro ou no jornal. 1. Observemos um leitor sem saber o que ele lê, sem percebermos se lê um livro, jornal ou revista. Nos movimentos das suas mãos, nesses pequenos gestos, na tensão ou descontracção dos traços do rosto e, principalmente, no modo como os seus olhos se fixam, detectaremos indícios que nos dirão de forma clara: eis um leitor excitado ou desatento; eis um leitor diante de um livro ou diante de um jornal. Uma eventual ilusão: pela observação longa e atenta do olhar de um leitor perceber que tipo de texto ele lê.
No limite, interpretar o olhar do leitor, para, de forma indirecta, conseguir ler o que o leitor está a ler. Eu não li o livro que o leitor está a ler – poderia dizer-se – mas observei longamente o seu olhar no momento em que lia. Li, pois, de forma indirecta. No limite, poderemos até pensar que alguém apaixonado por um excelente leitor, por se fixar muito tempo nos olhos dele, tornar-se-á, de imediato, também ele um excelente leitor, mesmo que não pegue num livro.
Não li um único livro, poderia dizer a pessoa apaixonada, mas já me demorei horas e horas nos olhos de um grande leitor. Apoderar-se de uma biblioteca pela sedução, eis uma das hipóteses (para um leitor preguiçoso).
BARTHES LÊ
No limite dos limites, pensar num analfabeto, que capta a essência das leituras de um grande intelectual pela observação demorada dos seus olhos. Continuando o exemplo – um oftalmologista que seja analfabeto e que, pela observação atenta de múltiplos olhos, ganhe um conjunto de conhecimentos por via indirecta. E se torne, então, pelo seu ofício, e por via directa da fisiologia, um possuidor de uma grande biblioteca já lida. Eis um conto entre o absurdo e o fantástico, a desenvolver noutro lado.
2. Pensemos agora na forma como Roland Barthes lê. Barthes não pára de ler, mesmo quando o que está à sua frente não é um texto. Lê imagens, pinturas, sons. Num texto sobre o teatro grego, Barthes mostra que este não era popular, mas "cívico, teatro da cidade responsável". E eis aqui uma fórmula que sintetiza o essencial. Só uma cidade responsável tem um teatro responsável ou, por outras palavras, um teatro responsável, cívico, responsabiliza a cidade, por contágio, por contaminação.
Este livro feito de pequenos ensaios, ou fragmentos, está cheio de definições que deslocam o nosso entendimento. Num ensaio sobre música, Barthes escreve que há duas músicas: "aquela que se escuta, e aquela que se toca". Duas músicas "inteiramente diferentes", a música "muscular", activa, que se toca, e a música "passiva, receptiva" – a música que se ouve. E se há algo que marca os textos de ‘O óbvio e o obtuso’ é precisamente isto: a música de Barthes não é apenas activa, obriga a agir.
RESUMO
Livro póstumo com textos, em que o cinema, a pintura, a fotografia, a música e o teatro estão presentes.
AUTOR
Roland Barthes
EDITORA
Edições 70
CINEMA: CINEMATECA PORTUGUESA
"É o espaço onde se guardam filmes antigos, filmes raros, filmes que não aparecem em mais lado nenhum. Temos acesso à história do cinema, e à história do cinema escondido – aquele que o mundo comercial não deixou respirar. A programação de 2011 continuará forte, certamente."
Local: Rua Barata Salgueiro n.º 39, Lisboa; contacto 213 596 200
info: www.cinemateca.pt
DVD: ‘AS PRAIAS DE AGNÉS’
"Uma cineasta que faz quadros. Temos vontade de parar a imagem e ficar a observar os pormenores como se observam as pinceladas mais pequenas. Documentários estranhos, andando em redor de si própria. Regresso de Agnès às praias da infância."
RESUMO
Documentário com vários fragmentos do trabalho da realizadora octogenária.
Realizadora: Agnès Varda
Género: Documentário
LIVRO: ‘JÓ, A VIDA DE UM HOMEM SIMPLES’
"Eis o início do livro: ‘Há muitos anos vivia em Zuchnow um homem chamado Mendel Singer. Era devoto, temente a Deus e semelhante a muitos outros, um judeu normalíssimo. Exercia a simples profissão de professor’."
RESUMO
Joseph Roth (1894-1939) escreveu em 1930 a história de um imigrante que perde a fé em Deus. O livro é um dos cem romances do século.
Autor: Joseph Roth
Editora: Ulisses
FUGIR DE...
RESUMOS
"Fugir de livros de resumos. Resumos de romances, sempre existiram. Para preguiçosos. Por vezes, os resumos são considerados livros de estudo – uma contradição evidente. Qualquer dia, no limite, até surgirão resumos de poemas. Como se resumirá um poema? Julgo que era Borges que dizia que a música era aquilo que não se podia resumir, aquilo de que não se podia fazer uma síntese. E o mesmo sucede com os livros fortes."
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