O maior assaltante de bancos português coleccionava o que a Imprensa escrevia sobre ele. O passatempo não aguentou Manuel Marques Simões na prisão. Ele dizia que se matava ou se pirava dali para fora. Escolheu a última hipótese. Foi despejar o lixo e fugiu.
Manuel Marques Simões conservava na sela do Estabelecimento Prisional de Coimbra, onde cumpria uma pena de 15 anos de prisão, uma pasta com recortes de Imprensa sobre o maior assaltante de bancos português – ele próprio. Entre os escritos que preservava estavam também algumas cartas de um dos elementos da brigada da Judiciária encarregue da investigação do seu caso. A correspondência que remeteu ao polícia, bem como aos juízes e ao procurador do Ministério Público, era de lamento por tal sorte. Aos 55 anos, dizia ele, a pena pesava-lhe nos ombros. No dia 7, fazendo jus à fama de bem comportado, foi encarregado de despejar o lixo. Enquanto vazava os desperdícios da prisão, acompanhado por um guarda, evadiu-se com a ajuda de dois homens armados que o aguardavam dentro de um carro.
O maior assaltante de bancos português actuou entre 1998 e 2000, em 29 agências bancárias do país, e amealhou mais de 500 mil euros. Foi a dor de cabeça da directoria de Coimbra. O caso esteve nas mãos de Nídio Martins – foi sua a última investigação antes da reforma. À medida que os assaltos se sucediam e se tornava evidente que o ladrão era só um, Nídio Martins começou a chamar-lhe de Solitário. A alcunha pegou.
Quando o inspector arrumou a carteira profissional, o ladrão de bancos ainda estava a monte com mandato de captura internacional. Só meses depois, o Solitário foi capturado na fronteira da Alemanha. Nídio Martins não resistiu. Quando o Solitário foi entregue às autoridades portuguesas, o ex-polícia foi aos calabouços da PJ de Coimbra. “Embora já estivesse aposentado, quis conhecê-lo. Estive lá cinco minutos e ele aproveitou logo para se queixar da vida. Como é que um homem com a idade dele se mete naqueles trabalhos?! Nunca mais o vi mas, de vez em quando, ainda me lembro dele.”
O choradinho foi sempre uma característica do Solitário. Emigrante, ele vinha de França para assaltar em Portugal e enquanto o fazia de arma apontada a funcionários e clientes, aproveitava para se lamentar da sorte madrasta. Primeiro diante das vítimas e depois perante o tribunal, a todos os que pode encontrar durante o processo, Manuel chorou sempre a mesma história: a sua empresa de automatismos de portões e carpintaria de alumínios, em Nice, estava falida. O empresário-ladrão precisava de dinheiro para garantir a viabilidade do negócio. Mas o dinheiro nunca chegou e a empresa faliu mesmo. A polícia acredita que o Solitário possa ter algures mealheiro.
VIDA TÃO AMOROSA
No dia 18 de Março, Manuel Marques Simões foi condenado a 21 anos de prisão, depois revistos para 15. Em tribunal ficaram provados 27 assaltos consumados e duas tentativas. A maioria dos crimes foi cometida na área de Aveiro. À medida que ganhava confiança e sentia o cerco apertar-se, o Solitário – que vinha a Portugal em carros alugados com matrícula falsa – foi alargando a geografia do roubo. No final tinha assaltado de Miranda do Douro a Borba.
Em tribunal ficou também escancarado o livro da sua vida. Manuel Marques Simões nasceu a 5 de Maio de 1949, em Rio de Couros. No final dos anos 60, quando tinha terminado a instrução primária, ajudava os analfabetos da terra a escrever cartas aos seus familiares emigrados.
Manuel casou em Rio de Couros com uma prima, Maria de Jesus Lopes, e dela teve logo uma filha. Na década de 70 emigrou com ambas para França, mas em terras estranhas abandonou-as numa estação de comboios. A mulher estava grávida de uma segunda criança. Maria de Jesus regressou à terra onde nasceu e nunca mais voltou a casar. Semanas antes da sentença do seu único marido, ela e a filha mais velha ingeriram Gramaxone. A bebida de herbicida foi-lhes fatal.
Em França, mal abandona a prima, o emigrante Manuel arranja nova mulher, também portuguesa, de quem tem mais dois filhos. Depressa rompe com a segunda família quando se encanta por Annie Yvette que lhe dá outro filho. Manuel, Annie e o menino, Franck, vivem à grande e à francesa em Nice. O português de Rio de Couros é já empresário. Junto aos autos do processo estão cartas do filho mais novo do Solitário. “Espero que tenhas recebido a minha carta. A direcção não era a mesma da última carta que recebi. Começa a passar muito tempo e espero que estejas bem e a lutar pela vida.”
DESCULPE MAS TENHO DE ASSALTAR
A 11 de Agosto de 2000, o Solitário regressou à Anadia, à primeira agência que tinha assaltado. Na fuga abandona o carro em Espanha. No porta-luvas, uma carta em que ele pedia desculpa às vítimas. O desabafo de consciência trama-o, serve de prova de identificação. Mais tarde, numa busca à morada do ladrão, a polícia encontra correspondência incriminatória quanto baste.
Manuel Marques Simões tinha mesmo a mania de pedir desculpa. Numa das agências que assaltou chegou a telefonar no dia seguinte a uma das funcionárias. Comovida pela lábia, ela deu-lhe conselhos.
O Solitário nem sempre foi afável. A maioria das vítimas lembra-se com terror supremo daquele homem com ar normal. Ele pedia um empréstimo e depois roubava o dinheiro de arma na mão, enquanto gritava ameaças desconexas. “O vosso banco fodeu-me. Desgraçaram-me a vida, para a cadeia não vou e em último caso dou um tiro na cabeça.”
Numa carta ao juiz que o condenou e que se encontra apensa aos autos, Manuel Marques conta que a sua desgraça terá começado num restaurante entre Lyon e Nice, na pessoa de um tal José Oliveira. O desconhecido – diz o Solitário – ter-lhe-á emprestado dinheiro e depressa exigido a cobrança. A solução do imbróglio foi proposta pelo tal José – um assalto a um banco em Portugal. Nunca se provou tal companhia, nem a existência do credor. Os assaltos sucederam-se, em viagens relâmpago. A polícia chega a conseguir prever a periodicidade com que o misterioso assaltante actuava.
MATAVA-SE OU FUGIA
“Só quero o dinheiro, não quero fazer mal a ninguém, a Caixa de Viseu fodeu-me a vida, vendeu-me a casa e a minha mulher deixou-me.” No final de 1998, o Solitário era ainda amador, em alguns assaltos chegou mesmo a tirar o capuz para limpar o suor, noutros actuava de cara descoberta.
À medida que o cerco aperta torna-se mais violento. Em Borba, em Agosto de 2000, encontra-se com a GNR num tiroteio do qual consegue fugir. Manuel regressa a França de mãos a abanar e a PJ finalmente tem uma colecção razoável de indícios.
Nesse mesmo ano, em Agosto, volta à agência da Anadia onde tinha feito o primeiro assalto em 1998. Um dos funcionários ainda se lembra bem dele, e com medo. Quando ouviu o ladrão berrar que era assalto reconhece-o pelo sotaque e então engole o terror, tenta encurralá-lo. Em vão. Foi o seu último assalto. Manuel Marques Simões ainda tenta arranjar o parceiro de crime que sempre lhe faltou num romeno cadastrado. Má ideia, a caminho de Portugal, o comparsa deixa-o apeado quando ele sai do carro para urinar, e ainda lhe rouba a carteira.
O mandado de captura internacional rende a detenção de Manuel Marques em Nice. Na primeira noite na cadeia tenta enforcar-se com um lençol. Presente a tribunal, o juiz francês é benevolente. Com dupla nacionalidade, o Solitário fica naquele país a aguardar julgamento em liberdade.
É tempo de começar nova vida – Manuel arranja emprego de encarregado de contactos comerciais entre França e Polónia e, neste país, uma nova mulher. Numa dessas viagens é detido pela polícia alemã que o extradita para Portugal.
Na prisão, Manuel Marques Simões recebeu sempre visitas, a família de Portugal nunca o abandonou. Ele sempre tinha ajudado financeiramente os irmãos. Dentro do estabelecimento prisional de Coimbra, o Solitário apregoava que não aguentaria tantos anos de prisão, que se matava ou fugia, mesmo que tivesse de recompensar a ajuda. Ao polícia, que recebeu correspondência de Manuel e que o visitou na cadeia, custa-lhe a engolir que aquele homem tão angustiado com a vida, tão normal, se tenha assim evaporado.
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