Aos 13 engravidou e com 14 foi mãe. A Domingo acompanhou um ano escolar desta adolescente
Ana arruma o berço duas vezes por dia. O quarto tem paredes lilases, suaves. Abre as gavetas da cómoda e fica a olhar as roupas. Já tem fraldas, gorros e babetes, roupa de recém-nascido e até um mês - quando a bebé nascer vai estrear um fatinho cor-de-rosa com um body por baixo, um gorro cor-de-rosa e umas meias bem pequenas. A partir da terceira gaveta a roupa é para três meses, lilás, e até aos seis de diversas cores.
Desde o sétimo mês de gestação, Ana (tal como este, todos os nomes são fictícios) - que engravidou aos 13 anos - tem a mala pronta para a maternidade, embora a refaça várias vezes. Certifica-se de que a máquina fotográfica e de filmar têm bateria. "Eu quero que ela nasça rápido. Quero ver como ela é. Imagino-a linda, mulatinha - o pai é preto. Nós vimos na ecografia a 3D que é muito parecida comigo" - conta, entusiasmada.
O último mês é sempre mais ansioso. E nesta altura, a bebé que carrega na barriga, já com dois quilos e 360 gramas, ganha uma personalidade irrequieta. "Vou domingo [19 de Julho de 2009] às urgências fazer o CTG [permite o controlo electrónico das contracções] e peço para ficar logo lá. A Lua mudou de dia 14 para 15 e volta a mudar a 23", afirma Ana.
Na rua não esconde a barriga redonda - um sinal da esperança de uma menina, como diz a crença popular. Passa perfeitamente por 18 anos. Ela é bastante alta para a idade e mais ainda com os sapatos de cunha. A pele clara, uns olhos grandes e cabelo escuro. Não parece nada que acabou de entrar na adolescência, embora tenha nascido em 1995. Aos 11 anos deitou todas as bonecas fora, como sinal de afirmação de mulher. "Com 12 já se achava adulta", insiste a avó Lisete, 66 anos.
MAIORIDADE AOS 13 ANOS
Nunca foi boa opção para Ana dizer na rua que engravidou aos 13. Provoca comentários repulsivos. ‘Tão nova!? Como é possível!? E a tua mãe, onde estava?' É tudo menos o que uma adolescente amedrontada com a maternidade quer ouvir. Decidiu passar por maior de idade.
Só na escola, no centro de Lisboa, é que continuava a ser vista como miúda do 8º ano. Mas já todos sabiam que estava grávida e que nas férias do Verão ia ser mãe. Mesmo assim não prejudicou as notas. Ana tinha esquecido a rebeldia do ano passado na escola que frequentou, perto de casa, em Odivelas. Aqui conheceu o pai da sua filha.
"As minhas antigas colegas de escola [de Odivelas] eram muito mais avançadas do que as actuais. A mentalidade das de Lisboa é diferente. Não fumam, não bebem. E a maioria nunca teve namorado" - conta Ana.
"Uma pessoa com essa idade não sabe o que é o amor, provavelmente acha que ama...", afirma ela, aos 14 anos. "Já nem me lembro muito bem o que era namorar. Era um namoro de adolescentes: é tudo bonito no início e achamos que essa pessoa é diferente e verdadeira. Algumas vezes podemos estar certos, ou podemos estar errados quanto à verdadeira identidade e quanto aos pensamentos do parceiro."
Ana começou a namorar aos 11 anos. "Só beijos", acrescenta.
Conheceu um rapaz dos arredores de Lisboa com 17 anos. "Achei que ele era ideal para me iniciar sexualmente. Achei mal, não devia ter dado o passo." Maria, de 46 anos, médica e mãe de Ana, achava que seria pior proibir o namoro e, por isso, levava a filha todas as semanas ao centro comercial e entregava-a na mão do rapaz para juntos passearem ou irem ao cinema. Nunca pensou que o amor deles se tornasse de adultos. "Sabia que podia engravidar, mas não me preveni o suficiente. Achamos sempre que só acontece com os outros", confessa Ana.
"Contei a 400 pessoas que ia ser avó e a falar fui resolvendo o problema". Ou refreando a notícia. ‘E vai ter o bebé ou vai dá-lo para adopção?' - perguntavam-lhe. "E você, dava? ‘Ah, se fosse mulatinho eu dava', responderam-me" - conta Maria.
Na primeira ecografia, Ana já estava de 21 semanas. A felicidade instalou-se nas vidas desta família. Em vez de recriminarem Ana, duas gerações de mulheres - mãe e avó - apoiaram-na. Tinham amor para dar.
O 9º ANO DA "MAMÃ"
A 26 de Julho de 2009 a Lua não estava com a feição que Ana tinha desejado. Mas foi a data em que a bebé, Luana, nasceu, às 39 semanas. Pesava 3,5 quilos. "Foi doloroso. Passei a noite com dores. Só que ainda não sabia o que era a dor, depois da uma da tarde eu soube, até às quatro, quando me deram a epidural" - recorda.
O parto foi rápido. "A minha mãe estava ao meu lado e a Luana nasceu apenas em cinco minutos. Eu queria chorar mas não consegui", conta Ana. Para descontrair, Maria interrompe: "eu é que fiz de pai, cortei o cordão umbilical da bebé".
Luana veio ao mundo "boazinha: só come e dorme, não chora nem faz perder noites", relatam as duas, entusiasmadas. "A Ana não me dá trabalho, é óptima mãe", acrescenta Maria.
Quando a escola começou em Setembro último e Ana teve que carregar a mochila pela primeira vez com os livros do 9º ano, o seu coração estava apertado de emoção. Separava-se pela primeira vez da filha, com menos de dois meses. "Tive saudades, muitas saudades."
Explicou a sua situação à directora de turma, na escola em frente a casa. Até Luana completar quatro meses, Ana amamentava-a antes de sair, às 8h20, para as aulas, regressava a meio da manhã, à hora de almoço e a meio da tarde. Ela, para as colegas, passou a ser a "mamã".
Nesta altura entra na vida delas uma ama que as acompanha o dia inteiro. E que trata também da casa. Recebe o salário mínimo nacional. A ajuda é preciosa já que a médica Maria teve que redobrar a sua carga horária, já que a família cresceu, deixando assim de poder cuidar das tarefas domésticas.
"Ser mãe é lindo! Cada dia tem uma novidade. Ela é uma boneca, mas não tem botão de desligar. Tenho muito trabalho para cuidar da minha boneca. Além do mais, tudo o que ela faz é real: cocó, xixi, chorar, rir. Mas vale a pena" - conta hoje, aos 15 anos. A bebé entrou em competição com a escola.
Hoje, Ana garante que tem melhores notas. "Estou mais aplicada", disse. Queria ser médica e sabia que o esforço tinha que fazê-la suar. Hoje, praticamente no final do ano lectivo, nada podia ser melhor. "As notas de todas as disciplinas foram positivas. Não tive nenhuma negativa em nenhum teste".
No ano passado a Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, atendeu 262 adolescentes grávidas, dos 12 aos 18 anos, sendo a média de idades de 16, e 89,3% eram gravidezes não planeadas. De todas, 96,8% tinham carências sociais, embora 84,8% pudessem contar com apoio familiar. Solicitaram a interrupção voluntária da gravidez 33,9%.
QUANDO VOLTAR A AMAR
O pai da bebé registou-a. E o rapaz até anda com uma fotografia da filha na carteira. É a forma de ver a Luana. Ana já não se relaciona com ele e, por enquanto, a distância é o desejo de todos.
Ana embala a filha no berço, lilás, que já deitou 11 bebés da família. O primeiro, agora com 20 anos, foi o primo Nuno. Desde essa altura que é símbolo de ternura familiar passar o berço de casa em casa.
Luana fixa o olhar na mãe, reconhece nela cada um dos seus movimentos. "Hoje em dia um relacionamento com outro rapaz tem que incluir a minha filha", diz Ana. "Já não pode haver mais um relacionamento a dois. Hoje tenho uma família e o rapaz que me queira namorar tem que querer duas pessoas".
O caminho de Ana passa pela escola. "É cedo para decidir se vou seguir Medicina. Só resolvi que vou fazer no 10º a área de Ciências e Tecnologia", explica. "Vou continuar a estudar sempre para poder ter uma vida independente com a minha filha".
Aos 15 anos a adolescência já pode conter responsabilidades de adulto. Mas os sonhos acompanham o crescimento. O príncipe encantado será sempre o príncipe encantado. E Ana vai um dia reaprender a namorar.
A MATERNIDADE E A GRAVIDEZ
Não é a gravidez na adolescência o que mais preocupa os técnicos de saúde. O mais problemático é a maternidade adolescente, como explica a psicóloga Maria de Jesus Correia, da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), porque uma coisa é idealizar o bebé que vai nascer, outra é tê-lo nos braços, com todas as suas exigências: chora, faz birras, eventualmente inibe saídas com amigos. Ser adolescente é estar centrado em si próprio; ser mãe implica disponibilidade para as exigências do filho. A MAC tem uma equipa multidisciplinar, na Unidade de Adolescente, especializada no atendimento a estas grávidas.
NOTAS
262
Adolescentes atendidas na Maternidade Alfredo da Costa em 2009. Dessas, 33,9% quiseram abortar.
ESCOLA
Metade das adolescentes grávidas abandonou a escola. 66,6% têm o ensino básico incompleto.
20 ANOS
A média de idades dos rapazes que engravidam adolescentes é igual ou superior a 20 anos. Elas têm, em média, 16.
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