Lavandarias ‘self service’ só se viam em filmes americanos. A crise fez da americanice uma moda. Já há trinta lojas no país.
Até do passeio cheira a amaciador e sabão, encaminhando quem procura as novas lavandarias self service. O negócio, que lá fora já tem barbas, começa agora a ser visível em Portugal e ameaça ser – depois das lojas de compra e venda de ouro em segunda mão – a nova tendência dos franchisings. Não é um negócio de milhões, mas sim "de tostões". Todavia, em tempos de crise, têm o condão de atrair clientes e investidores.
Na Lavandaria Wash Inn, em Santa Maria de Avioso (Porto), o proprietário Armando Sousa vê chegar e partir todo o tipo de pessoas e as suas roupas. "Sobretudo quando chove, vêm muitos casais com filhos que têm urgência nas roupas, mas também vêm idosos, estudantes. Este tipo de negócio não tem propriamente um perfil típico de cliente", reflete.
Armando é que é mais atípico, como lojista. Antes era bancário. Mas ao fim de três anos de reforma achou que era "novo demais para ficar sem fazer nada". A filha deu-lhe a ideia. Na cidade onde morava, Vila Nova de Gaia, havia uma loja do género. Depois, mudou de casa e sentiu-lhe a falta. "Ó pai, abre tu uma. Dava-me tanto jeito…" E com o jeito que só as filhas têm para convencer os pais, Armando fez um investimento na ordem dos 100 mil euros na montagem da loja. A verba, pedida ao banco, pagou as máquinas, as obras necessárias no espaço e a decoração, embora nesta última tenha tido a colaboração do genro, "que é designer gráfico". Na inauguração houve bolinhos e nos outros dias há café e revistas para entreter o tempo.
IDEIA IMPORTADA
Por cá, só se conhecia o conceito das lavandarias comunitárias graças a viagens ou séries televisivas. As máquinas alinhadas na parede e o enredo a dominar a cena. Ou o rapaz mete conversa com a rapariga, ou ninguém diz palavra e a ação centrifuga-se ao ritmo da vida.
Mas lavar a roupa interior em público era coisa que metia confusão ao português. Até a crise dar a volta ao texto.
Nos últimos meses abriram mais de 30 lavandarias self service em Portugal. "Antes só havia em residências de estudantes, nas marinas, em bairros sociais como o da Serafina", explica Rui Madeira, representante da Miele, marca que tem sido parceira na abertura de muitos destes estabelecimentos.
Talvez por isso não tem dúvidas sobre o que potencia o negócio: a própria crise. "Ou porque as pessoas não têm dinheiro para comprar uma máquina nova quando a antiga avaria, ou porque estão a dividir casas e não querem misturar a sua roupa, ou não têm dinheiro para pagar a eletricidade ou a água... e lavar a roupa é um bem essencial", sublinha.
Por isso, a localização foi a questão mais estudada por Antonieta e José Lourenço Ferreira quando abriram a Lavámil, na rua da Madalena, em Lisboa. "O bairro está cheio de casais novos, há muitos turistas, muitos imigrantes também", explica Maria Antonieta. A renda "é cara", ali a meio passo do Castelo de São Jorge, da praça da Figueira e do Martim Moniz, mas tem o trunfo de chegar até a quem está de passagem.
O investimento do casal também veio a tempo. Ela trabalhava no ramo imobiliário, ele era engenheiro, e quando o desemprego bateu à porta de ambos acharam que o melhor era fazer pela vida. "Ou lavar muita roupa", como Antonieta gosta de dizer com uma gargalhada jovial para os seus 62 anos. O projeto é de família, até porque a filha, Sara Lourenço Ferreira, designer free lancer à procura de oportunidades, foi chave-mestra na abertura da loja. Agora, os três revezam-se no apoio aos clientes da Lavámil, que nunca fica sem o apoio dos donos.
Não é este o caso da Aldeia da Roupa Branca. Ali tudo é automático e até as portas fecham sozinhas à noite, depois de as luzes se apagarem uma hora antes, em jeito de aviso. Mesmo assim, já houve quem lá tivesse ficado fechado, claro.
"Controlamos a loja pelas câmaras e há um número que as pessoas podem ligar em caso de dúvidas. A ideia é que as pessoas se sintam à vontade", justifica Roberto Rocha. Ali, no Algarve, em Albufeira, onde a sua Aldeia da Roupa Branca abriu portas em 2004 e foi uma das primeiras no País, não se estranha: "No início vinham muitos imigrantes, sobretudo os de Leste. No verão são os turistas e também os trabalhadores sazonais. Todos conhecem bem o sistema." A fórmula enquadra-se perfeitamente e o negócio "não dá para enriquecer porque o retorno é lento, mas tem a vantagem de não precisar de empregados".
Mariana Viana, septuagenária, está encantada com a nova loja do seu bairro, a Mil Rotações, em Vila Chã, na Amadora. "Antes lavava os cobertores e os cortinados à mão porque não cabiam na máquina. Agora, deixei-me disso. Aqui ficam limpinhos, sequinhos, prontos a guardar e fica barato: por menos de 10 euros lava-se dois cobertores." Ao seu lado, o marido acena com a cabeça e completa: "Nem queira saber as dores nas costas que me poupa…"
A satisfação do casal é pelo negócio criado por Rosália e Pedro Viana, depois de, aos 50 e 45 anos, respetivamente, terem perdido empregos. Abriram as portas há um mês e esperam que o bom tempo traga gente para "lavar peças grandes".
Ali, a máquina de oito quilos trabalha por 4,50 ou 4€ (conforme se tem ou não cartão de cliente), a de 16 quilos por 8 ou 9 euros e a secagem (15 quilos) fica entre 1,50 e 2 euros. Tal como nas suas congéneres, não é preciso levar detergentes nem amaciadores de casa e os produtos disponíveis são biodegradáveis.
As máquinas usam desinfetantes entre lavagens . "Ao princípio fazia-me impressão a ideia de lavar a roupa onde todas as outras pessoas lavavam, mas depois percebi que o sistema é muito higiénico", justifica Mariana, 72 anos, sobre algo que "no seu tempo" não havia.
NOVO FRANCHISING
Na Cotton Club, em Lisboa, junto à avenida Almirante Reis, Filipe Alves, português residente na Alemanha em viagem pelo Mundo numa caravana, trouxe o filho, Jan, austríaco de seis anos, à lavandaria de tons azuis, com cafetaria e bolos fresquinhos. Entram na loja montada por Carlos Oliveira, que está prestes a expandir-se para franchising, como em casa própria. "Em Portugal nunca tinha visto nenhuma, mas de certeza que dão jeito como dão no resto do Mundo", resume Filipe.
Mais abaixo, na Lavámil, Maria Huerta, designer equatoriana prestes a abrir um negócio de roupa de autor reciclada na rua Augusta, testa o self service. Jeovana Silva, que tem um cabeleireiro ali ao lado, descobriu que é "melhor e mais barato lavar as toalhas na lavandaria do que andar a carregá-las para casa". E de caminho ainda aproveita para pôr a leitura cor-de-rosa em dia, enquanto espera que passem os 45 minutos da lavagem.
CAIXA: OS OUTROS TANQUES COMUNITÁRIOS
Desde que a crise começou a abater o orçamento das famílias, foram várias as freguesias que abriram lavandarias comunitárias. Na rua das Garridas, em Lisboa, por exemplo, toda a população de Benfica dispõe de serviço com taxas sociais (1 euro para lavagem ou secagem), o que "vai permitindo a muitos agregados familiares reduzir as despesas com os consumos de água e eletricidade", diz fonte da Junta.
No Pavilhão Polivalente de Odivelas, todos os dias entram pessoas que querem saber como funciona a lavandaria comunitária, destinada à população idosa e a todos os que têm carências económicas. Os preços, entre um e três euros, permitem lavar até 50 peças. A Segurança Social cedeu o equipamento e a empresa Unilever os detergentes.
O mesmo aconteceu no Centro de Apoio Social de Vale de Cavalos, concelho da Chamusca, onde a história já não reza sobre os tanques do largo de empedrado, onde as mulheres lavavam a roupa à mão.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.