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A moda de usar as lavandarias 'self service'

Lavandarias ‘self service’ só se viam em filmes americanos. A crise fez da americanice uma moda. Já há trinta lojas no país.

19 de abril de 2014 às 16:44

Até do passeio cheira a amaciador e sabão, encaminhando quem procura as novas lavandarias self service. O negócio, que lá fora já tem barbas, começa agora a ser visível em Portugal e ameaça ser – depois das lojas de compra e venda de ouro em segunda mão – a nova tendência dos franchisings. Não é um negócio de milhões, mas sim "de tostões". Todavia, em tempos de crise, têm o condão de atrair clientes e investidores.

Na Lavandaria Wash Inn, em Santa Maria de Avioso (Porto), o proprietário Armando Sousa vê chegar e partir todo o tipo de pessoas e as suas roupas. "Sobretudo quando chove, vêm muitos casais com filhos que têm urgência nas roupas, mas também vêm idosos, estudantes. Este tipo de negócio não tem propriamente um perfil típico de cliente", reflete.

Armando é que é mais atípico, como lojista. Antes era bancário. Mas ao fim de três anos de reforma achou que era "novo demais para ficar sem fazer nada". A filha deu-lhe a ideia. Na cidade onde morava, Vila Nova de Gaia, havia uma loja do género. Depois, mudou de casa e sentiu-lhe a falta. "Ó pai, abre tu uma. Dava-me tanto jeito…" E com o jeito que só as filhas têm para convencer os pais, Armando fez um investimento na ordem dos 100 mil euros na montagem da loja. A verba, pedida ao banco, pagou as máquinas, as obras necessárias no espaço e a decoração, embora nesta última tenha tido a colaboração do genro, "que é designer gráfico". Na inauguração houve bolinhos e nos outros dias há café e revistas para entreter o tempo.

IDEIA IMPORTADA

Por cá, só se conhecia o conceito das lavandarias comunitárias graças a viagens ou séries televisivas. As máquinas alinhadas na parede e o enredo a dominar a cena. Ou o rapaz mete conversa com a rapariga, ou ninguém diz palavra e a ação centrifuga-se ao ritmo da vida.

Mas lavar a roupa interior em público era coisa que metia confusão ao português. Até a crise dar a volta ao texto.

Nos últimos meses abriram mais de 30 lavandarias self service em Portugal. "Antes só havia em residências de estudantes, nas marinas, em bairros sociais como o da Serafina", explica Rui Madeira, representante da Miele, marca que tem sido parceira na abertura de muitos destes estabelecimentos.

Talvez por isso não tem dúvidas sobre o que potencia o negócio: a própria crise. "Ou porque as pessoas não têm dinheiro para comprar uma máquina nova quando a antiga avaria, ou porque estão a dividir casas e não querem misturar a sua roupa, ou não têm dinheiro para pagar a eletricidade ou a água... e lavar a roupa é um bem essencial", sublinha.

Por isso, a localização foi a questão mais estudada por Antonieta e José Lourenço Ferreira quando abriram a Lavámil, na rua da Madalena, em Lisboa. "O bairro está cheio de casais novos, há muitos turistas, muitos imigrantes também", explica Maria Antonieta. A renda "é cara", ali a meio passo do Castelo de São Jorge, da praça da Figueira e do Martim Moniz, mas tem o trunfo de chegar até a quem está de passagem.

O investimento do casal também veio a tempo. Ela trabalhava no ramo imobiliário, ele era engenheiro, e quando o desemprego bateu à porta de ambos acharam que o melhor era fazer pela vida. "Ou lavar muita roupa", como Antonieta gosta de dizer com uma gargalhada jovial para os seus 62 anos. O projeto é de família, até porque a filha, Sara Lourenço Ferreira, designer free lancer à procura de oportunidades, foi chave-mestra na abertura da loja. Agora, os três revezam-se no apoio aos clientes da Lavámil, que nunca fica sem o apoio dos donos.

Não é este o caso da Aldeia da Roupa Branca. Ali tudo é automático e até as portas fecham sozinhas à noite, depois de as luzes se apagarem uma hora antes, em jeito de aviso. Mesmo assim, já houve quem lá tivesse ficado fechado, claro.

"Controlamos a loja pelas câmaras e há um número que as pessoas podem ligar em caso de dúvidas. A ideia é que as pessoas se sintam à vontade", justifica Roberto Rocha. Ali, no Algarve, em Albufeira, onde a sua Aldeia da Roupa Branca abriu portas em 2004 e foi uma das primeiras no País, não se estranha: "No início vinham muitos imigrantes, sobretudo os de Leste. No verão são os turistas e também os trabalhadores sazonais. Todos conhecem bem o sistema." A fórmula enquadra-se perfeitamente e o negócio "não dá para enriquecer porque o retorno é lento, mas tem a vantagem de não precisar de empregados".

Mariana Viana, septuagenária, está encantada com a nova loja do seu bairro, a Mil Rotações, em Vila Chã, na Amadora. "Antes lavava os cobertores e os cortinados à mão porque não cabiam na máquina. Agora, deixei-me disso. Aqui ficam limpinhos, sequinhos, prontos a guardar e fica barato: por menos de 10 euros lava-se dois cobertores." Ao seu lado, o marido acena com a cabeça e completa: "Nem queira saber as dores nas costas que me poupa…"

A satisfação do casal é pelo negócio criado por Rosália e Pedro Viana, depois de, aos 50 e 45 anos, respetivamente, terem perdido empregos. Abriram as portas há um mês e esperam que o bom tempo traga gente para "lavar peças grandes".

Ali, a máquina de oito quilos trabalha por 4,50 ou 4€ (conforme se tem ou não cartão de cliente), a de 16 quilos por 8 ou 9 euros e a secagem (15 quilos) fica entre 1,50 e 2 euros. Tal como nas suas congéneres, não é preciso levar detergentes nem amaciadores de casa e os produtos disponíveis são biodegradáveis.

As máquinas usam desinfetantes entre lavagens . "Ao princípio fazia-me impressão a ideia de lavar a roupa onde todas as outras pessoas lavavam, mas depois percebi que o sistema é muito higiénico", justifica Mariana, 72 anos, sobre algo que "no seu tempo" não havia.

NOVO FRANCHISING

Na Cotton Club, em Lisboa, junto à avenida Almirante Reis, Filipe Alves, português residente na Alemanha em viagem pelo Mundo numa caravana, trouxe o filho, Jan, austríaco de seis anos, à lavandaria de tons azuis, com cafetaria e bolos fresquinhos. Entram na loja montada por Carlos Oliveira, que está prestes a expandir-se para franchising, como em casa própria. "Em Portugal nunca tinha visto nenhuma, mas de certeza que dão jeito como dão no resto do Mundo", resume Filipe.

Mais abaixo, na Lavámil, Maria Huerta, designer equatoriana prestes a abrir um negócio de roupa de autor reciclada na rua Augusta, testa o self service. Jeovana Silva, que tem um cabeleireiro ali ao lado, descobriu que é "melhor e mais barato lavar as toalhas na lavandaria do que andar a carregá-las para casa". E de caminho ainda aproveita para pôr a leitura cor-de-rosa em dia, enquanto espera que passem os 45 minutos da lavagem.

CAIXA: OS OUTROS TANQUES COMUNITÁRIOS

Desde que a crise começou a abater o orçamento das famílias, foram várias as freguesias que abriram lavandarias comunitárias. Na rua das Garridas, em Lisboa, por exemplo, toda a população de Benfica dispõe de serviço com taxas sociais (1 euro para lavagem ou secagem), o que "vai permitindo a muitos agregados familiares reduzir as despesas com os consumos de água e eletricidade", diz fonte da Junta.

No Pavilhão Polivalente de Odivelas, todos os dias entram pessoas que querem saber como funciona a lavandaria comunitária, destinada à população idosa e a todos os que têm carências económicas. Os preços, entre um e três euros, permitem lavar até 50 peças. A Segurança Social cedeu o equipamento e a empresa Unilever os detergentes.

O mesmo aconteceu no Centro de Apoio Social de Vale de Cavalos, concelho da Chamusca, onde a história já não reza sobre os tanques do largo de empedrado, onde as mulheres lavavam a roupa à mão.

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