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A Mulher que não gostava do Natal!

“Era uma Mulher descrente nas prendas e nos mimos que só se dão pelo Natal”

08 de janeiro de 2012 às 00:00

Era uma Mulher bela, sábia, desconfiada, faladora, teimosa, vidente do futuro e guardiã de esplendorosas memórias. Era uma Mulher crente em Deus e no Menino Jesus, mas que não gostava do Natal. Era uma Mulher descrente nas prendas e nos mimos que só se dão pelo Natal – sabia que a prosperidade nunca é eterna e, com a idade, deu em ficar cada vez mais poupadinha.

Era uma Mulher doce que se tornava amarga ao confrontar-se com a hipocrisia e a mentira – ela que mentia aos seus para lhes poupar infortúnios e aos outros para os punir. Era uma Mulher de armas e de braços fortes que achava que só ela podia fazer bem feito – ela que detestava as comezainas do Natal e que, aos domingos, fazia o melhor cozido à portuguesa do Mundo.

Era uma Mulher que nunca se calava e que vencia sempre, nem que fosse pelo cansaço dos outros. Era uma Mulher que pensava alto, ria alto, ralhava alto e sofria baixinho, cada vez mais baixinho.

Era uma Mulher curiosa, demasiado curiosa, de olhinhos saltitantes que se fecharam ainda brilhantes de curiosidade. Era uma Mulher radical, conservadora, chata, aberta à vida e ao futuro; e que sombreava o olhar quando se recordava da mãe velhinha e já senil a perguntar-lhe por que é que ela, já Mulher, havia cortado as tranças. Era uma Mulher pensativa que sabia que o seu pai teve medo na hora da morte. Era uma Mulher que tinha pena de morrer porque, afinal de contas, ainda havia tanto para fazer.

Era uma Mulher patriota que brincava com os sotaques do norte e do sul e que nunca aceitou conselhos de troikas, engenheiros, médicos ou vendedores. Era uma Mulher alegre e contagiante que ficava triste e nervosa pelo Natal.

Era uma Mulher que gostava de mandar e de ter sido primeira-ministra. Era uma Mulher independente num país de machos e de machistas. Era uma Mulher astuta que não acreditava nas leis, acreditava na Justiça. Era uma Mulher vaidosa do seu corpo e da sua cabeça. Era uma Mulher que se arranjava para sair e não gostava que lhe tirassem fotografias na cozinha, muito menos de avental.

Era uma Mulher que, por ser Mulher, perdeu o seu lugar em outros voos. Era uma Mulher que gostava de ser Mulher e devia ter nascido Homem. Era uma Mulher que não gostava do Natal. Era Natal! Era Mãe! Podia ser Portugal.

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