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A peixeira que foi aos Globos

Sónia Nunes fez de si própria em ‘É o Amor', de João Canijo. A vida desta mulher deu um filme.

26 de maio de 2014 às 08:02

Sónia gostava de ter dito que vende o peixe a quem dá mais por ele, que é preciso "habilidade". Porque se os homens o pescam no mar, as mulheres têm de o saber negociar em terra. Também gostava de ter contado que anda "no peixe" desde os catorze anos, vida que não trocava por nenhuma outra, por difícil que pareça. Eram "estas coisinhas que queria ter dito lá em Lisboa", no palco da gala dos Globos de Ouro, mas a surpresa com a vitória do filme ‘É o Amor' - que protagonizou, fazendo de si própria - tirou-lhe as palavras da boca pintada a batom.

"Mandei um beijinho para as mulheres das Caxinas, pelo menos disse o mais importante." Normalmente é dos homens que reza a história neste bairro piscatório em Vila do Conde, que volta não volta se veste de luto pelas mortes no mar, esse gigante que tanto dá o pão como tira a vida. Mas em terra tecem-se outras redes e quem as garante tem nome de mulher. Sónia Nunes. 40 anos. Mestra. Peixeira. Mãe de três. Porto seguro do Zé que vai para o mar dia sim dia sim no ‘Marta Sofia' (barco que compraram aos sogros há dez anos) apanhar peixe que ela há de vender depois. Sónia sabe a quanto está o polvo, as subidas e descidas do carapau e do linguado, tal como o sabia a mãe, também ela mulher de um pescador que passava a semana na faina. Pega no peixe sem asco, com luvas que escondem as unhas pintadas com brio no salão onde trabalham as duas irmãs, Livinha e Vânia, que preferiram fugir à vida do mar - feliz quando as redes vêm cheias, triste quando nada trazem para vender.

SEM ILUSÕES

"O meu marido disse para eu não me iludir, que o filme que ia ganhar era o ‘Até Amanhã, Camaradas'. E eu dizia: ‘Não te preocupes, estar aqui já é muito bom, nunca na vida pensei que ia a uma gala assim, com estas pessoas'. Quando disseram o nome do vencedor eu até tinha o sapatinho meio descalçado, porque tinha-me ficado a doer o pé no jantar e tive de o calçar à pressa para ir ao palco. E depois fiquei nervosa e disse o que me veio à ideia, não tinha nada ensaiado porque o Zé me disse para não me iludir..." O Zé, o marido. Enche a boca para dizer o amor da minha vida. O homem que conquistou com esforço na adolescência. "O meu marido até diz que ele é que é o famoso, porque eu no filme estou sempre a falar dele." Durante esta entrevista também. Zé é o centro do universo da Sónia mulher, da Sónia peixeira, da Sónia das Caxinas. "O João Canijo ficou tão impressionado com o nosso amor que o filme que chegou a chamar-se [numa primeira fase, nas Curtas de Vila do Conde] ‘Obrigação' passou a chamar-se ‘É o amor'. Eu e a Anabela [Moreira, que interpreta o papel de uma atriz que vai fazer um estágio nas Caxinas] falámos muito de amor. A Anabela não é muito amada, eu é que tive de lhe ensinar que o amor é fazer sacrifícios e sentir o coração aos pulos. Até lhe disse para ela arranjar um pescador nas Caxinas, que aqui ia ser mais feliz do que em Lisboa."

O filme partilha o nome com a canção da dupla brasileira Zezé di Camargo & Luciano - ‘é o amor que mexe com a minha cabeça e me deixa assim...' -, que Sónia usa em tudo o que são gravações de momentos em família. "Nos batizados, comunhões, comunhões solenes, em todas as festas dos meus filhos faço sempre um filminho com esta música, que também canto nos karaokes. E mostrei isso tudo ao Canijo..." Sónia Nunes foi a Lisboa da primeira vez para assistir à estreia do filme sobre as mestras do mar. Voltou para assistir aos Globos. Há um ano e meio tudo isto - o filme, Lisboa, os Globos - parecia demasiado distante.

João Canijo e Anabela Moreira procuravam nas Caxinas uma mulher que encarnasse com alma e graça a vida que levava às voltas com o peixe e o mar. Pensavam encontrar "as peixeiras de antigamente, que não se arranjavam para os maridos, que andavam sempre de luto, oprimidas pelos seus homens, e encontraram mulheres que pintam as unhas e vão ao cabeleireiro. Também pensavam que a vida dos pescadores era muito pobrezinha, mas graças a Deus temos semaninhas boas", conta Sónia, "a senhora número 18 no casting. Foram a minha casa e perguntaram se podia falar para a câmara. Numa entrevista de trinta minutos chorei duas vezes, estava muito emotiva porque o meu pai estava muito doente de cancro. Expliquei como era a minha vida, que amava muito o meu marido, que aqui nas Caxinas temos muita fé na Nossa Senhora porque temos de nos agarrar a alguma coisa quando os nossos maridos vão para o mar com os nossos barquinhos, que a gente tem de pedir a Deus". Acharam-na genuína e espontânea, características que não perdeu de então para cá. Houve uma coisa, apenas, que não revelou no filme: "Não quis expor isso porque o meu marido não me autorizou, mas antes de namorar com ele tive um namorado que era pescador no barco do meu pai e que morreu afogado no mar, na ilha de São Vicente. Perdi a virgindade com ele aos 16 anos, e naquela altura dava-se muita importância a isso. O Zé tinha tido muitas mulheres e não conseguia lidar com essa situação, ter uma mulher que tivesse sido de outro primeiro. Estivemos meses separados, muito sofridos, depois reatámos e ficámos outra vez zangados quando ele foi para a tropa."

Mas o amor, este amor que lhe escorre nas palavras que saem a eito, venceu os preconceitos do homem da casa e Sónia cumpriu a promessa feita em lágrimas à santa da sua devoção: "Fui a Fátima a pé para agradecer ter-me casado com o homem da minha vida." Foi há 19 anos. "Nós, as mulheres das Caxinas, fazemos papel de mãe e pai, porque os nossos maridos vão ao domingo e só chegam à sexta. Temos de ir à escola, tratar da educação dos filhos; temos de ter a casa limpinha quando eles chegarem do mar, asseada e pronta para os receber; temos de gerir o dinheiro da casa e do barco. Temos de fazer a obrigação de esposa em terra, enquanto eles fazem a deles no mar. É preciso fazer render o peixe para chegar ao fim de semana e ter dinheiro para dar ao companha, que são os homens que trabalham no nosso barco."

É O AMOR

Quando os homens chegam, à sexta, o motivo é de festa para as mulheres das Caxinas. "Bate a saudade dele quando anda no mar, por isso é que deixamos bilhetinhos um ao outro. Escrevo: ‘Amo-te muito, está a chegar o fim de semana'". Ele, o Zé da Sónia, escreve de volta, bilhetes deixados em sacos de plástico e no fundo das redes que hão de trazer o peixe se a sorte estiver de feição. "Agora, quando sabemos de um naufrágio já não vamos a correr para a areia, há outros meios de comunicação com o mar. O nosso barco é grande, mas o mar é muito traiçoeiro e quando está mau tempo o coração fica apertadinho." É por isso que todas as semanas, a cada regresso, é preciso comemorar.

"Quando ele chega à sexta vamos jantar com os nossos filhos, depois, no sábado, ele vai até aos amigos beber o café, depois vem lá pelas seis horinhas e pomo-nos todos bonitos para ir jantar fora outra vez." Ao domingo, nova "obrigação", tão certa nas Caxinas como o mar que dá o sustento: "Tomar o pequeno-almoço na padaria, ir à missinha, almoçar e vir para a caminha por volta das 15h00." Intrometida, a jornalista pergunta o porquê da ‘sesta' com hora marcada. "Fazer obrigações de esposa: tem de ser, para eles se aguentarem a semana toda no mar. Costuma-se dizer que não há sereias no mar, por isso tenho de o satisfazer em terra, é muito importante para o casal. Temos de guardar os nossos homens muito bem, quem tem bons que os estime."

Foi também isso que quis que a atriz Anabela Moreira compreendesse. "A gente abriu-se uma com a outra [viveram juntas quase dois meses] e ela depois filmava tudo o que eu fazia com uma câmara. Perguntava por que é que eu dizia isto ou aquilo e era muito observadora: até aprendeu rápido a mexer no peixe. Vi que a vida dela também é dura porque tem de pôr na cabeça tudo o que tem de dizer e ler aqueles guiões para não se esquecer. Não é que o nosso trabalho não seja duro, mas prefiro ser peixeira do que atriz." Peixeira e mestra do barco ‘Marta Sofia'. Mãe de três. Porto seguro do Zé que vai para o mar dia sim dia sim.

CAIXA: "QUANDO CHEGÁMOS, ELE FOI PARA O MAR"

"Eu e o João queremos dedicar este prémio à maravilhosa e única Sónia Nunes", afirmou Anabela Moreira enquanto a plateia aplaudia na cerimónia dos Globos de Ouro (SIC) do último domingo, quando Júlia Pinheiro e José Fidalgo anunciaram a vitória de ‘É o Amor' como Melhor Filme de 2013. "Fui vestida pela loja Principessa da Póvoa de Varzim, o que quer dizer princesa em italiano. Escolhi quinze dias antes e só tive dúvidas por estar gordinha, mas o meu Zé disse que eu estava linda. Nunca diz que eu estou gorda, diz sempre bem, é mesmo querido. Veja lá que foi comigo para Lisboa, para os Globos de Ouro, e quando chegámos, às quatro da manhã, foi para o mar." A cabeleireira e maquilhadora foi arranjada por Anabela Moreira, de quem a peixeira ficou amiga. "Trocámos os contactos e falamos várias vezes. É uma fofinha, gostava mesmo que ela fosse feliz. Passámos muito tempo juntas e isso aproximou-nos", conta Sónia.

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