O fantasma do terramoto de 1 de Novembro de 1755, que abalou a cidade de Lisboa, paira sobre a capital. E se um dia se repetir uma catástrofe desta dimensão? Que zonas ficarão arrasadas? Estarão os serviços de emergência preparados? Podemos dormir descansados? Não.
“Sempre que se aproxima o dia 1 de Novembro, já sei que vou ser procurado pelos jornalistas. Nesta altura, todos se recordam do terramoto de 1755”, ironiza Luís Mendes Víctor, engenheiro geofísico e especialista em sismos. E não é para menos. O fantasma de uma catástrofe dessa dimensão continua a pairar na memória dos alfacinhas, apesar do sismo que abalou a cidade de Lisboa já ter quase 250 anos. Teme-se que as imagens das casas a desmoronar e as ruas a abrir fendas, se voltem a repetir uma vez mais. Apesar de Mendes Víctor assegurar que um abalo sísmico igual ao de 1755 faria, hoje, menos vítimas, o sismólogo alerta para a possibilidade do fenómeno voltar a acontecer nas próximas décadas: “Não podemos ser optimistas em relação aos terramotos.” O perigo é real, principalmente na zona de Lisboa e Vale do Tejo, no Algarve e nos Açores, regiões sob a influência de duas falhas sísmicas – a mais forte, localizada a Sudoeste do Cabo de S. Vicente. E se no Continente, há muito que a terra não treme com violência (isso aconteceu em 1356, 1531, 1858, 1909 e em 1969) nos Açores (ilha Terceira, Faial e S. Jorge), poucos se esquecem do dia 1 de Janeiro de 1980, quando um abalo de 7.0 na escala de Richter matou 71 pessoas. A história repetiu-se 18 anos depois, a 8 de Julho de 1998, na ilha do Pico e do Faial, fazendo oito vítimas.
Catástrofes que se voltarão a repetir? João Luís Gaspar, director do Observatório Vulcanológico da Universidade dos Açores: “É natural que as ilhas voltem a ser abaladas por um sismo forte. Onde, quando e como será, não se sabe”.
MAIS VALE PREVENIR
O facto de surgirem quando menos se espera, torna os terramotos tão temidos pela Humanidade – e até por Fernanda Rodrigues, que se dedica ao estudo da actividade sísmica em Portugal. Para ela, este fenómeno continuará a ser imprevisível: “O estado de avanço da ciência não corresponde, ainda, ao desejo da Protecção Civil de qualquer país”, declara a directora do Serviço de Prevenção e Protecção. Nem mesmo o investimento feito pelos EUA e o Japão, que gastam anualmente 100 milhões de dólares em pesquisa, tem surtido efeito. Actualmente, e tal como acontece no resto do mundo, para calcular as probabilidades de ocorrência de um sismo, a Protecção Civil baseia-se ainda no estudo e revisão da localização e magnitude das ocorrências do passado.
Perante esta incerteza, de que métodos dispõem os especialistas para minorar os efeitos de novas catástrofes? “Felizmente, em Portugal Continental, os terramotos ocorrem tão espaçadamente que nos esquecemos do risco com que coabitamos”, diz Fernanda Rodrigues, para quem a prevenção e não a previsão, é a melhor arma. Para isso, o país deveria estar motivado para a construção de edifícios resistentes aos sismos, ou reforçar os mais vulneráveis.
2001: ANO TRÁGICO
E se olhar para o passado é ainda a única forma disponível de calcular as próximas actividades sísmicas, os cientistas concluíram que em média, num ano típico se registam 18 abalos ‘de grandes proporções’, ou seja, com magnitude entre 7 e 8 na escala de Richter, e um terramoto ‘muito forte’ (mais de 8 graus). Este ano, segundo o Centro Nacional de Informação de Sismos (CNIS), dos EUA, já se registaram onze sismos de magnitude 7 a 8, e foi em Hokkaido, no Japão, que o abalo sentido atingiu os 8,3 na escala de Richter, a 25 de Setembro. Se as estatísticas se confirmarem, outros de ‘grandes proporções’ poderão ocorrer até ao final deste ano.
Tendo em conta a natureza geológica de Portugal, não é impossível imaginar o pior dos cenários. E se isso acontecer? “Por enquanto, não há nenhum serviço de emergência, em nenhuma parte do mundo, que esteja completamente preparado para lidar com uma catástrofe”, responde Fernanda Rodrigues. A elevada densidade populacional das cidades bem como a deficiente construção dos edifícios são algumas das razões que explicam a elevada perda de vidas durante um terramoto – de acordo com o CNIS, o número de vítimas anual ultrapassa as dez mil pessoas.
Apesar de há alguns anos, como aconteceu em 2001, se terem verificado uma série de violentos terramotos, que tiraram a vida a mais de 21 mil pessoas (o que poderia ter significado que a Terra estaria num período mais instável do que o habitual) para o cientista norte-americano, Waverly Person, um ‘expert’ na matéria, não há motivos para alarme: “A actividade sísmica não está a aumentar. Agora somos é capazes de localizar abalos de pequena magnitude, além de que, quando ocorre um tremor de terra, as imagens chegam-nos pela TV".
Este ano, a 25 de Setembro, a região japonesa de Hokkaido sofreu um violento abalo, que chegou aos 8.3 na escala de Richter. Duas vítimas e 400 feridos, foi o balanço final. O pior aconteceu na Argélia, a 21 de Maio, quando um sismo de 6.8 tirou a vida a 2266 pessoas – que fez deste tremor de terra o mais mortal do ano. O Japão pôde respirar de alívio. Mas por pouco tempo. Situado em cima da junção de três placas tectónicas (cujos movimentos resultam em terramotos), é um dos países do mundo mais sujeito a sofrer fenómenos desta natureza. Através das experiências do passado, os cientistas podem tentar minimizar os danos. Com esse objectivo, o 1º de Setembro foi estipulado como sendo o Dia Nacional de Prevenção contra Acidentes, devido ao grande tremor de terra ocorrido na região de Kanto, na mesma data, em 1923. Aos japoneses, é-lhes pedido que andem sempre com um 'kit' de emergência, facilmente transportável, que deverá incluir rádio e pilhas, lanterna, velas, fósforos e água:
Data: 22 de Janeiro
País: México
Magnitude: 7.6
Nº de vítimas: 29
Data: 24 de Fevereiro
País: China
Magnitude: 6.4
Nº de vítimas: 261
Data: 25 de Março
País: Indonésia
Magnitude: 6.5
Nº de vítimas: 4
Data: 1 de Maio
País: Turquia
Magnitude: 6.4
Nº de vítimas: 177
Data: 21 de Maio
País: Argélia
Magnitude: 6.8
Nº de vítimas: 2266
Data: 21 de Julho
País: China
Magnitude: 6.0
Nº de vítimas: 16
RAIO X
Um terramoto produz-se pelo movimento das grandes placas tectónicas que compõem a crosta terrestre. As placas deslizam e chocam entre si, causando vibrações. A duração de um sismo raramente ultrapassa um minuto. Quanto maior a sua intensidade maior a probabilidade de haver réplicas. Os poucos segundos do abalo podem provocar colapsos de edifícios, roturas de barragens, cortes nos serviços de abastecimento de gás, electricidade ou comunicações. O terramoto pode dar origem a incêndios provocados por fugas de gás e, mais raramente, a 'tsunamis'. Os danos causados nas construções dependem da magnitude do sismo, da distância ao epicentro, condições locais (tipos de solos) e tipos de estruturas existentes.
Fonte: Serviço Nacional de Protecção Civil
QUE FAZER NUM TERRAMOTO?
Se está no interior de um edifício:
Não se precipite para as saídas;
Nunca utilize os elevadores;
Esteja afastado das janelas, espelhos, chaminés, candeeiros ou móveis;
Proteja-se no vão de uma porta interior, canto da sala, debaixo da mesa ou de uma cama.
Se está na rua:
Dirija-se para um local aberto, com calma e serenidade;
Enquanto durar o tremor de terra não vá para casa;
Mantenha-se afastado dos edifícios ou muros, que poderão desabar.
Se vai a conduzir:
Pare a viatura afastada de edifícios, muros ou cabos de alta tensão e permaneça dentro dela.
Fonte: Serviço Nacional de Protecção Civil
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