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A verdadeira morte de Tony Soprano

James Gandolfini morreu em Itália aos 51 anos. O ator americano brilhou na pele de um mafioso que tantas vezes escapou à morte.

23 de junho de 2013 às 15:09

A última cena da série ‘Os Sopranos' será para sempre assunto de discussão para os fã da saga dos mafiosos de Nova Jérsia. A família Soprano está reunida numa mesa de restaurante e é o telespectador quem imagina o que não é filmado. Será Tony abatido pelo homem com ar muito suspeito que entrou na casa de banho? Irá o chefe da família Soprano escapar pela enésima vez às conspirações dos seus inimigos? Será apenas um jantar de família, sem consequências?

Quando o episódio que encerrou as seis temporadas da série foi para o ar, em 2007, muitos especularam que o final em aberto poderia abrir portas a uma eventual continuação de ‘Os Sopranos', fosse na televisão ou no cinema. Agora tudo está comprometido. Aos 51 anos, James Gandolfini morreu em Roma, aparentemente devido a um brutal ataque cardíaco. Estava em Itália com o filho mais velho, Michael, de 13 anos. Filho de mãe e pai italianos - oriundos da Nápoles que Tony Soprano visitou na série televisiva para fazer negócios com a máfia local -, James era uma visita frequente de Itália. Desta vez preparava-se para ir à Sicília, onde ia receber um prémio no Festival de Cinema de Taormina. Mas a morte encontrou-o num hotel de Roma, encurtando uma carreira que lhe deu três prémios Emmy pela sua prestação como mafioso.

MAFIOSO DO SÉCULO XXI

O primeiro episódio de ‘Os Sopranos' apresenta Tony Soprano, o líder da máfia italiana de Nova Jérsia. Tony fuma um charuto na piscina da sua luxuosa vivenda e diverte-se a ver os patos selvagens a brincar na piscina. Subitamente, desmaia. Um ataque de pânico, perceberemos mais tarde. Tony procura a ajuda de uma psiquiatra. E passamos a acompanhar a terapia do bandido, a perceber a complexidade de um personagem que é tão capaz de ajudar um amigo em dificuldades como de matar um gangster do seu grupo à pancada por causa de um cavalo. Tão pronto a amar a mulher, Carmela, e os filhos, Meadow e A.J., como a procurar os prazeres das 11 mulheres com que o vemos trair a esposa ao longo das seis temporadas. David Chase, criador da série, não poupa elogios ao ator que deu vida a um personagem que fica na história da televisão: "Ele era um génio. Alguém que o tenha visto, mesmo na mais pequena das suas performances, sabe isso."

James Gandolfini até nem foi a primeira escolha da HBO, o canal que emitiu a série, para o papel. A personagem foi oferecida a Ray Liotta, que recusou por não querer ficar preso a uma série de televisão por tantos anos, e a Steven Van Zandt. Este último acabou por se tornar uma das revelações da série - guitarrista da E-Street Banda, o grupo que há décadas acompanha Bruce Springsteen nos espetáculos ao vivo, Zandt nunca tinha experimentado a representação. Não quis ser o protagonista da série, mas aceitou fazer o papel de Silvio Dante, o braço-direito de Tony Soprano na liderança da máfia. E Dante tornou-se uma das personagens mais carismáticas de ‘Os Sopranos'.

DO PALCO PARA OS ECRÃS

Nascido em Nova Jérsia, Gandolfini começou a carreira de ator no teatro. Fez-se notado num pequeno papel do musical ‘Um Elétrico Chamado Desejo', em 1992. Antes chegou a estudar comunicação na Universidade de Rutgers e teve vários empregos, como barman e gerente de clubes noturnos. Nos primeiros tempos a escolha de carreira não foi muito convicta: "Experimentei a representação no liceu e depois esqueci completamente. Por volta dos 25 anos fui a uma aula e gostei. Não acho que alguém da minha família tenha julgado que foi uma escolha inteligente. Ninguém acreditava que eu seria bem sucedido e até percebo isso. Acho que estavam contentes simplesmente porque estava a fazer alguma coisa", contou numa entrevista.

Como frequentemente acontece com os atores de ascendência italiana, James fez uma série de papéis de bandido, em filmes como ‘O Lado Obscuro da Lei', ‘Amor à Queima-Roupa' ou ‘A Jurada'. Mas era ainda pouco conhecido quando aceitou o convite para ser o protagonista de ‘Os Sopranos', que recebeu com surpresa: "Li o guião e gostei. Pensei que era bom, mas imaginei que teriam de contratar um tipo bem parecido, não um George Clooney, mas uma versão italiana do George Clooney, e a coisa ficaria resolvida. Mas telefonaram-me e perguntaram--me se eu me podia encontrar com o David Chase ao pequeno almoço. Naquela época era mais novo e saía até tarde muitas vezes. Lembro-me de ter pensado ‘mas que porra, este gajo quer tomar o pequeno-almoço? Deve ser um chato do caraças'".

Nasceu aí uma relação que durou dez anos e conquistou milhões de telespectadores, na América e em todo o Mundo. A mestria que Gandolfini revelou no ecrã resulta do empenho que aplicou no personagem: chegava a ficar em claro toda a noite e a agredir-se a si próprio para ficar num estado de irritabilidade que transmitia a Tony Soprano: "Bebe seis chávenas de café. Ou então passeia com uma pedra no sapato. É tolo, mas funciona", sugeriu, numa sessão dirigida a estudantes de representação.

O ETERNO BANDIDO

Quanto acabou de gravar ‘Os Sopranos', James Gandolfini revelou-se cansado de fazer papéis de bandido. Não escapou a eles por completo, mas, nos últimos anos, a sua atividade no cinema estava mais relacionada com a produção de filmes e documentários. Em 2009 voltou aos palcos da Broadway para um papel muito elogiado na peça ‘O Deus da Matança', um texto de Yasmina Reza. Teve um breve papel como militar no aclamado filme ‘00h30 - A Hora Negra', de Kathryn Bigelow, sobre a morte de Bin Laden, e voltou a ser um assassino, ao lado de Brad Pitt, em ‘Mata-os Suavemente'. Voltou à televisão para encarnar um advogado sem escrúpulos numa série policial da HBO que ainda não estreou.

Casado em segundas núpcias com a ex-modelo Deborah Lin, deixa uma filha de oito meses e o filho Michael, de 13 anos, nascido do primeiro casamento.

UM PSICOPATA À PROCURA DA SALVAÇÃO NO DIVÃ

James Gandolfini explicava o sucesso do personagem Tony Soprano pela ambiguidade. "As pessoas gostavam do Tony porque o David Chase (criador da série) escreveu um coro grego através da Dra. Melfi [a psiquiatra que trata Tony]. Podíamos sentar-nos com ele, perceber as suas motivações, o que ele pensava, o que ele estava a tentar fazer, o que ele estava a tentar remendar, aquilo em que ele se queria transformar. E então percebia-se que a terapia não fazia o efeito que ele pretendia. Se tirássemos as cenas da Melfi, não teríamos tanta afeição por ele, nem nos importaríamos sobre o que lhe acontecesse."

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