Uma selecção de um maestro (neste caso, maestrina) e 11 músicos de varias sonoridades e influências ‘tocam’ aqui para o mestre.
O mestre da guitarra portuguesa deixou de tocar. Carlos Paredes morreu a 23 de Julho, sexta-feira às 6h da madrugada, aos 79 anos, na Fundação-Lar Nossa Senhora da Saúde, onde vivia desde que lhe diagnosticaram uma mielopatia, doença que lhe afectou os ossos e o impediu de fazer o que mais gostava - tocar.
Paredes nasceu em Coimbra a 16 de Fevereiro de 1925. Das lições de violino e piano com que se iniciou, em criança, passou para a guitarra portuguesa. O avô ensinou-o a colocar os dedos nas cordas dedilhadas. Influenciado pelo pai, Artur Paredes, aprendeu o bê-a-bá do fado coimbrão. Mas acabou por enveredar por um estilo de tocar muito ‘sui generis’.
Os discos e louvores vão-se sucedendo. De ‘Guitarra Portuguesa’ (1967), a ‘Movimento Perpétuo’ (1971), passando pelo emblemático ‘Concerto em Frankfurt’ (1983). Depois do 25 de Abril, ganha aura mítica. Participa na banda sonora do filme ‘Verdes Anos’ e ‘Mudar de Vida’. As canções tornam-se tão populares como as longas-metragens. O melómano mais atento reconhece-lhe os acordes logo à primeira audição.
Na década de 90, são realizados vários tributos de artistas de diferentes áreas como Madredeus, Rui Veloso ou Mário Laginha. Em 1991, Carlos Paredes tocou acompanhado pela guitarra de Luísa Amaro, com quem partilhou os seus últimos anos de vida. O seu último concerto teve lugar na Aula Magna, em Lisboa, em 1993. Quem assistiu garante que foi uma despedida emocionada. Depois, a doença foi-lhe tirando forças, aos poucos. Nos dias seguintes à sua morte, não faltou quem o comparasse a Amália Rodrigues ou Fernando Pessoa. Sérgio Godinho apelidou-o de “génio”.
A par da sua dimensão artística, colegas e amigos destacaram “a vertente humana” do homem que “universalizou a guitarra portuguesa”, segundo o poeta Manuel Alegre. Para o musicólogo Rui Vieira Nery a música e a personalidade artística de Paredes “impõem-se por si próprias”. O mestre que “comovia sem fazer chorar”, acabou por fazer derramar muitas lágrimas, aos que se foram despedir dele na Basílica da Estrela, em Lisboa. Mas continua a marcar aqueles que dele não se podem esquecer.
"A MÚSICA SÓ PODE SER VIVIDA INTENSAMENTE" - JOANA CARNEIRO
PERFIL
Maestrina
Idade: 27
Ponto alto: A partir de Setembro de 2004, será ‘conducting fellow’ da Los Angeles Philharmonic.
Nunca teve o privilégio de conhecer pessoalmente Carlos Paredes, mas imagina esse encontro como uma aprendizagem pessoal. Como artista, tem alguma dificuldade em exprimir a importância e o contributo do músico: “A sua entrega à música, o seu perfeccionismo, a sua modéstia inspiraram e inspirarão gerações de artistas pelo mundo. Diz--se que Paredes deu à guitarra uma voz própria. Fê-la sua - e para Joana, a música só pode ser vivida intensamente. Modesto, chegou a dizer um dia que das suas mãos nunca poderia “sair nada de muito importante”.
E das mãos da maestrina? “A única aspiração que tenho é que a arte de cada compositor com quem me cruzo seja respeitada.”
"PAREDES CRIOU UM ESTILO PRÓPRIO" - JÚLIO PEREIRA
PERFIL
Instrumento: cavaquinho, a viola braguesa, bandolim
Idade: 50
Ponto Alto: esteve ligado à carreira de José Afonso e trabalhou com Pete Seeger e The Chieftains.
Consagrou-se na música tradicional portuguesa, tocando o cavaquinho, a viola braguesa ou o bandolim. “Também Carlos Paredes se foi afastando da tradição e criou um estilo próprio”, realça. Conhece bem a obra do guitarrista, mas os dois nunca se cruzaram nos palcos. “Naquela altura o Zeca Afonso precisava mais de mim”, reconhece o multi--instrumentista.
Apesar de reconhecer as qualidades de Paredes - que sabia como ninguém dar vida à guitarra portuguesa - nada lhe garante que o encontro entre os dois resultasse na perfeição: “Às vezes, músicos de áreas diferentes juntam-se e o resultado não é brilhante. Por isso, prefiro não traçar cenários imaginários”, confessa.
"SIMPLICIDADE IGUAL A GENIALIDADE" - ZÉ PEDRO
Instrumento: guitarra eléctrica
Idade: 48
Ponto Alto: apertar a mão ao Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones.
“A sua genialidade residia na simplicidade”, resume Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés. O guitarrista da maior banda de rock portuguesa sentia uma grande veneração por Paredes e tem pena de só se ter cruzado uma vez com ele.
“Foi na editora, na altura em que gravávamos o ‘Circo de Feras’, em 1987. Senti um arrepio.” Apesar do instrumento ser o mesmo, a guitarra, Zé Pedro sabia que havia mais a separá-los do que a uni-los. “A guitarra dele é tradicional, tem mais de 12 cordas e além disso Paredes era um mestre a tocar.” Por vezes, o ‘rocker’ de 48 anos oferece discos de Paredes aos amigos estrangeiros: “Eles ficam maravilhados.”
"A MÚSICA DE PAREDES É DIFÍCIL" - HUGO ALVES
Instrumento: trompete
Idade: 31
Ponto Alto: o último disco editado em 2003, intitulado ‘Estranha Natureza’.
É um músico autodidacta tal como foi Carlos Paredes. Hugo Alves aprendeu a tocar trompete muito cedo. E desde cedo seguiu a carreira do “prodigioso” Carlos Paredes. “Tive o prazer de abrir o concerto dele em Lagos, nos anos 90. Sou um grande fã.”
Se tivesse tocado com o guitarrista, teria bastante dificuldade em acompanhá-lo, já que Hugo considera as suas peças como “muito específicas e difíceis.” O jovem músico algarvio considera também que a guitarra portuguesa consegue atingir sons mais agudos do que o seu instrumento de sopro. “Mas gostaria de ter feito uma ‘jam-session’ com ele.”
"É DIFÍCL CHEGAR AOS SEUS CALCANHARES" - CARLOS DAMAS
Instrumento: violino
Idade: 32
Ponto Alto: concerto para violino e orquestra sinfónica em Paris de Luís Freitas Branco, em 1999.
O jovem violinista que costuma tocar sonatas clássicas de Beethoven acredita que a música é uma linguagem universal. E até já colaborou com artistas pop. Talvez por isso não se admiraria de um dia poder vir a tocar alguma das obras de Carlos Paredes: “O lado emocional é que conta, independentemente dos estilos.”
Carlos Damas compara algumas das suas canções com as de compositores como Mozart ou Schubert. “É tão simples e ao mesmo tempo tão complexa. É por isso que é considerada genial.” Se numa outra encarnação pudesse fazer um dueto com Paredes, o violinista ficaria com um pesado fardo sobre os ombros: “Nunca poderia chegar aos seus calcanhares.”
"NÃO DEIXAVA NINGUÉM INDIFERENTE" - CARLOS BARRETO
Instrumento: contrabaixo
Idade: 47
Ponto Alto: teve a oportunidade de tocar ao vivo com dois dos seus maiores ídolos, Mal Waldron e Lee Konitz.
O contrabaixista Charlie Haden foi sensível à força e improvisação de Paredes - os dois tocaram e trocaram juntos sons e ideias. Desse diálogo ficou para a posterioridade ‘Dialogues’, um dos álbuns imprescindíveis da colecção privada de Carlos Barreto. “Juntos, Haden e Parede fizeram espectáculos memoráveis. Era engraçado ver o contrabaixista à nora, a tentar acompanhar o ritmo do músico português.”
Paredes era um mestre também na arte do improviso, seguia o instinto e por isso mesmo, nunca escrevia música. “É também por isso que eu tenho uma admiração por ele. Era um génio da música, uma pessoa singular que não deixava ninguém indiferente.”
"NINGUÉM O CONSEGUIA IMITAR" - JOSÉ MENEZES
Instrumento: saxofone
Idade: 47
Ponto Alto: abertura Escola de Jazz de Torres Vedras, onde é director pedagógico e os concertos com Mário Laginha.
“O encontro de um mestre com o aprendiz.” É assim que José Menezes imagina a aventura em palco com o mestre da guitarra portuguesa. “Julgo que Carlos Paredes nunca tocou acompanhado por um saxofone, mas tenho a certeza que seria um espectáculo memorável”, reconhece José Menezes. O encontro seria uma oportunidade única de absorver uma energia que só os grandes artistas têm. “Músicos da estatura de Paredes, mas esses só aparecem uma vez na vida.”
Arrepiante é a palavra que o saxofonista utiliza para descrever a versão ao vivo do tema ‘Verdes Anos’, a intensidade da música de Paredes: “Com a morte dele, a guitarra ficou órfã. Ninguém o vai conseguir imitar.”
"PAREDES INSPIRA NOVA GERAÇÃO" - MIGUEL CARDONA
Idade: 32
Instrumento: ‘sampler’
Ponto alto: produção do próximo disco a solo de Margarida Pinto (vocalista dos Coldfinger), que sairá em Setembro.
A guitarra clássica de Carlos Paredes pode encaixar-se nos novos instrumentos analógicos? A resposta é positiva. Miguel Cardona, dos Coldfinger, um dos músicos portugueses que melhor domina as novas tecnologias, já utilizou um acorde da guitarra do “mestre”.
A canção chama-se ‘Plano’ e integra a colectânea ‘Chill Out Fado Vol. 1’. “Uso a técnica do ‘sampler’ apenas para citar o artista”, afirma Cardona, que se recusa a rapinar melodias inteiras de músicas alheias, como fazem muitos DJ e produtores. “É também uma forma de redescobrir o seu trabalho.” O músico tem uma colecção de discos de Paredes em casa. “A nova geração continua a inspirar-se nele.”
"AINDA NOS VAMOS ENCONTAR" - PAULO COLAÇO
Há cinco anos, Paulo Colaço, músico dos ‘Adiafa’, descobriu os encantos da viola campaniça - um instrumento que não se aprende nos livros: “É por instinto”, explica. O tema ‘Verdes Anos’ ajudou-o a ir conhecendo a viola. “Ele não era um músico igual aos outros. Aquilo saia-lhe naturalmente. E o mais curioso é que ele nem se devia aperceber do seu talento.”
Paulo nunca tocou umas notas com a guitarra de Carlos, nem sequer o viu ao vivo, mas ainda não perdeu a esperança de uma dia, o vir a fazer. “Se existir um mundo para além deste, ainda nos vamos encontrar e fazer um espectáculo.”
"A MELODIA DE UMA GUITARRA" - RÃO KYAO
Instrumento: flauta
Idade: não quis dizer
Ponto Alto: primeiro concerto em Bombaim, Índia, nos anos 90.
Rão Kyao e Carlos Paredes tocaram juntos. Foi apenas uma vez, há dez anos, mas o flautista não esquece. “Era um concerto de solidariedade para com o povo timorense e ele tocou com a genialidade de sempre.”
A flauta e a guitarra portuguesa estiveram unidas numa noite mágica. “A música dele tem muita melodia e é cantada. E a minha flauta encaixa-se nesse universo.” As suas músicas preferidas de Paredes são os ‘Verdes Anos’ e ‘Variações’.
“Estão lá o estilo coimbrão, que vem do pai e a sua alma única a tocar guitarra.” Tal como a flauta de Rão Kyao, que reúne a cultura ocidental e oriental, também a guitarra de Paredes era universal. “Era reconhecida em todo o mundo.”
"ERA UM MÚSICO ÍNTEGRO" - FILIPE PINTO RIBEIRO
Instrumento: piano
Idade: 29
Ponto Alto: doutoramento no Conservatório Tchaikovsky (Moscovo); nota máxima, facto único com um português.
O pianista Filipe Pinto-Ribeiro não se imagina a cruzar a guitarra de Paredes com o seu piano. “A sua música está muito distante do meu universo. Apreciava a sua forma de interpretação, mas são áreas distantes.”
A sua formação musical não se baseou nos acordes da sua guitarra, mas recorda-se dos seus pais ouvirem com paixão a música de Paredes. “Sou um ouvinte amador de Carlos Paredes.”
O pianista gosta, no entanto, de imaginar encontros musicais com compositores que já não se encontram no reino dos vivos e com Paredes não seria excepção. “Era um músico íntegro que tenho a infelicidade de não ter conhecido.”
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