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“Adoptámos um menino abandonado”

No meio da picada, encontrámos o Jaime, de 5 ou 6 anos. Não tinha mãe nem pai. A partir desse dia, andou sempre connosco até irmos embora

17 de junho de 2012 às 15:00

A 12 de Julho de 1969, parti com um contingente militar para Angola: íamos atrás do slogan conhecer o "Portugal desconhecido que espera por si", numa vila do Leste: o Lumege. Segundo camaradas do Grafanil, era uma terra que tinha "pano para mangas".

Quando nós, maçaricos, chegamos à terra prometida, os ‘velhinhos’ (camaradas que íamos render) receberam-nos com dísticos, máquinas de filmar improvisadas, enfim, com alegria. Mas a tristeza era visível: havia uma viatura destruída por uma mina e uma lápide dos oito camaradas mortos.

No aquartelamento de Lumege – a 100 quilómetros do Luso, a capital do distrito do Moxico –, valorizámos as instalações com a construção de uma caserna, uma prisão e a reconstrução do forno para melhoria de rancho. Reconstruímos ainda a messe de oficiais, que um incêndio quase destruíra. Nas paredes chamuscadas, ainda se conseguia ler as assinaturas de Cecília Supico Pinto, que fundou o Movimento Nacional Feminino, e de João Paulo Agrela, membro do grupo musical Conjunto Académico João Paulo.

Recebemos diversas visitas civis e militares, de altos dignitários a simples amigos. Esteve lá o jornalista Claude, que acompanhou o Alferes Cardoso, (considerado o nosso melhor guerrilheiro da zona Leste).

De vez em quando, ouvíamos uns tiritos que os "turras" davam nas traseiras de uma sanzala qualquer ali dos arredores, e nós já sabíamos: traziam correio. No local dos tiros, deparávamo-nos com a carta da praxe, de propaganda do inimigo.

EXPLOSÃO DE DUAS MINAS

Nas nossas missões, recuperámos populações, levantámos minas, apanhámos armamento, fizemos jus à frase "se correres atrás do turra, não corre o turra atrás de ti". E passámos por situações de perigo, como num dia em que íamos recuperar um pelotão de pára-quedistas naquela zona, em Setembro de 69: accionámos duas minas anticarro à passagem da nossa sexta e última viatura. O Unimog ficou destruído mas só houve feridos ligeiros.

Noutra missão, encontrámos um menino abandonado numa picada. O Jaime, de 5 ou 6 anos, não tinha nem pai nem mãe. E nós adoptámo-lo. Andou sempre connosco, até que no fim da comissão o entregámos a uma instituição de Luanda.

Depois de 18 meses no Leste, fomos ocupar uma posição no norte do país, em Forte República. Na recepção à companhia, havia um letreiro que dizia: "Velhos, a vossa tristeza é a alegria dos mais velhinhos." Os mais velhinhos foram então rendidos por nós, uns "maçaricos" com 18 meses de experiência. Forte República era uma vila a 240 quilómetros de Malanje, a capital do distrito. Felizmente não houve baixas na nossa companhia. Sabemos hoje que na zona Leste (1969-70), circunstâncias diversas possibilitaram também que a guerra não nos atingisse com baixas. O acordo de não-agressão entre Portugal e UNITA, as Operações Siroco, os madeireiros, a proibição de o MPLA e a UNITA (pela Zâmbia) atacarem o Caminho de Ferro de Benguela foram alguns destes factores.

A 23 de Agosto de 1971, chegámos ao "Puto" (Portugal Continental), dizendo "missão cumprida". Cheguei com a sorte de não ter traumas de guerra.

PERFIL

Nome: Fernando Hipólito

Comissão: Angola (1969-71)

Força: Companhia de Caçadores 2544

Actualidade: Reformado da Indústria de Tintas de Impressão, 65 anos, tem dois filhos. Vive em Sacavém

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