No meio da picada, encontrámos o Jaime, de 5 ou 6 anos. Não tinha mãe nem pai. A partir desse dia, andou sempre connosco até irmos embora
A 12 de Julho de 1969, parti com um contingente militar para Angola: íamos atrás do slogan conhecer o "Portugal desconhecido que espera por si", numa vila do Leste: o Lumege. Segundo camaradas do Grafanil, era uma terra que tinha "pano para mangas".
Quando nós, maçaricos, chegamos à terra prometida, os ‘velhinhos’ (camaradas que íamos render) receberam-nos com dísticos, máquinas de filmar improvisadas, enfim, com alegria. Mas a tristeza era visível: havia uma viatura destruída por uma mina e uma lápide dos oito camaradas mortos.
No aquartelamento de Lumege – a 100 quilómetros do Luso, a capital do distrito do Moxico –, valorizámos as instalações com a construção de uma caserna, uma prisão e a reconstrução do forno para melhoria de rancho. Reconstruímos ainda a messe de oficiais, que um incêndio quase destruíra. Nas paredes chamuscadas, ainda se conseguia ler as assinaturas de Cecília Supico Pinto, que fundou o Movimento Nacional Feminino, e de João Paulo Agrela, membro do grupo musical Conjunto Académico João Paulo.
Recebemos diversas visitas civis e militares, de altos dignitários a simples amigos. Esteve lá o jornalista Claude, que acompanhou o Alferes Cardoso, (considerado o nosso melhor guerrilheiro da zona Leste).
De vez em quando, ouvíamos uns tiritos que os "turras" davam nas traseiras de uma sanzala qualquer ali dos arredores, e nós já sabíamos: traziam correio. No local dos tiros, deparávamo-nos com a carta da praxe, de propaganda do inimigo.
EXPLOSÃO DE DUAS MINAS
Nas nossas missões, recuperámos populações, levantámos minas, apanhámos armamento, fizemos jus à frase "se correres atrás do turra, não corre o turra atrás de ti". E passámos por situações de perigo, como num dia em que íamos recuperar um pelotão de pára-quedistas naquela zona, em Setembro de 69: accionámos duas minas anticarro à passagem da nossa sexta e última viatura. O Unimog ficou destruído mas só houve feridos ligeiros.
Noutra missão, encontrámos um menino abandonado numa picada. O Jaime, de 5 ou 6 anos, não tinha nem pai nem mãe. E nós adoptámo-lo. Andou sempre connosco, até que no fim da comissão o entregámos a uma instituição de Luanda.
Depois de 18 meses no Leste, fomos ocupar uma posição no norte do país, em Forte República. Na recepção à companhia, havia um letreiro que dizia: "Velhos, a vossa tristeza é a alegria dos mais velhinhos." Os mais velhinhos foram então rendidos por nós, uns "maçaricos" com 18 meses de experiência. Forte República era uma vila a 240 quilómetros de Malanje, a capital do distrito. Felizmente não houve baixas na nossa companhia. Sabemos hoje que na zona Leste (1969-70), circunstâncias diversas possibilitaram também que a guerra não nos atingisse com baixas. O acordo de não-agressão entre Portugal e UNITA, as Operações Siroco, os madeireiros, a proibição de o MPLA e a UNITA (pela Zâmbia) atacarem o Caminho de Ferro de Benguela foram alguns destes factores.
A 23 de Agosto de 1971, chegámos ao "Puto" (Portugal Continental), dizendo "missão cumprida". Cheguei com a sorte de não ter traumas de guerra.
PERFIL
Nome: Fernando Hipólito
Comissão: Angola (1969-71)
Força: Companhia de Caçadores 2544
Actualidade: Reformado da Indústria de Tintas de Impressão, 65 anos, tem dois filhos. Vive em Sacavém
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.