Na Escola de Fuzileiros, após a instrução tática elementar, fiz o curso de fuzileiro especial. Era só para elites
Alistei-me na Marinha de Guerra em 1968, com 16 anos, para fugir à vida dura na minha terra. Afinal, comi o pão que o diabo amassou. Passei nos exames e ingressei na Escola de Marinheiros de Vila de Franca de Xira, onde tive 90 dias de aulas de carteira, remo e natação. Ao escolher especialidade, com o espírito de aventura, fui para os fuzileiros. Meti-me na hora do lobo.
Na Escola de Fuzileiros, após a instrução tática elementar, fiz o curso de fuzileiro especial. Era algo muito duro, só para elites. Em São Pedro de Moel, superei a prova de sobrevivência, e fui para o segundo Vietname: a Guiné. Fiquei no Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 13, mas uma avaria no motor do ‘São Gabriel’ perto de Cabo Verde levou a que passasse oito dias na ilha de São Vicente. Quando cheguei à Guiné, fizeram logo o transbordo para a lancha de desembarque e fomos por entre as ilhotas até Ganturé, um aldeamento encostado ao rio Cacheu. Recebemos o armamento e como era atirador de MG 42, com cadência de 1200 tiros por minuto, usava uma bandoleira ao ombro e carregava 14 quilos. Os dois pupilos que formavam esquadra comigo (o destacamento dividia-se em secções e as secções em esquadras) tinham 800 munições cada um.
A primeira operação não tardou. Fomos rio Geba acima e havia a informação de que andavam canoas a passar armas. Quando os avistávamos e fomos ver o que levavam mandaram-se para a água e das margens abriram fogo para um dos nossos botes. Não o afundaram, mas mataram-nos dois. Rebocámos o bote para o navio patrulha, enquanto os Fiat do apoio aéreo ‘picavam’ tudo. Fiquei com os mortos a noite inteira no convés. Com tudo às escuras, no meio da água e em zona de guerra, senti medo e horror. Ainda hoje me lembro do cheiro da carne esfacelada. Marcou-me muito.
MORFINA AOS FERIDOS
Noutra operação, em Gampará, seguíamos pela orla da mata, já ao escurecer. Ia à frente, a proteger o comandante, com a minha MG 42. Os outros estavam à espreita na mata, abriram fogo connosco em terreno aberto. Comecei a disparar e pedi a um pupilo que me desse munições. Veio a correr, mas levou um tiro e ficou com a mão destroçada. Houve um estoiro muito grande e o homem do rádio caiu para o lado. O comandante deu ordem para irmos embora, pegámos no morto e em dois feridos, sempre aos gritos, e fomos pelos campos de arroz. Andámos a noite inteira a fugir para levar o corpo e os feridos ao rio Cacheu. Quando chegámos à margem, ficámos enterrados em água quase até ao pescoço. Demos morfina aos feridos e esperámos pela lancha. À noite, sem barulho nenhum, ouvia-se a milhas, mas demorou uma hora.
Foi uma desilusão quando arrancámos pela mata outra vez, antes do nascer do sol. Estavam à espera e começaram um fogaçal que nos apanhou em campo aberto. Pedimos apoio aos Fiat e os helicópteros mandaram munições. Fomos em ziguezague pela mata e passado pouco tempo o ‘Setúbal’ viu alguém a disparar num coqueiro e deu uma rajada. Ao cair ainda mexia, mas foi morto. Entretanto vimos um vulto a mexer-se. Era um rapazinho de seis ou sete anos, que levámos de volta. Viu morrer o pai. O ódio com que não terá ficado... Faço um pedido de desculpas a todos quantos fiz mal, pois sei hoje que a guerra foi injusta.
Outra vez, fui fazer uma operação psicológica com os felupes, que faziam parte das nossas milícias. Levámos um intérprete e vinho tinto que era quase água. Cumprimentámos o líder da tabanca e apareceram dois com uma gazela atada pelas patas. Mais adiante, estava um círculo deles, todos a dançar com latas atadas aos pés. Olhei e estava um corpo de negro caído no chão, já todo golpeado. "Ai Jesus, valha-me Deus!", exclamei. Pouca gente presenciou tal coisa. E eles usavam caveiras humanas para beber vinho de cana.
Nome Manuel Rebocho
Comissão Guiné (1970-1972)
Força Destacamento de fuzileiros especiais nº 13
Atualidade Reformado aos 65 anos, é casado. Tem 2 filhos e 4 netos
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