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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

Ainda se aceitam escudos

Nove anos após a entrada do euro em Portugal, há quem use a moeda antiga para vender melhor

02 de janeiro de 2011 às 00:00

No momento em que muitos economistas e políticos discutem o futuro do euro, ainda há quem faça negócio em escudos. Na avenida Miguel Bombarda, em Lisboa, Luís Cardoso sorri, enquanto abre a caixa-registadora e mostra um maço das antigas notas com figuras dos grandes heróis da nossa História. Foi a notícia de que existiam milhares de notas de escudo perdidas que o levou a colocar o cartaz com um cifrão na entrada da loja Antes de... O símbolo já pouco significa para os portugueses, habituados ao euro desde 2002, e após várias pessoas terem questionado se podiam comprar em dólares, acrescentou as palavras: ‘Ainda aceito escudos.’

À entrada de 2011, o negócio vai de feição. Luís Cardoso vende em escudos as peças que traz do Mundo. A troca para a moeda única europeia faz-se depois no Banco de Portugal. "Nem todas as notas são válidas. Conforme as séries, ainda é possível trocar até 2022. E aparece muita gente, de todas as idades".

Os escudos que chegam às suas mãos têm diversas origens. São pertença de coleccionadores, distraídos ou herdeiros. "Há pessoas que fizeram limpezas em casas de familiares que faleceram e, inesperadamente, encontraram notas guardadas dentro de livros, caixas ou gavetas. Antigamente havia o hábito de se fazer um pé de meia e deixar o dinheiro em latas e cofres domésticos", diz Luís Cardoso. "Os mais idosos encontram escudos, que tinham posto de lado para alguma eventualidade, e aos quais perderam o rasto", conta. "Se for uma grande quantia vão ao Banco de Portugal, mas quando são notas avulsas é mais fácil fazer a compra".

PROCESSO MOROSO

Ao contrário das moedas metálicas de escudo, retiradas em Dezembro de 2002, as notas de escudo podem ser trocadas no Banco de Portugal até vinte anos após estarem fora de circulação. No entanto, é necessário preencher um impresso para requisição de numerário, onde se identifica e discrimina, por denominação, as quantidades de notas de escudo que se entregam, bem como as de nota ou moeda de euro que se pretende receber em troca.

O processo é moroso e foi para evitar "essa maçada" que deixaram de aceitar notas de escudo na loja de lingerie Ele e Ela, na avenida Almirante Reis. "Até ao ano passado tinha um cartaz na montra com as séries válidas. Entravam muitas pessoas, mas poucas compravam em escudos. Acabámos por desistir. Não compensava", refere Luís Ferreira. A sorrir, adianta que faltou a sorte para encontrar uma relíquia: "Há séries que valem muito, como aquelas notas que foram roubadas de um banco na Figueira da Foz por Palma Inácio, antes do 25 de Abril. Teoricamente, foram todas mandadas recolher por Salazar, mas andam algumas por aí".

CONTAS NA MOEDA ANTIGA

Mesmo no actual cenário de crise, o eventual regresso ao escudo seria "possível apenas no meio de uma catástrofe brutal e significaria o colapso da própria Europa", refere o economista João César das Neves.

Mas, por precaução, a Loja Pássaro, na rua Pedro Nunes, em Lisboa, mantém os preços em escudos. Os móveis antigos, catalogados no tempo em que as compras se faziam em escudos, ficaram pelos cantos. Hoje, a maior parte das etiquetas tem o preço também em euros. O cifrão é, no entanto, o indicador mais fiável. "Traz vantagens, pois muitas pessoas fazem as contas em escudos, principalmente os idosos. Apesar de pagarem em euros, querem saber quanto estão a gastar na moeda antiga. E o preço em escudos ajuda a vender", diz Braula Nunes, na loja desde 1974.

Para João César das Neves, é "normal que os portugueses ainda pensem em escudos. Também acontece aos franceses com os francos. Ocorre sempre que se troca de moeda. Tal como ainda se fala em contos de reis, anterior ao escudo". Apresentar o preço nas duas moedas é que já demonstra "uma atitude inteligente por parte dos comerciantes, pois facilita a compreensão", diz o economista.

O truque parece ter êxito. Braula Nunes atende um casal de espanhóis que pretende comprar uma cama antiga: "Custa 100 contos na moeda antiga, faço-lhe a 400 euros."

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