Perdi 32 camaradas. Na zona mais perigosa de Angola éramos atacados pelo inimigo de manhã até à noite e nunca pensei chegar são e salvo
Embarquei no Cais de Alcântara, em Lisboa, no dia 2 de Dezembro de 1967, no navio Vera Cruz com destino a Luanda, em Angola. Foram nove dias de viagem, que correu às mil maravilhas. Cheguei a Luanda no dia onze do mesmo mês e do cais de embarque fui transportado, juntamente com o batalhão, para o Quartel do Grafanil. Ali estive durante treze dias.
Dali seguimos para a Zona dos Dembos, zona essa conhecida por ser o local mais perigoso de Angola, no que respeita ao terrorismo. A minha Companhia foi colocada no Zenza e Tombo onde permanecemos do dia 24 de Dezembro de 1967 a 1 de Janeiro de 1968.
ATACADOS PELO INIMIGO
Nesse período de tempo, eu e o pessoal da minha Companhia éramos atacados pelos terroristas todos os dias, desde manhã até à noite. Nunca pensei que regressasse a Portugal são e salvo, em virtude daquilo por que passei juntamente com os meus camaradas.
Como eu era atirador, dali fomos fazer uma batida nas proximidades, onde tínhamos conhecimento de um acampamento de turras, mas o pior ainda estava para vir. Levávamos um nativo, a servir de guia, que ia à frente a indicar o caminho, para informar onde estava o acampamento de turras. Mas, depois de sermos informados pelo capitão da nossa Companhia, Vitor Alves, qual a melhor opção de nos resguardarmos de um possível ataque por parte do inimigo, poucos metros à frente sofremos um ataque de rajada por parte do inimigo. Deste resultaram ferimentos num nativo que teve de ser transportado de helicóptero para o Hospital Luanda.
Continuámos a batida e talvez a 500 metros do local onde fomos atacados tivemos nova emboscada de fogo cruzado, tendo o cabo de transmissões da minha companhia, que presumo se chamava Matos, levado um tiro de rajada no joelho direito – ficando o mesmo dependurado. Custa-me recordar estas coisas, porque volto a sentir na pele tudo aquilo que se passou . Fui eu quem levou o cabo às costas para ser assistido, durante seguramente uma hora de caminho.
Quero alertar as pessoas que desconhecem aquilo que os militares passaram nas ex-províncias ultramarinas, pois além de termos deixado as nossas famílias, nunca sabíamos se íamos regressar ou não. Só eu e os meus camaradas que passaram por elas é que se podem pronunciar. Não foram tempos fáceis para nenhum de nós.
SAUDADES DE CASA
Depois de ter estado no Cuando-cubango, que faz fronteira com a Zâmbia e Nanivea, sofremos muitas baixas.
Acabada a comissão regressei a Portugal, no mesmo barco, em Janeiro de 1970 e aí lembro-me da minha alegria ao visitar a minha mulher e o meu filho, uma vez que já era casado quando fui para Angola. Também eles ficaram muito satisfeitos em me verem são e salvo.
Quero também frisar que ainda hoje sofro com aquilo que passei no Ultramar, pois de vez em quando sonho com os meus camaradas que foram mortos.
Ao todo, perdi 32 camaradas do meu batalhão, três eram da minha companhia. Quero ainda pedir a todos os elementos que serviram a pátria nas ex-províncias ultramarinas para contarem as dificuldades, para Portugal inteiro ficar ciente daquilo por que passámos.
PERFIL
Nome: Mário Lima Vinagre
Comissão: Angola (1967-70)
Força: Batalhão de Caçadores nº 1929
Actualidade: 66 anos, casado, um filho e 3 netos. Vive em Ovar.
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