João Manuel Assunção tinha 22 anos quando, em 1917, foi mobilizado para a Grande Guerra. Saíu de Ponte de Barca rumo à Flandres, onde conheceu Melanie Augustine Beugny, uma jovem com 15 anos. Casaram, foram felizes e tiveram 15 filhos.
Quando, a 30 de Janeiro de 1917 João Manuel da Costa Assunção - integrado na 1º Brigada do Corpo Expedicionário Português (CEP) – embarca no Tejo, a bordo de um vapor britânico, não sabia que aquela viagem revolucionaria a sua vida. No dia 8 de Fevereiro, João e centenas de outros soldados, cabos e praças chegam à zona de Thérouane, na Flandres Francesa, onde o CEP assenta arraiais e participa no conflito que começara a 4 de Agosto de 1914.
Melanie Augustine Beugny tinha 15 anos quando, em 1917, conheceu - na quinta dos pais, em Ecquedecques, uma vila no Norte de França, situada na região de Pas-de-Calais - João Manuel Assunção, um militar português com 22 anos. O soldado e mais alguns elementos da sua infantaria, haviam-se hospedado no campo, na quinta da família Beugny.
Ele não falava uma palavra de francês, ela não compreendia o português. Mas foi amor à primeira vista. “Os meus pais encontraram-se duas vezes na quinta porque ele ficou lá hospedado em ocasiões diferentes mas viram-se, de fugida, em outras ocasiões durante a guerra”, diz Felícia Assunção Beugny, uma das filhas deste casal e que, actualmente, tem 80 anos.
Em Dezembro de 1918 e finda a Guerra – o Armistício entre Franceses e Alemães foi assinado no dia 11 de Novembro desse ano – João Manuel regressa ao Norte de Portugal onde pede para ser desmobilizado do CEP.
Na bagagem leva recordações de um conflito sangrento onde assistira à morte ou a doença de companheiros portugueses. E leva também o amor de uma rapariga francesa.
O CASAMENTO
No segundo semestre de 1919, João Manuel decide deixar Portugal e rumar ao encontro da sua amada. Deixa os pais e um irmão mais novo e cheio de incertezas em relação ao futuro, atravessa fronteiras até chegar à vila de Ecquedecques. E pouco tempo depois, no início de 1920, João, então com 25 anos e Melanie, com 17 anos, casam.
No dia do casamento, de manhãnzinha, a mãe de Melanie, preocupada com o futuro da benjamim, pede-lhe que reconsidere e que não “estrague a vida” ao lado de um estrangeiro. Melanie não pensou duas vezes e casou com o soldado português. Tiveram 15 filhos seguidos – 10 raparigas e 5 rapazes - que hoje têm idades compreendidas entre os 86 e os 70 anos (um deles já faleceu).
FRUTO DO AMOR
Felícia Assunção Beugny tem 80 anos, é fruto desta história de amor e a única que preserva com vivacidade a memória do pai. Tanto que acabou por ser eleita representante da Liga dos Combatentes em Pas-de-Calais. Quando confrontada sobre o porquê dela ou dos irmãos não falarem português, é incisiva: “Naquele tempo, por questões de segurança, os meus pais nunca quiseram que nós aprendêssemos o português. Os franceses eram racistas e não toleravam bem que soldados portugueses casassem com as raparigas francesas”.
Depois de casar, João teve que arranjar ofício. Com notórias dificuldades financeiras, tornou-se mineiro. “O meu pai ia trabalhar todos os dias com o uniforme vestido porque no início não tinha dinheiro para comprar vestimentas. A seguir á guerra, as condições de vida em França eram muito difíceis”, comenta Felícia.
Logo após a Guerra, João Manuel juntou-se a outros compatriotas que também haviam ficado ou regressado a França e ajudou a criar uma Associação que zelava pela dignidade dos portugueses naquele País.
Esta Associação que levou alguns anos a ser oficializada, acabou por ver os seus estatutos reconhecidos em 1926. João Manuel era o tesoureiro e deixou de legado à filha um livro precioso que dá conta, em letras miudinhas, das despesas dos combatentes a partir de 1919. “É uma raridade, eu não percebo bem o que está aqui escrito mas amigos portugueses já me traduziram algumas coisas”, revela esta filha que herdou o espólio completo do pai, incluindo o capacete que este usou no conflito e a bandeira portuguesa que transportou do Rio Tejo para a Flandres.
NÃO CONHEÇO PORTUGAL
Melanie Assunção Beugny, outra filha do casal que herdou o nome da mãe, tem 82 anos e é mais reservada que a irmã Felícia. Conhece a história dos pais mas não sabe pormenores nem detalhes: “Desde pequena que me lembro de os ouvir contar que se tinham conhecido na guerra e que quando esta terminou, o meu pai regressou a França à procura da minha mãe”, diz. E prossegue: “Não conheço Portugal nem os primos que lá tenho, nunca saí de França, a minha irmã é que já lá foi”.
Na realidade, Felícia é, de todos os filhos, a que mais se interessa pela história da família. Visitou Portugal diversas vezes onde conheceu os primos direitos, filhos do irmão mais novo do seu pai. E como não teve filhos rapazes (tem uma filha), sentiu-se honrada quando o seu neto foi baptizado de João, em memória ao bisavô. “Sinto-me muito contente porque o meu neto que anda na escola primária, manifesta o interesse em aprender o português”, revela, com uma visível ponta de orgulho.
O soldado português que regressou no segundo semestre de 1919 a França, não voltou a pisar terras portuguesas. Nunca mais. Teve a visita da mãe, nos anos 20, que foi matar saudades do filho e conhecer parte dos netos e do irmão nos anos 30.
João e Melanie conseguiram endireitar a vida e deram uma vida condigna aos 15 filhos, dos quais, curiosamente, apenas o benjamim, actualmente com 73 anos, tem nome português: José.
Felícia que há várias décadas luta para preservar a memória dos soldados portugueses em França, representa a Liga dos Combatentes em Pas-de-Calais e todos os anos, nas cerimónias evocativas da Batalha de La Lys, faz questão de estar na fila da frente, equipada a rigor e segurando a bandeira dos combatentes. Em Portugal, estas cerimónias têm lugar no Mosteiro da Batalha a 9 de Abril. “Fui representar os luso-descendentes, familiares de combatentes da Grande Guerra, à Batalha.
Foi há 3 anos e o Governo Português ofereceu-me a passagem”, conta. Nesse mesmo ano, Felicia decidiu que queria ser portuguesa. Pediu a nacionalidade. Em 2005 foi-lhe concedida e desde Setembro de 2005 que esta mulher possui o Bilhete de Identidade Português, que guarda na sua carteira, lado a lado com o cartão militar do pai.
João Manuel e Melanie Augustine foram felizes. Muito felizes. E viveram muitos anos. Viram crescer os filhos, alguns netos e até bisnetos e eram um casal estimado pela comunidade. Ele desapareceu em 1975 com 81 anos. Ela desapareceu em 2004 com 102 anos. Curiosamente, Melanie Augustine faleceu pouco depois da visita de Jorge Sampaio, então presidente da República por ocasião do 9 de Abril, à Flandres e ao Cemitério Militar Português de Richebourg.
PONTE DA BARCA, VIANA DO CASTELO, PORTUGAL PARA ECQUEDECQUES, FRANÇA
PAIXÃO ALÉM-FRONTEIRAS
João Manuel da Costa Assunção nasceu a 28 de Dezembro de 1894, no distrito de Ponte da Barca, Viana do Castelo, Portugal. Era os mais velho de dois rapazes e oriundo de famílias muito modestas. Melanie Augustine Beugny nasceu uns anos depois, a 7 de Julho de 1902, em Ecquedecques, Pas-de-Calais, França, benjamim de três raparigas.
Quando se constituiu o Corpo Expedicionário Português (CEP), João, tal como centenas de outros rapazes, foi mobilizado para combater na I Grande Guerra Foi ali que num momento de descanso conheceu Melanie, numa quinta que era obrigada a acolher soldados de várias nacionalidades a troco de pequenas moedas.
Apaixonou-se pela jovem e tímida rapariga de 15 anos que ajudava a mãe a tratar da lida da casa. Finda a guerra, João regressou a Portugal mas como deixara o coração em França, deixou a família e o seu País e correu em busca da sua amada. Casou com Melanie em 1920 e foi muito feliz.
CEMITÉRIO MILITAR DE RICHEBOURG
RECORDAR OS PORTUGUESES
Enquanto esteve integrado no Corpo Expedicionário Português - que esteve na Flandres entre 1917 e 1918 - João Manuel, o rapaz de Ponte da Barca assistiu à morte e ao desaparecimento de dezenas de compatriotas.
Estes soldados, cabos e praças portugueses que lutaram pela Liberdade e que morreram estão sepultados no Cemitério Militar Português de Richebourg, em França. Apesar de muitas lápides dizerem apenas “soldado português desconhecido”, enquanto viveu, João gostava de visitar regularmente o cemitério e desta forma, honrar os seus amigos de armas.
“O meu pai não gostava muito de falar nas mortes que aconteceram ao seu lado durante a guerra mas visitava o cemitério”, diz Felicia, uma das filhas deste militar.
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