Fazia figas e tinha os braços cruzados quando nasceu. Levou o nome de Felisbela por conta do gosto da avó paterna. Disto fala a mãe da menina que a bala de uma arma disparada por um adolescente levou para o hospital. A este, Ana Oliveira não pode perdoar
Foi mãe aos 34 anos e seria apenas uma entre tantas outras neste dia, se uma bala não se tivesse atravessado na vida da sua filha. Mãe coragem, talvez; sobretudo, uma mãe revoltada contra um adolescente de 15 anos que, a 16 de Abril, disparou uma arma quando a menina que teve no Hospital Fernando Fonseca (Amadora), há seis anos, brincava no recreio do Infantário do Pendão, em Queluz. Não consegue perdoar a quem “fez mal à preferida” dos quatro filhos que teve, como reconhece sem sombra de remorso.
Nos dias que correm, Felisbela continua internada ainda sem data da alta médica. Quando se lhe pergunta como é ser mãe, aquela que nos últimos tempos pela fatalidade tem estado no espanto e na compaixão de tantas outras mães, não encontra definição. Depois de muito hesitar responde apenas: “Uma coisa muito bonita”.
Como é que tem sido ser mãe nestes últimos tempos?
Tenho estado sempre ao pé dela, sempre com atenção. Por exemplo, hoje (terça-feira) ela queria morder o tubo do soro e eu disse-lhe: ‘Não mordas’. Voltei a cara e já estava com aquilo na boca. É muito difícil. Temos de dar tudo por tudo para que se sinta bem. Tenho de estar sempre ao pé dela e, por isso, estou agora em casa dos compadres. Enfim... Ela perguntou-me o que lhe tinha acontecido e eu disse-lhe que estava a jogar à bola, caiu e bateu com a cabeça.
Quando acorda, qual é a primeira coisa em que pensa?
Na minha filha. Lembro-me de tanta coisa. Pergunto-me como ela está; eu sei lá...
E ela pergunta-lhe o quê?
Quer saber do pai e da mãe. Durante o dia está comigo e fica mais calma e está bem. Ultimamente tem estado com febre e toma xarope.
Como é que encara o que aconteceu e, sobretudo, o adolescente que disparou a arma?
Não tem perdão. Ainda por cima, a pessoa tinha dois irmãos na creche onde estava a minha filha. Sinto ódio e não consigo deixar de pensar que ele devia estar morto. Quem faz uma coisa destas, não é gente, é bicho.
Lembra-se da gravidez?
Não foi difícil. Quando faltavam 15 ou 20 minutos para as quatro horas da madrugada rebentaram as águas. Eram nove horas quando nasceu a Felisbela. Esta filha é muito especial, muito querida. É a mais parecida comigo. Do meu primeiro casamento tive dois rapazes e uma rapariga e são parecidos com o pai deles. Esta saiu a mim e ao pai (José Carlos Lobo Dias) e é uma cara linda. Tem os meus cabelos, os olhos são dele mas é, dos meus filhos, aquela que é mais parecida comigo. Quando nasceu vinha a fazer figas e com os bracinhos cruzados. Era um amor de menina, nunca teve uma dor de dentes, de ouvidos. Os irmãos eram uma canseira.
Quais foram as primeiras palavras da Felisbela?
Mamã e papá porque a tínhamos ensinado. Aos nove meses já comia do nosso comer, já andava e tinha os dentes a romper, os de baixo, os primeiros depois a cair.
Viveu sempre com a Felisbela?
Separei-me do meu marido e nessa altura... Mas não queria falar disso.
Mas esteve separada do seu marido?
Estivemos separados mas já não estamos. Juntámo-nos outra vez por causa dela. Uma das primeiras coisas que ela me perguntou era se estava novamente com o pai. E, quando lhe disse que sim, ficou muito contente.
Quais foram os momentos mais felizes com a sua filha?
O nascimento e o crescimento dela. Tinha muita graça; ela ria-se muito.
Alguma vez se arrependeu de alguma coisa do seu papel de mãe?
O pai estava a dar-lhe uma educação diferente da que eu estava a dar. E, afinal, era ele quem tinha razão. Eu desfazia o que ele dizia e a Felisbela já não obedecia nem a ele, nem a mim. Às vezes, por culpa minha. Mas agora, se Deus quiser, o que o pai disser, está dito.
Como é que vê o futuro?
Não sei. Estou com medo. Ela tem os olhos tortos... Vejo a minha filha ao contrário do que ela era e rezo muito.
Já pensou no que vai fazer quando a Felisbela regressar a casa?
Não sei e não lhe perguntei o que quer. Ela está confusa e fala muito. Pede para vir para casa e o médico respondeu-lhe que dentro de 10 dias. Mas não é verdade... Não se sabe quando pode regressar.
Quer ter mais filhos?
Já não quero ter mais nenhum. Estou numa fase da vida em que estou a ficar sem paciência e também estou numa idade avançada. Depois não tenho possibilidades; estou desempregada.
Como era a sua mãe?
Não sei, nunca a conheci. Não tive mãe, ela morreu quando eu tinha seis meses. Fui criada por uma madrasta que me tratava muito mal.
Bilhete de identidade
Nome: Ana Felisbela Gonçalves de Oliveira
Idade: 40 anos
Naturalidade: Freguesia da Ajuda, Lisboa.
Filhos: Três filhos de um anterior casamento, de 19, 17 e 15 anos (“não tenho contacto com eles, cada um foi para seu lado e têm a vida deles, em Queluz”); e Felisbela, nascida a 19 de Novembro de 1996, da sua relação com José Carlos Lobo Dias (58 anos, reformado).
Hospital onde nasceu a filha Felisbela: Fernando Fonseca, na Amadora.
Estado Civil: Reatou a sua relação com José Carlos Lobo Dias, a pedido de Felisbela, após “uma pequena separação”.
Emprego: Não tem. A última vez que trabalhou foi como ajudante de jardinagem para a Junta de Freguesia da Damaia.
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