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ARRÁBIDA: O GUARDIÃO DO CONVENTO

Quirino Lopes de Almeida, desempregado de uma empresa de electrónica, candidatou-se a um emprego num sítio isolado. Mal sabia que ia iniciar uma vida a sós, ser actor de Manoel de Oliveira e colaborador da Fundação Carl Sagan.

21 de setembro de 2003 às 14:36

Estatura mediana, magro, caminhando entre o verde, vestido de azul, botas castanhas, acompanhado por cão rafeiro alentejano abriu a porta do Convento da Arrábida, em Setúbal. Ao fundo, atrás de si, adivinhava-se as silhuetas de dois gatos. Quirino Lopes de Almeida, 59 anos, divorciado, cinco filhos, é natural de Lisboa. É também, por assim dizer, o ‘guardião’ do enorme edifício, outrora casa de franciscanos (ver caixa). Há 11 anos que lá trabalha e faz um pouco de tudo: restaurador, cicerone, recepcionista, electricista a informático ou vigia. Ouve música clássica, fados e 'blues', embora o que goste mesmo é de ouvir os sons do mundo que o rodeia: o chilrear dos pássaros, o marejar do vento, o ruído do mar, enfim, a música das esferas. Quando os afazeres o permitem, pinta ou não fosse a natureza da Arrábida a melhor musa.

Tinha ficado desempregado (após o encerramento de uma empresa de electrónica) quando viu o anúncio para guarda. Quando entrou na Fundação Oriente, em Lisboa, para se candidatar ao emprego, do qual apenas sabia ser num sítio isolado, fez uma pausa à entrada da porta e teve uma intuição. Soube, nessa altura, que seria esse o seu próximo trabalho; teve a certeza muito antes da entrevista e sem saber sequer o nome do lugar.

UMA VIDA A SÓS

Insiste que sentir solidão, nunca sentiu. Nem sequer pensa nessa hipótese - tem tanto para fazer! Férias quase não as tem porque –- diz - está ali tão entretido que não sente necessidade de sair. “Aqui, ao convento, vem muita gente, por várias razões: uns para participar em eventos da fundação, outros para visitar o local. Visitantes de todo o mundo, desde escritores, cientistas, artistas, etc.”

No convento começou uma vida nova: lê livros com assuntos mais espirituais, interessou-se por conhecer as religiões e por saber de assuntos esotéricos. Sempre leu é certo; desde pequeno, embora não tivesse muito dinheiro para comprar livros. Mas a sua contratação para tão particular trabalho levou-o - talvez influenciado pelo lugar - a querer saber mais sobre o lado oculto e espiritual e a pôr de parte outros géneros de leitura. Diz que aquele local é ‘altamente energético’.

Já alguns escritores, depois de conhecerem Quirino Almeida, o imortalizaram nos seus livros. Caso de Jorge Marques que o fez aparecer na personagem de guardião, no seu romance ‘D. Sebastião Velho no México Casa Com Uma Índia'. Já Manuel de Oliveira o fez actor, na película ali filmada - ‘O Convento’.

À ESCUTA DOS BARULHOS DO UNIVERSO

O ‘guardião’ veste a pele de aprendiz, quando a Fundação Oriente ali organiza congressos. “A fundação tem conseguido aproximar Portugal aos países do Oriente. Através dos seus eventos vão acontecendo trocas entre os povos e divulgação dos hábitos e costumes.” Senta-se num banco em frente ao mar azul que banha as praias da Arrábida, o mesmo onde se sentava escrevendo poesia, Sebastião da Gama. Perdido do imenso espaço do Convento da Arrábida (onde todas as 19 horas acerta o relógio para que o tempo ali entre), Quirino tem outras vetustas funções. Do outro lado do oceano, a Fundação Carl Sagan conta também com os seus préstimos. Esta instituição nova-iorquina tem um programa de descodificação de informação de milhões sons que chegam à Terra através de um rádio telescópio, no Peru. Através da Internet, o guardião da Arrábida soube da sua existência e de como poderia trabalhar nesse programa. Hoje em dia, ajuda na descodificação de informação que vem de todo o Universo. “Se há vida no nosso sistema solar que é considerado pequeno em relação a outros, em outros maiores ou com as mesmas condições, não poderá haver também?”

HISTÓRIAS FRANCISCANAS

Em árabe, Arrábida quer dizer oratório. Diz-se que ali havia uma ‘arrábida’, um convento de ‘sufis’, anterior à nossa nacionalidade.

Conta-se que D. João de Lencastre, duque de Aveiro, indo em romaria ao santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, (Virgem Negra), Estremadura (Espanha), aí encontrou um franciscano: Frei Martinho de Santa Maria, que andava com ideias reformadoras e desejava viver a regra monástica em solidão. O mosteiro desabitado da Arrábida era o ideal. Quando obteve a licença do Geral franciscano para o habitar, começou o afluxo de gentes de Castela, donde monges ansiosos de reforma da vida anterior logo aderiram às novas ideias. Tal foi o caso de Frei João de Águila e Frei Pedro de Alcântara. Alguns historiadores admitem como certo que este último foi autor dos estatutos do Convento da Arrábida. Na Arrábida, os monges franciscanos criaram uma escola espiritual que viria atingir momentos de grande misticismo poético, através do Frei Agostinho da Cruz.

Depois de ter sido propriedade da família dos Condes de Aveiro e do Conde de Palmela, há 13 anos, o convento passou para as ‘mãos’ da Fundação Oriente, que tem vindo a restaurá-lo.

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