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As mais antigas memórias de Natal

A ilusão da figura do velho das barbas perdeu-se no tempo. Ficaram outras memórias. As prendas de dez figuras públicas

11 de dezembro de 2011 às 00:00

Tinha quatro anos; hoje, tem 72. Simone de Oliveira descobre que a memória tem coisas de infância, ficou presa àquele Natal de menina em que recebeu um Laitü – boneco típico da Bélgica, país onde nasceu a avó paterna. Vivia então com a família nos Olivais, num tempo em que Lisboa era diferente – aquela zona da cidade quase batia no rio e viam-se as fragatas no Tejo.

"Recordo-me perfeitamente de nesse Natal entrar na cozinha e olhar para a chaminé, por cima do fogão antigo, onde estava uma boneca loira de olhos azuis, com um vestido branco, um serviço de café em loiça, com leiteira, cafeteira e duas chávenas, e um Laitü. Aqueles eram os meus presentes" – conta. "Com o tempo perdi esse boneco, mas gostava que me dessem outro Laitü. Gostava mesmo. Se me querem ver feliz, dêem-me um Laitü".

Para António Chora, sindicalista da AutoEuropa, recuar aos anos 60 não traz abundância – o que para muitos, hoje, será o Natal possível. Alguns carrinhos de madeira. Em alguns anos, rebuçados e chocolates. Era uma família de seis – avó, pais e três filhos.

"No dia de Natal os meus pais metiam-me num autocarro dos Belos e lá ia até Montemor-o--Novo visitar uma madrinha que me dava de prenda o que o meu pai não ganhava em oito semanas", recorda.

Dormia em casa de uma tia e voltava no dia seguinte com o dinheiro que dava para pagar as dívidas da padaria, mercearia, talho. Anos depois, e desde que nasceram os filhos, António Chora veste-se de Pai Natal à meia-noite e, agora sim, pode distribuir prendas por toda a família.

ADEUS BOLA DE TRAPO

Em 1950, o ex-ministro das Finanças Eduardo Catroga era uma criança de oito anos que gostava de ver fazer os coscorões na véspera de Natal, de ver a lareira acesa, de saltar na cama em ansiedade. Viviam em São Miguel do Rio Torto, Abrantes, onde só eram conhecidas duas ou três famílias ricas. "Era o Menino Jesus que dava a prenda. Até com as peúgas ficávamos contentes. O melhor Natal da minha infância foi quando recebi uma bola, daquelas de verdade e não as de trapo a que eu estava habituado. Aquela era de borracha. Foi o maior presente que o Menino Jesus me deu naquela época".

Ao Menino Jesus escrevia Vanessa Oliveira, que do Pai Natal não gostava. "A minha tia mascarava-se mas eu nunca gostei nada. Chorava muito", conta a apresentadora. Devia ter "cinco ou seis anos, em 1986 ou 87", quando recebeu a maior prenda de todas: uma bicicleta BMX.

"Foi uma excitação. A Consoada era passada – como ainda hoje é – em casa dos meus avós paternos. Achei que ia subir às paredes com tanta felicidade. Tanto que no dia 25, quando a família acordou já tarde – porque a noite tinha sido longa –, ninguém me encontrou em casa. Pânico! Onde está a Vanessa? Pois, estava com os rapazes da praceta da minha avó, de pijama, a andar de bicicleta desde as oito da manhã". Nunca faltou o bacalhau com couve e batatas, partilhado com a família mais próxima na Consoada, e a abertura das prendas à meia-noite.

Talvez com a mesma idade de Vanessa Oliveira – mas uns bons anos antes, em 1962 –, o anterior ministro da Administração Interna, Rui Pereira – que sempre encarou "com cepticismo o Pai Natal e as suas alegadas descidas pela chaminé" –, foi apresentado ao Menino Jesus da sua terra natal, Duas Igrejas. Uma "improvável criança de cartola, olhar seráfico e espada à cintura que defendeu Miranda do Douro em 1711 e que personifica o carácter duro e doce dos transmontanos". Por ser uma memória tão enraizada nas suas gentes, o Natal lembra o Menino Jesus da Cartolinha a quem Rui Pereira ofereceu, em Junho último, duas novas fardas: uma da GNR e outra da PSP.

Não se pense, porém, que a imagem da autoridade nada lembra o Natal. O padre José Maia desmente-o. "Há quase 30 anos, estava eu na paróquia de Areosa quando um jovem me entra pela a casa adentro a fazer uma série de exigências. Queria isto e aquilo. E uma casa... Eu disse-lhe que não tinha. Então, foi-se embora bastante chateado. No dia seguinte voltou de arma em punho, que me apontou à cabeça. ‘Agora vamos lá a ver se tens ou não tens’, disse--me. Foi preso, até porque era um perigoso cadastrado. Depois do Natal, escreveu-me uma carta manifestando o seu arrependimento e oferecendo-me um cruzeiro em fósforos. Ainda hoje o guardo".

PAI NATAL DESCOBERTO

À boa maneira da casa da avó da apresentadora Ana Rita Clara, a mesa de Natal estava sempre preenchida com doçuras e pratos tradicionais. "Ainda me lembro, com ternura e com o estômago às voltas – que era como ficava depois de tanto leite-creme da avó Lurdes –, como aguardava pela visita do Pai Natal". Todas as crianças ficavam bem comportadas – Ana Rita, o irmão mais velho e os primos. Como se os últimos minutos escondessem as travessuras de um ano inteiro.

"Com sete anos, comecei a perder a inocência no que diz respeito ao homem das barbas e barriga farta. Apercebi-me das movimentações do meu tio antes da sua chegada: vi o saco de presentes escondido; o fato vermelho para ser vestido; e a esponja para engordar". Um misto de desilusão e ternura, na descoberta. "Admirava o brilho nos olhos do meu primo mais novinho... Para ele, a magia permanecia e eu não podia deixar que se perdesse. Decidi não contar a ninguém".

Na década de cinquenta, quando Júlio Isidro era mesmo o menino Julinho, "ruminava o momento em que iria pôr o sapatinho na chaminé e, em especial, a manhã seguinte, para saber se o querido Menino me tinha deixado muitas coisas – como era costume dizer-se". Acordou cedo e, de pijama com ursinhos, correu para a cozinha.

"Lá estava na chaminé do fogão ainda a lenha, de amarelos bem areados, junto ao sapato, um par de patins, um tanque de guerra e soldadinhos de chocolate". Pensou esse que era então o Julinho: "Foi muito menos do que eu tinha pedido, mas se calhar é porque ainda tenho um sapato pequeno". Esse dia passou-o a aprender sozinho a andar de patins. Nos intervalos comia os soldadinhos de chocolate. E só brincou com o blindado no final do dia de Natal.

"Acreditei sempre no Menino Jesus", confessa Júlio Isidro. "Demorei muito tempo a relacionar as saídas clandestinas dos meus pais e as entradas misteriosas no quarto deles onde escondiam os presentes".

O chef Vítor Sobral lembra-se de um Natal, devia ter quatro ou cinco anos, na terra onde nasceu, Cavadas. "Ganhei um carro a pilhas, comandado, que, para a altura, era o máximo. Mas a minha curiosidade ainda era maior. Uma hora depois de o ter recebido já o tinha desmanchado todo para saber como era por dentro. Evidentemente, quando o voltei montar, nunca mais funcionou".

A tradição, essa, o chef nunca deixou de cumprir, mesmo agora que abriu a Tasca da Esquina em São Paulo, Brasil, o dia 25 passa-o com a família. Viaja para Portugal dia 23, trazendo consigo "amigos de São Paulo".

Francisco Moita Flores também tem ligações ao Brasil na época natalícia. Foi há dez anos, quando terminava o livro ‘O Carteirista que Fugiu a Tempo’. Naquele Natal, vestiu calções de banho. O tempo era quente, diferente do Alentejo onde passou a maioria das suas quadras festivas de Dezembro.

"Na praia de Búzios, uma viúva, a quem o mar roubara o marido, estava com onze filhos encerrada no velho casebre e não tinha um copo de leite que fosse para lhes dar nessa noite de Consoada. Iam ficar sem comer pois o mar não só lhe levara o homem, como matara-lhe a possibilidade de acabar com a fome".

Moita Flores ficou chocado. "Uma multidão de olhos tristes abrigava-se em torno da mãe. Lembro de uma menina com olhos lindos e de um puto que, abandonado, fazia desenhos no chão de terra da decrépita casa e a tristeza empestava o ambiente". A noite da Consoada não devia ser assim. Aquela não iria ser. "Cada um de nós foi ao supermercado e comprou-lhes a Consoada. Paletes de ovos, leite, pão, bolos, fruta, batatas. O sentido de Natal tinha tocado a nossa sensibilidade".

No dia seguinte, um rapaz abeirou-se do alpendre da casa onde estavam os portugueses. Na mão trazia lagostins. Era o filho mais velho da senhora que tinham ajudado na véspera. Os lagostins juntaram as duas famílias, num almoço, na praia. "Foi um dos mais doces e ternos almoços de Natal de sempre".

Para Moita Flores, em relação aos anos anteriores, a Consoada deste ano difere apenas no estado de espírito. "A troika não nos rouba os afectos". Em casa de Simone de Oliveira só vão trocar lembranças com o mais pequeno, que tem nove anos. António Chora espera que "as famílias aproveitem este Natal para conviver, reflectir e encontrar coragem para lutar contra as adversidades". Acrescenta Rui Pereira que "nas horas difíceis devemos ir buscar ânimo ao fundo de nós mesmos e ser solidários". Eduardo Catroga sabe que, não sendo criança, "já não há ansiedade. Há a alegria de participar na reunião da família".

JÚLIO ISIDRO CONTA, NA PRIMEIRA PESSOA, UMA HISTÓRIA DO SEU NATAL

O PROBLEMA ERA O NÚMERO DO SAPATO

Anos cinquenta e tal, quando o Júlio Isidro era mesmo o menino Julinho. Há tanto tempo que o Menino Jesus ainda recebia os nossos pedidos de Natal e os deixava na chaminé dentro ou ao lado dos sapatinhos.

O Pai Natal, embora muito mais velho nas suas barbas brancas, ainda estava para cá chegar  dentro de uma garrafa de soda.

Lá em casa era assim: a ceia tinha bacalhau antes, peru depois e doces até fartar, em boa verdade, um menú que se prolongaria no dia seguinte porque o tempo não estava para desperdícios.

Eu não mastigava a posta do fiel amigo, nem a perna do bicho que tinha sido executado de véspera em estado de embriaguês.

Eu ruminava o momento em que iria pôr o sapatinho na chaminé e, em especial, a manhã seguinte, para saber se o meu querido Menino me tinha deixado muitas coisas, como era costume dizer-se.

Agora cama, dormir à pressa porque só no sossego e no escuro é que o Menino, vai, pé ante pé, depositar o meu quinhão de alegria em forma de brinquedos.

Acordei cedo e,  de pijama com ursinhos, corri para a cozinha. Lá estava na chaminé o fogão ainda a lenha, de amarelos bem areados pela Maria nossa empregada que era como se fosse família.

À volta do fogão, os sapatos de toda a família. Procurei o meu porque os das minhas irmãs mais pequeninas estavam muito acima da altura delas.

Junto ao sapato, um par de patins, um tanque de guerra e soldadinhos de chocolate.

Pensei:- Foi muito menos do que eu tinha pedido, mas se calhar é porque ainda tenho um sapato pequeno.

Passei o dia na varanda a aprender sozinho a andar de patins, nos intervalos comia metodicamente a tropa de chocolate e só brinquei com o blindado no fim do dia de Natal.

O meu pai recebeu um pijama, a minha mãe um conjunto de malha e as manas, bonecas espanholas que até abriam e fechavam os olhos. E chocolates.

Foi durante o almoço, reprise da ceia, mas sem bacalhau, que ouvi dizer que o Natal tinha sido assim porque os tempos não estavam fáceis…. nem para o Menino Jesus !

TAMBÉM FRANCISCO MOITA FLORES ESCREVEU A SUA HISTÓRIA

Foi há aí há uns dez anos. Estava no Brasil. Na cidade de Natal. Ausentara-me para terminar o meu livro O Carteirista que Fugiu a Tempo. Ali o Natal é quente, veste calções de banho e sabe a manga e abacaxi. O peru é travestido de picanha e o bacalhau tinha viajado clandestinamente de Portugal. Tinhamos encontro marcado na casa de um amigo português para essa noite. Longe do frio, longe do Alentejo onde devo ter passado 54 dos meus 58 natais, longe do crepitar do azinho, encontrar amigos para partilhar a ceia da amizade não retirava o sabor da saudade ás horas daquele dia.

Foi pela tarde, ainda se acendiam os carvões do churrasco, quando um desses amigos entrou cabisbaixo. Na praia de Búzios, uns metros mais abaixo, uma viúva, a quem o mar roubara o marido, estava com os seus onze filhos encerrada no velho casebre e não tinha um copo de leite que fosse para lhes dar nessa noite de consoada. Iam ficar sem comer que o mar não lhe levara só o homem, matara-lhe a possibilidade de comer. Ficámos chocados pelo relato e eu fui ver pois não acreditava em tamanha miséria. O mais velho teria dezassete anos. O Mais novo era de colo. Na barraca mal iluminada, uma multidão de olhos tristes abrigava-se em torno da mãe, abatidos, tristes. Lembro de uma menina com olhos lindos e de um puto, que abandonado, fazia desenhos no chão de terra da decrépita casa e a tristeza empestava o ambiente.

Decidimos que não devia ser assim. Pelo menos a noite de Natal não devia ser assim. Cada um de nós foi ao supermercado e comprou-lhes a consoada. Com generosidade pois queríamos acreditar que devia ser abundante e viver para além daquela noite. Paletes de ovos, leite, pão, bolos, fruta, batatas, enfim um estendal de alimentos que prepararia uma banquete para dezenas. Não foi nada de especial. O sentido de Natal tinha tocado a nossa sensibilidade.

Recebeu-nos o espanto e o agradecimento da triste e desesperada mãe.. Os portugueses haviam salvo o Natal, e sobretudo, a refeição dos seus filhos e nós fomos cear com a alma confortada.

No dia seguinte, eu escrevia no alpendre da minha casa a dois palmos da praia. Sobressaltei-me com o aparecimento súbito de um rapaz que trazia na mão um saco de lagostins. Quando o olhei com mais atenção percebi que era o filho mais velho daquela família. Levantar-se ás três da manhã e trazia como prenda de Natal o produto do seu dia de trabalho e comovi-me. Queria dar por ter recebido. Na sua dignidade de rapaz valente, não sentiu a fome como humilhação e o imperativo de agradecer impunha-lhe que desse o seu trabalho.

Como fazer para não aceitar uma prenda que é a fome de muitos? Como recusar a dignidade a quem pouco mais tem para oferecer? Hesitei. Depois sugeri que levasse os lagostins que a minha família iria almoçar com eles. E foi assim. O casebre não acomodava mais três pessoas. Comemos na praia. E foi um dos mais doces e ternos almoços de todos os meus dias de Natal.

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