page view

As rugas no rosto do Alentejo

Viagem ao envelhecimento da população em Borba, no interior alentejano, onde se vive muito

08 de agosto de 2010 às 00:00

Alentejo sabe a dias que escorrem devagar por entre as sombras que o sol poupa. Sabe a campo e a amarelo, mesmo quando a paisagem é verde. Maria Sabina não conhece outra terra ou outra vida. Nunca saiu do Alentejo e dele bebeu toda a vida, por entre os muitos que já partiram e os que foram chegando depois, ao mesmo cenário pintado a aguarela. Já são 100 os anos que carrega nas rugas, nos passos arrastados, que não vão longe "porque o doutor não deixa", e nas memórias que a cabeça não permitiu cair em esquecimento.

Naquele monte, na freguesia de Orada, em Borba, onde vive a centenária, as gerações da mesma família misturam-se por entre as birras de sono da Nádia mais pequena – de quatro anos – e as gargalhadas da Maria mais velha – a caminho dos 101 –, mas são os idosos que estão em maioria. Como, de resto, acontece em todo o Alentejo.

É uma população duplamente envelhecida – mostram os Census e as ruas que recebem aqueles que vêm de longe: uma região com menos pessoas e menos nascimentos. Aqui morre-se mais do que se nasce, mas também se vive mais tempo.

GENTE RIJA COM IDADE

"O que não falta na nossa Borba são pessoas com mais de noventa anos. Houve um tempo em que tínhamos cá muitos com mais de 100, mas foram desaparecendo. Pode ser que estes lá cheguem". Pode ser, também, que João Branco, de 79 anos – que encontramos na prosa e nos oferece semelhante previsão –, esteja certo.

Nos últimos cinco anos, Borba, um concelho do interior alentejano, despediu-se de uma mão-cheia de centenários locais, homens e mulheres. A partida de Augusto Paulo, aos 105 anos, ainda é lembrada por todos. "Não parava em casa, adorava estar na rua", recorda a nora. Nos bombeiros da terra também se lembram bem do homem que não dispensava conversa e a todos parava para cumprimentar.

"Até aos 104 ninguém dizia a idade que ele tinha. Bebia uns copos connosco, jogava às cartas no centro de reformados. O problema foi quando caiu na rua – nunca mais foi o mesmo", conta Manuel Cainelas, 61 anos, um camarada mais novo que se distrai com a sueca à hora do maior calor. Com ele estão perto de duas dezenas de homens, que não caminham para novos – mas têm riso de gaiatos –, em mesas redondas a disputar trunfos.

A acreditar na previsão de João Branco e nos rostos concentrados daqueles que não desgrudam das cartas, não faltarão centenários daqui a uns quantos anos. Até porque o encontramos em tempo de previsões felizes: "a minha neta há-de nascer este mês e bem falta fazem mais crianças em Borba, para animarem a terra e equilibrarem as coisas. Porque, aqui, a faixa etária anda muito lá por cima". É também de aproveitar enquanto são catraios e não saem de roda dos pais nem por decreto. "O meu outro neto é engenheiro informático, em Lisboa, e diz que a vida dele é lá. Pois o que ia ele ficar a fazer aqui se aqui ele não conseguia um emprego assim tão bom?".

Não foi o único. A partir de 1960, Borba assistiu a um esvaziamento gradual da população, motivado por um fluxo migratório em direcção aos centros urbano-industriais cá dentro e lá fora [França, Alemanha, Suíça] – uma tendência que continuou nos últimos anos.

MUNDO NOVO CHEIO DE BRIGAS

Os médicos dizem que Maria Sabina "tem um coração fraquinho há anos, mas o que é certo é que se vai aguentando", conta a neta, Adozinda Amareleja Pereira. A centenária já foi a mais funerais do que tem conta na memória. É das poucas alturas em que despe o pijama para vestir a saia pelo joelho e a blusa com padrão. É assim que nos recebe, na casa caiada de branco, onde vive com dois dos três filhos e um genro que a tratam, carinhosamente, por ‘velhota’. "Nunca tive nenhuma doença, só parti uma perna aos 97 anos e o primeiro medicamento que pus à boca tinha 80".

O segredo da longevidade é assim explicado a quem lhe irrompeu pela casa a uma quarta-feira de manhã. Nasceu a 29 de Março de 1910, sete meses antes da implantação da República e oito antes da promulgação da lei do divórcio em Portugal. Mas ela nunca se divorciou nem escolheu outro homem que não o seu – embora há 60 anos que conheça o estado civil da viuvez. Nunca saiu do Alentejo, onde nasceu. Enjoa nas viagens de carro, mas viu muito mundo passar-lhe pela vida. "Mas este [mundo] novo é cheio de brigas e confusão", que lhe chega mais pelos relatos da família do que pela televisão, que pouco a entretém. Também nunca viu o mar, mas sabe que já não é nos bailes que "a mocidade dança". É nas discotecas, repete uma das bisnetas, ao ouvido. Também as há na terra, "mas não com a fartura de outros sítios".

Maria, Brígida e Ana Augusta juntam-se na esquina da farmácia para comentar o tempo que passa. Estão "na chapa" depois da lida da casa. "Aqui não há muito para os jovens: nem para se divertirem, nem para fazerem da vida. É por isso que os meus netos estão empregados em Lisboa. Dois deles são enfermeiros", diz Brígida, de 77 anos.

Carla Laranjeira assinaria por baixo se estivesse a ouvir a conversa. "Houve muita emigração, perdemos muita gente. E é que já nem o campo nos salva, porque as máquinas estão fazendo tudo". O alentejano gerúndio explica bem o pessimismo. "Nasci cá, mas migrámos para Alhandra. Voltei depois da juventude, aos 20 anos, por causa dos meus pais. Durante os primeiros dez anos correu tudo bem, mas agora está cada vez pior. O comércio está todo parado [Carla tem uma loja de electrodomésticos]. Badajoz é perto e Lisboa está a hora e meia de caminho. As vias rápidas também nos tiraram as pessoas que paravam a caminho do Algarve".

O lamento dava letra de música se houvesse melodia, porque, aos 37 anos, Carla é a imagem do desalento. O marido trabalha nas pedreiras e para os filhos, ainda crianças, não quer vida de Alentejo. "Espero que um dia consigam sair daqui para um lugar melhor". Um lugar onde o ordenado ao final do mês não seja uma dor constante, lê-se nas entrelinhas da conversa.

VINHO É SEGREDO

Os de Maria Sabina foram ficando – espalhados pelo mesmo monte onde a encontrámos e por localidades próximas –, dando-lhe o privilégio de os ver crescer e multiplicar-se. Três filhos, dez netos, dez bisnetos e uma trineta é conta de que muito se orgulha a centenária, que toda a vida trabalhou no campo. Saudades, "só do tempo em que podia andar para cá e para lá" e em que o doutor estava lá longe, sem mandar na vida dela. Tem pena, porque já não pode fazer tropelias: "devia ter uns 80 e muitos quando a apanhámos em cima de um escadote a beber anis às escondidas". Preferia-o ao vinho, embora não dissesse que não "a um copito".

Dizem as gentes da terra que é isso que os conserva. "Não tenho dúvidas de que é por causa do nosso vinho branco e tinto que vivemos tantos anos", garante João Branco. "E da nossa bela açorda e da omeleta de espargos", brincam as idosas da esquina da farmácia. Com mais ou menos repastos para juntar ao menu, aqui ninguém se esquece de nomear o vinho, porque o concelho é pródigo no néctar que dá de beber a muita gente.

Os mármores também enchem barrigas, "mas dão cabo das costas", alerta Teodoro de Deus, de 76 anos. "Olhe, não sei como é que vivemos tanto, porque a nossa história é de vida dura, de luta com a pedra". Ao seu lado na mesa do café, Dionísio Teixeira, à beira dos 90 anos, concorda. "Mas uma coisa é certa: a nossa faixa etária anda pelos oitenta, noventa".

Nos lares da Santa Casa – que perderam há dois anos a centenária Mariana Banza, de 103 anos –, dos noventa e quatro utentes que compõem os dois internatos, 26 têm mais de noventa anos. José Barroso é um deles, embora poucos acreditem que esteja a caminho dos 91, pela ligeireza dos passos. Não sabe se no vinho reside o segredo, mas confessa que muito bebeu. "Fiz tudo de mal sem prejudicar o próximo, uma vida normalíssima: mulheres, vícios. Apanhei 360 mil bebedeiras, mas não gostava de vinho. Bebia porque toda a gente bebia".

Casou duas vezes e das duas enviuvou. Era o sapateiro da terra e conhece de cor a maioria dos pés que passeiam no centro de Borba – o mesmo onde vai todas as tardes para conversa fiada, no Café Paris, com outros tantos da idade dele. No lar, num quarto recheado de livros de história, só come e dorme. É o telemóvel que o mantém preso aos seus, mas "só para fazer chamadas e atendê-las. Se carrego noutro botão qualquer fico à rasca".

CAMPO PAGAVA AS CONTAS

Os filhos de Maria Sabina seguiram-lhe as pisadas no campo e a neta Adozinda também não escapou ao fado. "Os que não trabalham na agricultura estão em supermercados e pedreiras. Temos um familiar na GNR e outro no laboratório de análises". Só uma bisneta desta árvore genealógica cheia de ramos se licenciou. Hoje começa-se tarde a lida profissional, mas Maria Sabina começou cedo, ainda antes da adolescência lhe moldar o corpo, e só parou perto dos oitenta. "Depois de encontrar o meu marido encostado a um poço [suspeita-se de que terá tido um AVC aos 40 anos], andei a pedir de porta em porta para dar de comer aos meus filhos".

Tempos duros, que, em lugar de a vergarem, a encorajaram a continuar. Sobre Salazar não se alonga, até porque a enxada era o trabalho e a ditadura era "lá longe", em tempos em que o pão para a boca era prioridade principal daquelas gentes e a política não se discutia no campo. As maleitas eram afogadas na água do ribeiro. "Era lá que molhava a testa para ficar sem dor". A lucidez é evidente. "Ainda bato muito bem da minha bola".

Maria Joana também. Não fosse a idosa não ver um palmo à frente dos óculos redondos que lhe emolduram o rosto e dificilmente acreditaríamos que caminha para os 100. "Sabe o que é que o doutor me disse? Esta mulher vai viver até aos 122 anos". É a própria, à beira dos 97 anos, quem conta a convicção da bata branca. Maria Joana garante que "só Deus nosso senhor explica o segredo" da longevidade, mas vai arriscando teorias: "Subia aos telhados, amanhava costura, amanhava comida, amanhava o campo, amanhava calçado, amanhava árvores, amanhava tudo o que fosse preciso".

De tanto amanhar ganhou calo contra a velhice e quem a vê a desfiar histórias facilmente esquece a aproximação aos cem que o bilhete de identidade não esconde. "Até ia para o monte com uma besta trabalhar, sozinha", conta a orgulhosa filha, Jacinta Cordeiro, de 77 anos, para quem a mãe é "uma joiazinha. Se não fosse ela a lembrar-me, esquecia-me de metade das coisas e tenho menos 20 anos". As duas vestem de preto – uma cor que encontramos com fartura nas ruas de Rio de Moinhos, uma das freguesias mais rurais do concelho.

Os trajes das idosas contrastam com o colorido da roupa dos bisnetos que se sentam no sofá. Um deles, Bruno Pereira, na casa dos vinte, trabalha na queijaria da família, colada à habitação-miúda. "Praticamente toda a família passou pelos queijos, mas agora só há cinco pessoas nas duas queijarias. Uns formaram-se e foram embora, outros reformaram-se".

Ao lado, Luís, tem piercings, que não incomodam a bisavó. "É muito moderna e até tentou convencer o doutor a operá-la aos olhos, mas é perigoso", explica a filha. Maria Joana aproveita a deixa de Jacinta: "Sabe que em Lisboa [foi à capital, ao médico] disseram que nunca por lá passou ninguém tão rijo como eu? E lá anda mais gente do que aqui".

Na freguesia onde sempre viveu, por cada 100 pessoas activas existem cerca de 65 menores e idosos. O índice de dependência é preocupante, mas a família de Maria Joana tem, há dez meses, motivos para sorrir neste campo. "O membro mais novo da família é o bisneto Gabriel", que se juntou aos dez que já cá estavam, a oito netos e a três filhos.

Francisco Lapão, da freguesia da Matriz, já há 18 anos que não vê nascer alguém da família. "O mais novo dos netos já é maior de idade". Dos três filhos, só uma ficou em Borba – trabalha na conservatória de registo civil e mora no mesmo prédio onde vive e trabalha o pai. "Uma é veterinária no zoo de Lisboa e o outro está reformado em Loures". Deve ser dos poucos casos em que o filho se reforma primeiro do que o pai. "Sou o comerciante mais idoso de Borba, faço 96 anos no dia de Natal".

A registradora, pouco cheia em tempos de crise e hipermercados, não o desanima. "A freguesia é pouca. Hoje foi um bom dia porque uma senhora deixou cá 40 euros, mas a maioria só cá vem quando não quer ir ao Pingo Doce". Na mercearia onde trabalha há 66 anos – esteve empregado dos 11 aos 29 anos –, os bacios estão em maioria. Há-os de todos os tamanhos e cores. As vassouras têm o segundo lugar do pódio, numa loja onde não faltam as casinhas para os grilos, que "os grandes" não vendem. "Hoje trabalha-se menos. Antes saíamos de manhã, voltávamos à noite e íamos logo para a cama. Agora anda tudo muito agitado".

Lapão só não dispensa fazer a contabilidade da mercearia com a letra miúda e um "copito antes de subir" para a casa onde mora. A acompanhá-lo na adega junto à loja tem, habitualmente, David Barroso. É de Vila Viçosa e tem 68 anos. "Passo mais tempo em Borba porque há mais gente idosa, mais tempo e tabernas. Na terra onde moro é só cafés e restaurantes e as pessoas andam mais apressadas".

CORRIA O MONTE TODO

Joaquina Rosado, 39 anos, ficou na Borba dos dias vagarosos por amor e deu mais um habitante ao concelho. "É muito raro cruzar-me com carrinhos de bebé". Quando o seu Daniel nasceu, em Março deste ano, Maria Sabina comemorava os 100. Com o andarilho que a ajuda a caminhar, a centenária dá passos pequenos, enquanto ilumina o sorriso. "Se a deixássemos, corria o monte todo", comenta a bisneta de onze anos, que lhe pespega beijos nas bochechas e incha de orgulho quando a ouve cantar as modas de cor. "Ainda sei as minhas cantiguinhas, porque as cantei muito na apanha da azeitona".

Nessa altura, não tinha água nem luz e o banho era de alguidar. Nessa altura, as pernas obedeciam-lhe mais do que agora, mas ela pouco se lamenta "porque não lhe está no feitio". Diz que para o ano já não quer "cá estar" para os 101. Neste Alentejo das casas caiadas, de onde nunca saiu.

O MORADOR MAIS RECENTE

No dia da reportagem da Domingo, Miguel Pé Curto tinha 15 dias e era o mais recente morador de Borba. Filho de Suzete, uma engarrafadeira da Adega Cooperativa – onde trabalha desde os 15 anos –, e do carteiro da terra, veio juntar-se à irmã, Sofia, de oito anos. "Quando era nova pensei em sair de Borba e tinha sonhos de ir para uma cidade grande. Mas aos 22 anos conheci o meu marido e já estava na altura de assentar, por isso fiquei aqui".

"ENVELHECIMENTO CONTINUA"

Para Maria Filomena Mendes, investigadora especializada na natalidade e fecundidade, "não existe qualquer possibilidade de inverter o envelhecimento do Alentejo num futuro próximo, porque se mantém há décadas. O número de idosos foi sempre aumentando, a fecundidade diminuindo, as gerações mais jovens foram deixando de existir e as migrações agravaram o cenário, na medida em que incidem sobre a população activa jovem. No Alentejo nascem poucas crianças e as pessoas vivem mais anos".

CENSUS

Em 2001, o concelho de Borba contava com 7782 habitantes: menos 472 em relação a 1991.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8