As duas mortes na aldeia de Seara vieram alertar para a febre da carraça. A doença, que curiosamente incide mais no Norte e no Alentejo, tem vindo a diminuir em Portugal
É no Verão que atacam em força. Fazem-no às escondidas e podem vir a provocar problemas de saúde tão graves que levam à morte das suas vítimas. As carraças, as responsáveis pela conhecida febre da carraça (febre escaro-nodular, nome científico), têm vindo a atacar em menor número nos últimos anos no nosso país, ainda que o aumento das temperaturas atmosféricas convidem à sua proliferação – este ano a doença voltou a dar que falar, segundo a Direcção-Geral da Saúde foi ela a responsável pela morte de duas pessoas em Seara e pela hospitalização de mais sete do concelho de Ponte de Lima.
Com sintomas idênticos aos da gripe, são muitos os casos que não são detectados com a rapidez desejada. As febres altas e o mal-estar acompanham sempre esta patologia e por vezes são suficientes para baralhar os clínicos. A acompanhar estes sintomas são ainda a considerar dores de cabeça, musculares e articulares, gânglios linfáticos aumentados, mialgias, náuseas e vómitos, diarreia, perda de equilíbrio, manchas na pele, estado mental alterado e artrites. Em relação às complicações que podem surgir, no topo estão quadros de insuficiência respiratória aguda, recorrendo-se por isso, muitas vezes, à ventilação mecânica.
Após a picada da carraça, o período de incubação varia desde os três aos 30 dias, período em que não se manifestam ainda sintomas. Embora tradicionalmente considerada uma doença benigna, de acordo com informação disponível no site da Ordem dos Médicos, “nos últimos anos tem-se registado um aumento da mortalidade”.
Por ser um parasita de animais domésticos, sobretudo no cão, a carraça pode conviver com uma família sem que seja detectada. No entanto, é nos meios rurais que ela está em grande força e que ataca sem rodeios.
Ainda que as medidas profiláticas sejam difíceis de tomar, como explicou Jorge Ramos, responsável da sub-região de Évora da Administração Regional de Saúde do Alentejo, é sempre aconselhável, quando se vai para o campo, sobretudo na altura do Verão, “não ter partes do corpo expostas, usar roupa protectora, aplicar repelentes de insectos e evitar passar por zonas infestadas”. Sem dramatismos, Jorge Ramos deixa a mensagem que “uma vez iniciado o tratamento, a cura é em geral rápida. Só uma pequena percentagem de casos tem complicações mais graves”. Com menos defesas, os idosos e indivíduos com doenças crónicas debilitantes estão mais expostos às possíveis complicações.
DOENÇA EM RETROCESSO
Sendo uma doença infecciosa de declaração obrigatória – causada por uma bactéria, cujo principal veículo de transmissão é a carraça – as estatísticas mostram que as carraças já fizeram um maior número de vítimas em anos passados e que estão particularmente activas no Verão, sobretudo no mês de Agosto. A febre da carraça tem uma baixa incidência durante o Inverno.
Um total de 425 casos foram registados no ano de 2003. De 1999 até ao ano passado, as estatísticas do Ministério da Saúde indicam que se está a andar no bom caminho. Assim, em 1999 registaram-se 984 casos de febre da carraça, um ano mais tarde, 786, em 2001 o número baixou para 667 e em 2002 para 507. Em termos geográficos, a região Centro tem sido aquela aonde a doença tem tido maior incidência, e o Algarve aonde foram detectados menos casos. O Alentejo e a região Norte estão praticamente lado-a-lado no número de pessoas vítimas da carraça, logo atrás do Centro.
As crianças parecem ser o alvo preferencial destes pequenos parasitas. Entre um ano de idade e os quatro a incidência de casos sobressai de entre os restantes grupos etários. Logo a seguir estão crianças e jovens entre os 5 e os 14 anos. As pessoas com idades compreendidas entre os 50 e os 60 anos são os terceiros na lista.
CARRAÇA DEIXOU-A EM COMA
Já passaram dois anos mas Antónia Lobo, 50 anos, ainda sente diariamente a ‘herança’ de uma febre que a atirou para um coma durante 10 dias e que fez os médicos avisarem a família de que já nada haveria a fazer. Agora, com uma força redobrada, esta vítima da carraça sente a vida com outra força e tenta aliar-se da mazela que lhe ficou: dois dedos de um pé foram amputados e são frequentes, e muitas, as dores que sente naquela parte do corpo.
Foi numa noite de Agosto que Antónia, que então passava uns dias nas termas, sentiu um alto no braço quando se deitava. “Adormeci a pensar que no dia seguinte tinha de ver se tinha sido mordida”, lembra. Dias mais tarde a febre começou a atormentá-la e não havia antipiréticos que a dominassem. Após uma ida ao Hospital de Portalegre e com remédios para o estômago na bagagem, regressou às termas, de onde rapidamente foi para casa, em S. Pedro da Gafanhoeira, Arraiolos.
O mal-estar, a febre, as dores e a falta de forças eram tantas que assim que regressou ao lar um filho chamou a ambulância para ser vista no Hospital de Évora. Ao relembrar deste período difícil, Antónia sente um hiato desde esse momento até cerca de 10 dias mais tarde, quando saiu de coma. “Quando acordei vi os meus pés negros e sentia grandes dores de cabeça e pensei que tinha tido um acidente de viação.”
Nesse período quase tudo lhe aconteceu. Com um historial clínico que incluía problemas do foro cardíaco, esta alentejana sofreu naquela altura, como nos recorda, “paragens cardíaca e renal e uma encefalite”. A sorte voltou a sorrir-lhe quando a nora sugeriu ao médico se não seria febre da carraça o mal da sogra, uma vez que esta tinha estado no campo. Feitos os exames, os resultados deram positivo e a medicação acertada, seguida de três choques eléctricos, encarregaram-se de tirar Antónia do coma.
Cerca de quatro meses mais tarde regressou a casa, não sem antes ter sido submetida a duas intervenções cirúrgicas aos pés. De então para cá, as idas ao neurologista a Lisboa têm-se sucedido e neste momento os pés já respondem a 80 por cento.
Sem tempo nem feitio para lamúrias, Antónia Lobo reconhece que o apoio da família e dos vizinhos e amigos foram muito importantes para a sua recuperação. Depois de 13 meses em casa pediu ao médico para ir trabalhar – é cozinheira numa escola – e de então para cá não parou mais. Admite que sempre que anda no campo tem algum receio de ser novamente o isco fácil de uma carraça, mas, passados anos de sofrimento, hoje o pensamento que a consola é que para aquilo por que passou, “hoje já me considero boa”.
CARRAÇAS MAIS AGRESSIVAS
Em todo o Mundo existem cerca de 800 espécies de carraças, das quais perto de 10 estão em Portugal. Este parasita necessita sempre de encontrar um ou mais hospedeiros (animal a que recorre para se alimentar e sobreviver), e é vasto o leque de animais que servem os seus intentos.
Frequentes nos cães, as carraças podem também ser encontradas em equinos, bovinos, suínos e felinos, entre outros. Uma carraça adulta pode pôr entre 2000 a 20.000 ovos, os quais se destacam do hospedeiro e ‘aterram’ no solo, de preferência em zonas de vegetação.
As carraças são portadoras de um micróbio denominado protozoário que chega aos glóbulos vermelhos do hospedeiro, muitas vezes o homem, acabando a doença por se manifestar alguns dias mais tarde, dependendo do tipo de protozoário de que se trata.
As carraças que este ano – de acordo com a DGS – foram responsáveis pelas mortes em Seara, têm porém uma carga virulenta mais agressiva. Por isso, as autoridades de saúde já começaram a investigar o genótipo da estirpe da ‘rickettsia’, o agente infeccioso.
Segundo Pereira Miguel, director-geral da saúde, em declarações ao ‘Correio da Manhã’, as condições ambientais propiciaram a que a região onde se deu o surto fosse infestada por carraças que revelaram uma actividade mais intensa que o normal.
Por outro lado, e dado o pouco que se conhece sobre a estirpe em questão (’rickettsia’), o Instituto Ricardo Jorge iniciou uma investigação epidemiológica. O elevado número de pessoas infectadas em simultâneo pode assim ser derivado apenas de uma coincidência de factores que contribuiram para uma maior agressividade nas carraças.
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